quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Limite

Desde que você foi embora, talvez antes
Tenho andado sobre e entre as superfícies do tempo
Bolhas de sabão
Limites frágeis para a minha condescendência com a vida

Não caminho em campo aberto
Atravesso véus de seda
Abrindo labirintos
Como no sonho branco de um paraíso insalubre

Às vezes, a vejo pontuar o horizonte
Guia silenciosa
Mas quando me mexo, a imagem vacila
Seu rosto some

Permaneço eu, a contragosto,
Lamentando o inaudito
As palavras que nasceram em nossas bocas
Penderam por nossos corpos
E se perderam por aí

(Tudo é nada se o estado é de dormência)

Estou ficando louco, com certeza
Mas não tenho medo
Porque quando eu perder a consciência
Não vou mais ter de fingir que sei jogar
O jogo

Anatomia do Esquecimento (nota nº 1)

Às vezes me parece que o preço do esquecimento é muito alto: quase sempre fica difícil cortar um pedaço do filme sem se perder na narrativa. Hoje, tentei lembrar como era o sexo com você. Inesperadamente, não consegui remontar a cena em minúcias, capturando toda a complexidade envolvida no momento. Pode parecer natural, mas isso me perturbou sobremaneira, já que costumava ostentar uma excelente memória sensitiva. Após algum esforço de abstração, senti que não podia fazê-lo sinceramente, sem idealizações ou utopias. Já tenho a impressão de que a materialidade do desejo de viver - ou de continuar vivo - sufoca esses pensamentos, e eu me perco do seu corpo, gestos e planos de futuro como eu me perco de mim mesmo num abismo de futilidades e insatisfações estéreis.

Anatomia do Esquecimento (nota nº 2)

Era uma quinta-feira, por volta de 23:30h, em algum motel barato. A noite caminhava tranquila, enquanto ele, obsessivo, sugava da moça toda a saliva e o suor que pudesse, como se nos fluídos permanecesse impregnada a essência de um achado, ou como se procurasse criar pontos de referência, para, mais tarde, lembrar de tudo com maior vibração. Queria, mesmo, engolir-lhe inteira. Queria engolir todas as coisas do mundo por inteiro, numa refeição completa: carne, músculos, derme e epiderme, partes de mística simbologia, significantes de um desejo. O significado intrínseco a elas vinha de sua própria fome de vida, que ali encontrava terreno fértil para objetos de profunda análise... Na geografia daquela mulher, ele atingia o êxtase do estrangeiro em viagem por terras inexploradas.

Lembrava das corridas sem rumo de moleque, quando cada passo de estrada era um frio na barriga e uma ideia na cabeça ("epifania", esse é o termo). Sabia que era capaz de amá-la para sempre, porque cada forma de atração e contato é um afeto: sua língua formigando de cansaço é um afeto; os joelhos ardendo nos tacos do chão, outro afeto distinto. Naquela tarde, guardava um desconforto e uma angústia em pensar que não sabia o seu roteiro das próximas horas, o seu destino imediato.

“ - E se todos os afetos pudessem se ligar ao sujeito como características, de uma tal maneira que a gente carregasse no corpo as cicatrizes da história, sem pensar em nomes, como uma amarra infalível de elos de vida? Será que, de alguma forma, ainda que escusa, cada afeto marca pra sempre?"

Perguntou-se, por retórica, e a sua razão forçosamente ébria indicava que sim. Naquelas circunstâncias, dada a violência desse pensamento, enlouqueceu brevemente com ele. A descoberta era crítica, aguda, mas presa à volatilidade de um momento, porque no momento do momento aquilo que se sente é sempre a mais absoluta verdade, e a única. É a própria totalidade da essência. Nutria, em seu âmago, um imenso pavor de esquecer. Era escritor, não podia se dar ao luxo de deixar uma experiência para trás, solta por aí, à mercê de um qualquer que lhe pudesse roubar o ineditismo e a densidade criativa.

“ - Quando algo me machucava, não sei, algum corte, alguma pancada, podia até desejar morrer só pra que aquela dor de milésimos de segundo parasse imediatamente. Quero dizer que, às vezes, a opção mais sensata não é a mais efetiva. No fim das contas, tudo são momentos, e eu não quero ser mártir de causa alguma, nem quero depender de um longo prazo. Lembrar dói, e a dor é urgente. Por outro lado, não sei esquecer. Saber, esse é o verbo. E se não sei esquecer, então não vou esquecer, não posso esquecer e não quero esquecer. Uma coisa leva à outra. E como fica esse absurdo de existir diante de um mau presságio sobre a viabilidade de esquecer? Esquecer? Só consigo carregar o mundo pra sempre ou apagá-lo inteiro de mim. É tudo ou nada...”

