quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Mitologia

Quando a poeira baixou, ela surgiu. Minha cama desfeita expunha a apatia instaurada após o dilúvio. Trazia nos olhos uma outra dimensão que em nada lembrava o meu paraíso decadente. Trazia as mãos frias como quem acabasse de descobrir os segredos da criação. Vinha me dizer o que, em faro místico, eu já imaginava: quando perdemos o Oriente, nossos anseios transeuntes caminhavam juntos. Nunca mais vimos o Farol de Alexandria. Nunca mais nos envolvemos nos cabelos do mar Egeu. Nosso amor era simples, era tão simples que sequer pensávamos sobre a semântica da palavra "amor", era tão simples quanto tudo o que é realmente belo no mundo. Mas Gaia exasperou, chegava ao fim a Pangeia. Os robôs do tempo sucumbiam à ferrugem que come toda máquina. Ela surgiu, e então me abstive de tudo o que nos era sobra: ignorei o pecado original; não quis mais saber sobre o nexo da existência; não intentei julgar o significado de Deus. Só sei que ela surgiu, e já não tenho medo ou raiva quando me acusam de planar num universo fantástico. Quero somente descobrir, junto a ela, o nirvana do mundo dos sonhos ou dos delírios, onde todos os elos na cadeia do infinito sejam livres: ela, eu, Gaia, o Oriente perdido, o Farol de Alexandria, os códigos, as máquinas, os mares... Cada coisa ocupando o seu espaço essencial. Nessa mitologia, não haveria mais um Atlas à procura de apoio para o peso do mundo. O mundo poderia permanecer onde quisesse, e por que não sobre mim? A cama poderia jazer desarrumada. Não havendo dor e não havendo ânsia, tudo poderia pesar sobre as costas, porque as costas já não fariam sentido, e muito menos o peso.

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Manifeste-se!


Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

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"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

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