sábado, 31 de março de 2012

Saideira

Bebi a últma cerveja, aquela, da garrafa marrom-translúcido, sabe qual é? Fui pegar o 434, deu bad, me arrependi de ser assim, não sei bem como, a Lapa girando, num segundo parecia alegria, depois virou tristeza, muita, não quero isso, mas é rápido, rápido. Não sei. Acendi um cigarro “free”, cigarro de mãe, tão free quando uma excursão de ensino fundamental ao Hopi Hari. Essa pluralidade intelectual-juvenil, cheia de futuros, hormônios, coisas alternativas-que-na-verdade-são-mainstream e entorpecentes, às vezes amamos, mesmo sabendo ser fake. Pura trollagem. A carência é um fato, ninguém consegue se expôr por inteiro, nem um quadro. Amo mentiras sinceras. Amo quando ela mareja os olhos porque sente. Ainda existe o inevitável. Tentei, mais uma vez, chamar o garçom de “Zé” e ser prontamente atendido, mesmo que eu não aceite pagar os 10% no fim desse texto. Deu certo. Esqueci o que estava dizendo... Ah, é que às vezes esqueço que o presente já virou passado quando chega o “ente”. Bêbado até quase vomitar, acho que era eu, perto da Lavradio, pigarreando uns desejos desesperados de viver enquanto dá pra não morrer disso, ou não procurar morrer, mas muda rápido. Me beija logo antes que a gente mude! Não, já mudou. E tanta coisa feita e dita é só um jeito de gastar o momento. Espero ter munição de sobra, só pra torrar agora, ontem, amanhã, e tudo de uma vez quando vier o bloco, aquela menina-Michael-Jakson dançando Billie Jean. A Lapa é sempre cheia de adornos (e Horkheimers junkies). Tenho a impressão de que tudo isso já mora atrás dos meus olhos. Tenho a impressão de que já vi ela sorrir o mesmo sorriso de canto de boca naquele outro dia, outro porre, outros nós, atados e desfeitos com açúcar, com afeto, mas sem futuro. Aliás, será que alguma coisa tem futuro nessa porra? Será que estou dormindo no ponto? O ônibus demora. O cochilo é inevitável. Acontece, eu, com alguma frequência, me metendo não sei onde, os pés pelas mãos, as mãos pelos bolsos, só querendo uma emenda constitucional da Dose Dupla e uma clareza de mundo mansa e transparente como o mar do Peró em fins de Dezembro...

quinta-feira, 8 de março de 2012

Balão de Sorvete

Uma interrogação se arrasta
Entre ruas estreitas
O sexo pulsa em línguas que mentem
É noite atrás dos olhos
Não, é fim de tarde
Tenho fome
Quero comer, com colher de sobremesa
O cérebro de quem acredita
Ainda
Ainda é cedo
Os lobos estão dormindo
Quero foder na mesa desse bar
E evocar a angústia num grito bêbado
Estrada triste
Ainda asfalto
Onde estão os campos de centeio
Que aparecem naqueles filmes?
Caralhos alados entulham nossas bundas
Senhores recitam autores clássicos
Bem na minha cara!
É tudo mentira, tudo, tudo!
(A Eva morde a maçã e sou eu que me fodo?)
Mas se não vejo, não ouço, eu?
Não estou na sala, estou delirando de febre
Na parte mais cavernosa do inferno
Ah, você me vê? Você é louco!
É tudo mentira
A sua voz que declama banalidades
Eu quero transformar numa canção de Caetano
Em memória ao Pentobarbital
Pelo amor de Deus, fica quietinha
É noite atrás dos sonhos
Deita aqui
Nessa calçada suja
Não fosse o monóxido de carbono
Até poderíamos contemplar as estrelas
Mas finge, finge mais! Finge que eu quase acredito
Olha lá a constelação de capricórnio, você não vê?
Voa comigo
Tenho sangue nos olhos
Vícios nas mãos
E algumas moedas no bolso
Ah, quanta cegueira! Ninguém é nada
É tudo especulação
E todo mundo finge que não sabe
Que todo mundo finge que não sabe
Que todo mundo finge tudo
Ou será que ninguém vê o balão de sorvete?
Os lobos estão chegando, olha
Olha como é gostosa
A vida que eu não tive
É tudo mentira mesmo, então é tudo barganha
É tudo carapuça
É tudo verdade
É a alma que se deixa violentar na porrada
Entre tapas invertidos
Bem com os ossinhos da parte de trás
Da mão direita
É o meu hábito de caminhar no escuro
E dar de cara em coxas, peitos, bocetas
Bocas nervosas, cus dando bote
É a finalidade final da existência
Enquanto a máquina nos entorpece
E a solidão da física nos justifica
(Dois corpos não podem ocupar um mesmo lugar
Aliás, será que Sartre comia alguém?)
Nessa puta falta de sacanagem
E de perspectivas
Eu queria era ver a mão do palhaço
Desbaratar nosso delírio coletivo
Esse blá blá blou de ter que ser alguma coisa
De ter que saber alguma coisa
De ter que ter o que dizer
De ter uma história pra contar
E achar essa “erudição” um barato
E onde é que fica o senso de humor?
(Que é o mesmo senso do trágico)
Será que no apocalipse da semiótica
Nos bateríamos uns nos outros
Feito baratas tontas?
Será que embarcaríamos
Em viagens fantásticas
Como num livro de Júlio Verne?
Será que acabaríamos presos no mundo
Da Caverna do Dragão?
Ah, porra, eu quero que a Uni se exploda
Eu quero que alguma coisa me acerte logo
No meio da cara
Onde tudo passa raspando, tudo arranha
Tudo aranha cabeluda
Que nunca morde
Eu quero gozar essa mentira
Eu quero me despir da paixão
Insuportável
Que limita porque expande
Caixa de pandora cuspindo
Selvagerias sinceras
Na substância do corpo
No vazio do copo
Enquanto a vida é válvula de escape
Da vida
Essa ausência me machuca até o tutano
Do último osso
Da última vez em que morri
Até acordar amanhã de manhã
Ao lado da interrogação
De novo

Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

Seguidores...

Sobre a dúvida...

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

  © Blogger templates The Professional Template by Ourblogtemplates.com 2008

Back to TOP