quarta-feira, 20 de junho de 2012

Inércia

Queria que houvesse ali
Lamparina de azeite
Mas só a luz de poste cortava
23 agora, hoje
Lamparina nem se usa
Os anos não se contam

O tempo é outro
É aquele
Quando iminências deveriam ter sido
Antes que morressem na inércia

Morreram

Morreremos ausentes
No paradoxo menos original do universo

Da miséria ao caos
Midas ao contrário
O que eu toco vira merda

Meu lábio
Rachado e seco
Não vejo cerca, gente ou placa
Que indique o tamanho
Dessa promessa retirante

Bipolaridade absurda
Procrastinação velada
Piada de mau gosto
Que quebra e cola pedaços
Com a aflição de uma droga

Não, não vale a bad
Esses cinco minutos
Cenário mórbido
Trupe sazonal
Se apresentando em círculos
E circuitos

Precisamos migrar
No vale da onda
Outra desgraça
Outro alimento pra queimar
Na lamparina
Que a gente usa do modo mais deletério

O corpo fala

Avisos claros
Essa luz não presta
Dói nos olhos
Como a atopia que coça
Meu tempo autoimune
Não se move

E volto
À coisa-epiderme
Atrito, carne, chão
Que dó nenhum provê
E o texto não resolve

terça-feira, 5 de junho de 2012

A crônica não veio

"Convivo com ele há tanto tempo, já não sei mais se é bonito ou feio, é apenas ele". Uma amiga soltou essa pérola a respeito de um conhecido. Tal frase foi criando efeitos e desdobramentos na minha cabeça, e nada mais tem a ver, diretamente, com nenhum dos dois. Eu realmente suponho que, um dia, quando se conheceram, ela deve ter tido alguma impressão ao olhar para a cara do sujeito, algum veredicto instantâneo tipo fotografia. Ah, todo mundo sempre tem o seu. Mas passaram os anos, a retina acostumou, e o rapaz, materialmente falando, já virou paisagem. Virou paisagem! Se fazemos isso com uma pessoa, o que não fazemos com o espaço?!

Acho curiosa a dinâmica do transeunte, que é todo conectado, vive atraído pelo movimento, olhando, metendo o nariz, mas se complica quando tem que desligar o modo de albinismo mental, também conhecido como arco-reflexo, piloto automático, ou, ainda, distração, para os menos sutis. Em geral, a gente dá uma primeira escaneada, sente a energia, demarca os pontos de referência, e, daí em diante, nunca mais enxerga nada que não escape fervorosamente ao habitual. Em casa, televisões ajudam, na rua, é o celular, no metrô, são os telões da companhia, que todos nós, acredito, consideramos extremamente úteis em conteúdo informativo. Eu, pelo menos, não sou capaz de ter um dia satisfatório sem conhecer as temperaturas máxima e mínima previstas para Curitiba. 

Falando em metrô, vale contar uma história curiosa: num fim de tarde, a moça descia as escadas intermináveis da Cardeal Arcoverde, quando bateu os olhos no telão. Havia um papo sobre "Pavuna" ou "Saens Peña", qualquer coisa que ela não viu, mas o hábito saiu do controle, as letras foram desembaralhando, isso nunca acontece, e o texto foi penetrando a couraça, e chegou no pensamento, e ela estava lendo "Açúcar", o poema do Ferreira Gullar. Diga-se, de passagem, um bom exemplo de como a crítica social pode ser feita "sin perder la ternura". Poemas mexem com a outra natureza dela, a menos transeunte, e não é todo dia que aparece uma literatura no metrô, quanto mais poesia, quanto mais do Gullar. 

Com o corpo vacilante e serrando uma frase ao meio, ela apertou os olhos, franziu a testa, arquivou as palavras-chave e correu para entrar no vagão, ainda balbuciando o verso lido, mas sem entender porque não esperou pelo seu desfecho. Cinco minutos a mais, um outro trem na plataforma, e ela tinha levado o texto todo na boca. Ficou com o "Açúcar" pinicando na língua, e ficar pensando nisso, que angústia! Ficar pensando... Sorte que a viagem até a General Osório é curta. Lembrou logo que tinha conta vencendo naquele dia, mas não parava de repetir "O branco açúcar que adoçara o meu café / Nesta manhã de Ipanema / Não foi produzido (...)". 