Seria tudo, provavelmente, já que ele agora assinava a confissão da onipresença de seus afetos, e podia mesmo parar o tempo ali só pra não acabar ateu. Era perigoso deixar pra depois e perder o rumo na utopia. No dia seguinte, ele sabe, vai ser mais encheção de saco e de linguiça, mais balbúrdia na vida dele, mais informações, explicações pra dar, gente querendo quebrar o pau, virar a mesa, mais e mais papos furados no boteco, mais birita, mais lisergia... E aquele amor malpassado tomará parte ativa em reprogramá-lo, entrará para o seu código, se imiscuirá ao resto do bolo e fará com que ame a próxima anônima (anônima?) de alguma forma diferente do que jamais amou. Talvez melhor, talvez pior, mas, no mínimo, diferente.

“ - A lembrança é um edifício fantasma em meu nome. Não posso erguê-lo do próprio esforço, mas não sei quem o faz por mim, na minha ausência, e à minha revelia”.

Imaginou, ofegante, se conseguiria armazenar ao menos o cheiro daquele quarto, costurado entre os hormônios de ambos e o alvejante vagabundo dos lençóis. Apesar disso, em seu íntimo, ele sabia que, já amanhã, no trabalho, ou na fila do banco, será algum outro homem qualquer, desses que passam na contramão da calçada e a gente, inflado de superegos, não vê. Amanhã estará indisposto pelo enjoo do destino, bombardeado pela materialidade, e já terá esquecido tudo (tudo?) o que refletiu sobre esquecer. E todo o insight de ser um Deus das possibilidades e plenitudes terá esmorecido. No ápice da filosofia, é chato perceber-se, de repente, fragmento de si mesmo. Nessa hora, ele quis prender o gozo pra que a vida se arrastasse de mansinho, um pouco mais, um pouquinho mais... Foi um sopro de poder que teve. Uma rebelião de juventude. O conceito era bom, mas por ser carne, por ser sangue, por ser matéria inexorável, ele não transcendeu: apenas gozou.

"- Não é à toa que os franceses chamam o orgasmo de la petite mort..."

domingo, 9 de outubro de 2011

Canto da Sereia

Há o silêncio, entre as palavras centuriões em riste, no oculto dos sentidos, na falácia das comunicações. Há que se pescar o silêncio usando isca de palavra, dizia Clarice.

Mas o silêncio engana, cavaleiro do apocalipse. O silêncio finge ser o eclipse enquanto é tudo o mais: o eclipse, a lua, o céu e o sol.

O silêncio quer ser silencioso, mas ele reverbera, ele nunca se cobre da poeira do tempo, ele grita, ele salta na lembrança.

Quero esse silêncio férreo em ponta de punhal que fira o corpo da desgraça, mas ele não me alcança.

Ação e reação.

Quero esse silêncio trilha da porta de saída, ou de um labirinto que gaste o esforço da tentativa de sair.

Ouvir ou não ouvir o silêncio?

O silêncio é a mensagem, mas pode ser um chamado indistinto entre a sanidade e a loucura, e pode ser na mesma voz.

Nada mais verdadeiro do que o canto da sereia.

Há, ainda, que se diferenciar o fogo da fumaça, e que se medir o vigor da ausência contra a anemia da palavra, tanto que já me vejo ausente em palavras e todo palavreado em ausências.

Sim! Toda forma ideal habita o silêncio, e, portanto, há que se possuir, em algum lugar de todo lugar, o antigo Egito, os mistérios de Elêusis, o teu e o meu nome gravados... Porque cada elemento converge ao silêncio e nele encontra a partícula fundamental. Ele que é contrassenso, que pare e não acalenta, que é beira de precipício, que é luz que cega.

A desgraça oscila suave, superfície de lago que não seca, cacofonia que entope as ideias.

E entre ocupações e êxodos há, na mente, o estado de alienação, que é analgésico para o incompreensível.

Há, no corpo, o estado de dormência, que é fantasia de conhecer o silêncio e hábito de viver.

E há, no silêncio, a vida, que é muito chiado pra pouca sinfonia.

Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

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Sobre a dúvida...

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

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