quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

"Os Incompreendidos" (1959), de François Truffaut.



Primeiro filme do crítico e cineasta François Truffaut, “Os Incompreendidos” estabelece um dos marcos da Nouvelle Vague, a “nova onda” que marcará o cinema dos anos 60. A obra foi apresentada ao mundo em 1959, conquistando a crítica e recebendo o prêmio de melhor direção no festival de Cannes, onde adquire um caráter de quase-manifesto em prol do rompimento com a tradição clássica no cinema francês. Seu título original provém da expressão faire les quatre cents coups, significando algo como “pintar o sete” ou “quebrar as regras”, o que é brilhante por sintetizar não apenas o sentimento da adolescência oprimida como também os novos conceitos de cinema que o próprio Truffaut e outros nomes – dentre os quais Jean-Luc Godard, Eric Rohmer e Jacques Rivette – queriam expôr.

O filme conta a história de Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), um rapaz com cerca de treze anos que vive uma trajetória de falta de perspectivas e solidão na Paris de fins dos anos 50. Fascinado pelo cinema e pela literatura, e levemente inclinado à delinquência, Antoine desenvolve com os adultos que o cercam – os pais, o professor de francês, os policiais – uma relação pautada menos por desprezo do que por um grande distanciamento, o distanciamento que respalda a incompreensão. Todos os personagens apresentam virtudes e defeitos ao longo da trama, não havendo algum que se possa notoriamente apelidar de bom ou mau. Neste sentido, é necessário ter em vista a simultaneidade dos papéis que desempenham como vítimas e autores de um estranhamento coletivo: na solidão de Antoine, exposta em cada minuto, apenas o amigo René (Patrick Auffray) e nós - os espectadores - estamos em posição privilegiada com relação ao garoto, acompanhando-o desde a aula que “matou” para ir ao cinema até o semifurto da máquina de escrever. Os adultos, por sua vez, se mostram materialmente próximos, mas subjetivamente distantes, de Antoine e de René, sem dúvida, mas talvez deles mesmos, como na referência à vida dupla de Gilberte, quando a personagem volta para casa após encontrar seu amante (e ser flagrada por Antoine) e retoma o espaço da família da exata mesma maneira que antes, o que – longe de questões moralistas – já nos transmite uma inevitável sensação de afastamento ou estranhamento, senão de hipocrisia.

Tecnicamente falando, existem vários elementos que chamam a atenção e que não corroboram com os padrões clássicos então vigentes: primeiro, a maravilhosa trilha sonora de Jean Constantin, que forja um ambiente de imersão para o espectador e vai conduzindo as nuances da narrativa. Constantin recria vários arranjos para uma mesma melodia de forma a adequá-la em cada momento da história, trazendo sentimentos como os de melancolia, solidão e rebeldia, sempre remetendo, simultaneamente, à infância. Os ângulos de enquadramento da câmera também são interessantes na forma como propõem conceitos, estando no alto (plongée) nas cenas em que Antoine se vê oprimido e inadequado, e embaixo (contra-plongée) nos momentos que suscitam a liberdade da personagem, como nos pequenos delitos que comete. Um bom exemplo deste jogo de câmeras é a cena em que a mãe de Antoine comparece ao reformatório para dizer que desistiu dele, filmada sob um ângulo de câmera no alto, mostrando a posição de inferioridade do garoto naquela situação. O uso de panorâmicas e de planos abertos reúne um grande número de elementos no espaço diegético, buscando expôr o complexo ambiente que cerca o protagonista, fundamental para a compreensão da história. Em relação à montagem, o filme não é muito “recortado”, com uma notável presença de planos-sequência, característica que marcará não apenas esta obra como as produções seguintes da Nouvelle Vague. Além destes aspectos, os primeiros-planos e closes são precisos e extremamente bem pensados, ressaltando a dramaticidade de Antoine nos momentos mais importantes do enredo. Já as sequências externas, por sua vez, são numerosas, mostrando liberdade com relação aos estúdios, ideia defendida por Truffaut em seus escritos para a Cahiers du Cinéma.

Muito emblemática, a sequência final (que sempre me emociona) resume, em sua excelente construção, alguns dos elementos citados acima: Antoine foge do reformatório durante um jogo de futebol e, num imenso plano-sequência em travelling, corre em direção a algum lugar que, posteriormente, numa panorâmica, vemos que é a praia. A duração da cena e a ausência da música incidental – com apenas o som das folhas pisadas - causa algum desconforto e, apesar disso, curiosidade. No momento em que a praia é apresentada, a trilha sonora entra e Antoine caminha na areia em direção ao mar, enquanto se aproxima, lentamente, da câmera. No final, ocorre um zoom e o filme encerra de maneira excêntrica, congelando o rosto de Antoine em close, tendo a personagem um olhar que propõe certa continuidade, quase sugerindo um final inacabado em que a falta de rumos do menino permanece flagrante. Vale dizer que a sequência, no todo, é de um impacto e de uma intensidade sensorial inexprimíveis, e quanto mais a assistimos mais atraente ela se torna, agindo como se "crescesse" dentro do espectador.

