sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Anunciação

Havia uma
Outra maneira
Morta na inércia
Do passo rápido
Batismo de sangue
No cálice do tempo
Coisa ampulheta
Forma de traço mínimo
Medida do medo
Grito de dor
Declaração de guerra
Iniciação ao rito
Vômitos irrompendo
A imagem surgindo
A hora chegando
Quarto branco
Tela
Puro arremesso
Ânsia de fim
Colo de asfalto
Cama de gato
Tentativa e erro
Bocas anuladas
Em lenço de seda
Ponta de lança
Sentimentos extremos
Pensamentos bizarros
Vistas embaçadas
Móbiles no teto
Demônios na janela
O céu se dissolvendo
E as mãos sujas de esperma.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Mitologia

Quando a poeira baixou, ela surgiu. Minha cama desfeita expunha a apatia instaurada após o dilúvio. Trazia nos olhos uma outra dimensão que em nada lembrava o meu paraíso decadente. Trazia as mãos frias como quem acabasse de descobrir os segredos da criação. Vinha me dizer o que, em faro místico, eu já imaginava: quando perdemos o Oriente, nossos anseios transeuntes caminhavam juntos. Nunca mais vimos o Farol de Alexandria. Nunca mais nos envolvemos nos cabelos do mar Egeu. Nosso amor era simples, era tão simples que sequer pensávamos sobre a semântica da palavra "amor", era tão simples quanto tudo o que é realmente belo no mundo. Mas Gaia exasperou, chegava ao fim a Pangeia. Os robôs do tempo sucumbiam à ferrugem que come toda máquina. Ela surgiu, e então me abstive de tudo o que nos era sobra: ignorei o pecado original; não quis mais saber sobre o nexo da existência; não intentei julgar o significado de Deus. Só sei que ela surgiu, e já não tenho medo ou raiva quando me acusam de planar num universo fantástico. Quero somente descobrir, junto a ela, o nirvana do mundo dos sonhos ou dos delírios, onde todos os elos na cadeia do infinito sejam livres: ela, eu, Gaia, o Oriente perdido, o Farol de Alexandria, os códigos, as máquinas, os mares... Cada coisa ocupando o seu espaço essencial. Nessa mitologia, não haveria mais um Atlas à procura de apoio para o peso do mundo. O mundo poderia permanecer onde quisesse, e por que não sobre mim? A cama poderia jazer desarrumada. Não havendo dor e não havendo ânsia, tudo poderia pesar sobre as costas, porque as costas já não fariam sentido, e muito menos o peso.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Um ano ou um dia

Às vezes o relógio cansa
O mundo é tão cheio do tempo
Que cria fantasias nos meus sonhos
De toda manhã
Hoje, existi um pouquinho
Saí correndo pela vila
E me atirei no futuro
Não, não corri, caminhei
Acho que não me movi, afinal
E o suor dos meus braços apoiados
já dissolve a espuma emborrachada
Da cadeira tipo presidente
Que mora no meu quarto há anos
Será?
Será que ela me ajuda a inventar
As histórias que deveriam me inventar?
Será que ela sente, como eu,
Que um ano ou um dia
Têm sido a mesma coisa?
Será que vi isso num filme?
Será que guardei a espuma do mar
No bolso da bermuda?
Será que queimei com o cigarro
A tensão superficial da vida
Bolha de sabão?
Será que um dia esse ponteiro acerta
E essa ausência some?
Já não faço a menor ideia do que é fato
Ou do que é ideia
E não sei porque pedem coerência e rimas
Quando mal sei meu nome

Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

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Sobre a dúvida...

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

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