domingo, 3 de junho de 2012

Suspiria

Existe um lado de Rui que Ana não conhece. Não é apenas um lado, e nem um lado qualquer. É algo tragicômico e que, ao mesmo tempo, causa um riso esquizofrênico. Nas aulas de teatro e nos bares do baixo gávea ele vem trabalhando a possibilidade de se tornar o cisne negro, de expurgar a fantasia de homem bom. Não sabe como dizer a Ana que não pode mais vê-la. Ela não entenderia a ideia de não poder, por ser dessas pessoas que acredita em liberdade. Para Rui é um imperativo. Os sensitivos sabem quando um delírio vermelho pode explodir a qualquer momento. Rui precisa ir embora, porque o rompimento é coisa inevitável que vem de anos em anos pra balizar as ideias dos estranhos. Na última sexta ele disse aos alunos, durante um execício de expressão corporal, que é humano querer matar aquilo que se ama, e que é preciso ser voluntarioso para ser ator, ao extremo. Os jovens se entreolharam temerosos de que sua juventude perdida os tornasse quarentões confusos como Rui, pois já não se faz mais causas como antigamente. Numa noite finalmente bem dormida, sonhou que visitava os Estados Unidos e decidia, de súbito, não mais voltar, depois de conseguir um subemprego qualquer por meio de um conhecido. Escreveu carta a Ana contando seu sonho, mas não mandou. Ana não é Freud, ela não é ninguém. Ultimamente Rui tem sentido uma perturbadora vontade de bater na cara dela ou jogá-la numa cama e transar de um jeito que fira a delicadeza da sociedade ortodoxa. Mas o que acontece são essas discussões sobre Chico ser melhor que Caetano e vice-e-versa, o que já não quer dizer mais nada. Quem viu "Suspiria", de Dario Argento, sabe que existem bruxas por todos os lados, e, cedo ou tarde, elas sempre vão aparecer.

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Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

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"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

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