Por recontar diversos elementos de sua juventude no filme, incluindo mesmo uma passagem pelo reformatório, François Truffaut constrói a personagem de Antoine Doinel como uma espécie de alter ego que o acompanhará em mais quatro produções, sempre com interpretação de Jean-Pierre Léaud: “Antoine e Colette”, um dos esquetes do filme “O Amor aos Vinte Anos” (1962); “Beijos Proibidos” (1968); “Domicílio Conjugal” (1970); e “O Amor em Fuga” (1978).

A obra-prima que abriu os caminhos do ainda jovem Truffaut (27 anos à época do lançamento) para uma carreira sólida, “Os Incompreendidos” é um filme simples – mas não raso –, de intensa beleza e melancolia, e, na forma como o sinto e percebo, particularmente, parece dizer mais sobre a incompreensão na alteridade humana como um todo do que numa problemática puramente juvenil.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Nublados

Naquela manhã
Chegou como quem era dona
De tudo
Abriu meu Neruda
Num verso qualquer
E leu para o universo
Como fizesse uma oração
Daí ouvimos Beatriz
E Ana de Amsterdam
Ela me perguntou entre beijos
Se eu não era feliz
Eu gargalhei
Ela se exaltou
Me pediu um café forte
Não tardou em disparar filosofias
Sobre o meu medo de amar
E eu
Me esquivando dos seus berros
E nos salvando do absurdo
Arranquei o Neruda do seu colo
Arranquei o lençol do seu corpo
E transamos contra o tempo
Meio desesperados
Até cair num silêncio tão eloquente
Que se ouvia o crepitar da brasa
Nos cigarros.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Feliz Aniversário

Quase dois anos se passaram. Por educação e por carinho, envio uma mensagem de "feliz aniversário" e você nem sequer me responde "obrigada". Mais de um ano em que não a vejo, em que não nos falamos, em que não sei pra que lado foi o seu destino. Opção sua, até aí tudo bem. Tantas e tantas coisas aconteceram nesse breve período imenso. Eu não pretendo sabotar a sua liberdade de fingir que eu morri, eu não tentei, com essa mensagem, restabelecer um contato incômodo e desencontrado no espaço-tempo. Eu tento não me incomodar por você desviar os olhos ao me encontrar na rua, e apenas evaporar, pálida como um fantasma. Não, não é nada disso, eu apenas quis desejar um feliz aniversário, e dizer, nas entrelinhas, que não me esqueci de você e nem pretendo fazê-lo, porque não vou compactuar com essa loucura imatura de alienar, à toa, um pedaço grande e fundamental da minha vida.

Não sei o que se passa na sua cabeça. Na minha, posso dizer que dominam os questionamentos sem respostas. Já devo, quem sabe, ter agido de tal forma que me tornasse merecedor do seu amor, do seu carinho, do seu ódio ou até mesmo da sua pena, porém, no seu desprezo, eu me sinto incapaz de entender a minha imagem. Entendo, sim, que talvez você não possa me explicar os porquês, já que a subjetividade das sensações sobrepõe qualquer desventura racional, mas admito que considero esse silêncio, na forma em que se constitui, uma covardia amplamente desnecessária. Mas isso é um problema meu. Suponho, baseado em algumas experiências, que sou capaz de superar a maior dor do mundo se compreendo a sua origem, mas não sou capaz de superar uma simples ansiedade que eu não saiba de onde nasceu. Eu tento agir em coerência comigo mesmo e com o status quo de todas as realidades que me cercam, e a nossa realidade, sob o meu ponto de vista, é a de que não tenho motivos para ignorar você na rua ou para me esquecer voluntariamente do seu aniversário, e acredito que, da mesma forma, você não tenha motivos para me repelir ao ponto de não manifestar, via texto, um simples, curto, grosso e descompromissado "obrigada". Não doeria nada em você, mas doeu muito em mim.

Fico triste em perceber que, aos poucos, a consciência está destruindo a admiração quase espiritual que eu sempre lhe dediquei, e que gostaria de manter por ser um sentimento bom e puro, coisa rara na vida. O amor é resistente, ele continua lá enquanto tudo degenera ao redor. Mas e daí? Estou vivo, ainda, e pensar nisso não resolve nada. Tenho a certeza absoluta de que vou amar você para sempre, talvez não você, mas a sua lembrança. Só vejo que esse amor é cada vez mais imbuído de melancolia e decepção, e é pena que eu vá morrer com um sentimento tão distorcido, pois sei que, de alguma forma, tudo poderia ter sido diferente.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Origens

Me deito sobre as raízes
Esfrego meu peito na terra
Quero a amplitude do elemento original
Quero dormir a natureza
Entre sonos de morfina
Não, essa beleza não morre
À golpes de rotina
Se for comida aos soluços
No campo desse amor absurdo
A sua presença de neblina turva
E desespera
Não, não quero bucetas bípedes
Quero asas que me sequestrem do tempo
E sexos que me transem ao cume
Das origens
Quero bocas e ouvidos que me transmitam
Quando meus sentidos revelarem as mais céticas
Idiossincrasias
Apodrecendo todas as paixões
Que gritam nos sonhos de eu-criança
E declinam numa dança de musas
Fleumáticas e vazias.

Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

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"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

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