Com a métrica na cabeça, procurou um banco vazio e viu o poema sentado, digo, o poeta, e tudo foi embaralhando de novo, como antes. Como assim? Cadê a verossimilhança? Voltou a franzir a testa e, porra, era o Gullar! Não podia ser outra coisa, aquele senhor que, num ângulo de 45 graus, parece uma senhora de óculos e nariz avantajado. Será que estava indo a Ipanema tomar um café com açúcar? Ela sentou-se ao lado dele, meio emocionada, meio receosa do estado de suas faculdades psíquicas, ficou olhando para a frente alguns segundos, virou, de supetão, e disparou a falar com o homem, contando tudo o que acabara de acontecer. Ele entenderia. Ele tinha de entender, porque a situação, agora, era outra. Por obra do acaso, um quase-compromisso havia sido criado, e o Gullar, sendo o Gullar, teria de partilhar com ela da necessidade de discutir sobre essa relação. Não sei se partilhou, mas completou o restante do poema. "(...) Nem surgiu dentro do açucareiro por milagre (...)". 

Já passadas algumas semanas, ela ainda comprava a Folha de São Paulo todos os domingos e vasculhava a internet na esperança de que o poeta comentasse algo em sua coluna. A crônica não veio. Quando essa moça me contou essa história, descansávamos sobre a grama de uma Quinta da Boa Vista lotada de gente, tinha show, e muitos quase-compromissos apareceram e desapareceram no meio daquela multidão, exatamente como o seu comigo e o de Gullar com ela. Verdadeiros pactos de memória em teia. A minha crônica veio, mas tenho outras que nunca virão. Pelo menos, ainda acho que saberia dizer se a moça é feia ou bonita.

domingo, 3 de junho de 2012

Suspiria

Existe um lado de Rui que Ana não conhece. Não é apenas um lado, e nem um lado qualquer. É algo tragicômico e que, ao mesmo tempo, causa um riso esquizofrênico. Nas aulas de teatro e nos bares do baixo gávea ele vem trabalhando a possibilidade de se tornar o cisne negro, de expurgar a fantasia de homem bom. Não sabe como dizer a Ana que não pode mais vê-la. Ela não entenderia a ideia de não poder, por ser dessas pessoas que acredita em liberdade. Para Rui é um imperativo. Os sensitivos sabem quando um delírio vermelho pode explodir a qualquer momento. Rui precisa ir embora, porque o rompimento é coisa inevitável que vem de anos em anos pra balizar as ideias dos estranhos. Na última sexta ele disse aos alunos, durante um execício de expressão corporal, que é humano querer matar aquilo que se ama, e que é preciso ser voluntarioso para ser ator, ao extremo. Os jovens se entreolharam temerosos de que sua juventude perdida os tornasse quarentões confusos como Rui, pois já não se faz mais causas como antigamente. Numa noite finalmente bem dormida, sonhou que visitava os Estados Unidos e decidia, de súbito, não mais voltar, depois de conseguir um subemprego qualquer por meio de um conhecido. Escreveu carta a Ana contando seu sonho, mas não mandou. Ana não é Freud, ela não é ninguém. Ultimamente Rui tem sentido uma perturbadora vontade de bater na cara dela ou jogá-la numa cama e transar de um jeito que fira a delicadeza da sociedade ortodoxa. Mas o que acontece são essas discussões sobre Chico ser melhor que Caetano e vice-e-versa, o que já não quer dizer mais nada. Quem viu "Suspiria", de Dario Argento, sabe que existem bruxas por todos os lados, e, cedo ou tarde, elas sempre vão aparecer.

Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

Seguidores...

Sobre a dúvida...

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

  © Blogger templates The Professional Template by Ourblogtemplates.com 2008

Back to TOP