domingo, 9 de outubro de 2011

Canto da Sereia

Há o silêncio, entre as palavras centuriões em riste, no oculto dos sentidos, na falácia das comunicações. Há que se pescar o silêncio usando isca de palavra, dizia Clarice.

Mas o silêncio engana, cavaleiro do apocalipse. O silêncio finge ser o eclipse enquanto é tudo o mais: o eclipse, a lua, o céu e o sol.

O silêncio quer ser silencioso, mas ele reverbera, ele nunca se cobre da poeira do tempo, ele grita, ele salta na lembrança.

Quero esse silêncio férreo em ponta de punhal que fira o corpo da desgraça, mas ele não me alcança.

Ação e reação.

Quero esse silêncio trilha da porta de saída, ou de um labirinto que gaste o esforço da tentativa de sair.

Ouvir ou não ouvir o silêncio?

O silêncio é a mensagem, mas pode ser um chamado indistinto entre a sanidade e a loucura, e pode ser na mesma voz.

Nada mais verdadeiro do que o canto da sereia.

Há, ainda, que se diferenciar o fogo da fumaça, e que se medir o vigor da ausência contra a anemia da palavra, tanto que já me vejo ausente em palavras e todo palavreado em ausências.

Sim! Toda forma ideal habita o silêncio, e, portanto, há que se possuir, em algum lugar de todo lugar, o antigo Egito, os mistérios de Elêusis, o teu e o meu nome gravados... Porque cada elemento converge ao silêncio e nele encontra a partícula fundamental. Ele que é contrassenso, que pare e não acalenta, que é beira de precipício, que é luz que cega.

A desgraça oscila suave, superfície de lago que não seca, cacofonia que entope as ideias.

E entre ocupações e êxodos há, na mente, o estado de alienação, que é analgésico para o incompreensível.

Há, no corpo, o estado de dormência, que é fantasia de conhecer o silêncio e hábito de viver.

E há, no silêncio, a vida, que é muito chiado pra pouca sinfonia.

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Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

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"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

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