quarta-feira, 29 de junho de 2011

Confissão (ou a espera de um Deus ex machina) - Parte II

Quanto tempo mais terei de esperar para saber a verdade? Alguns meses, anos, uma vida inteira, a eternidade transcendental?

O não-entender é a pior das penalidades que me poderiam ter sido dadas. E não entendendo eu não abstraio, não supero; e não superando o caminho permanece em contramão, ou brecando à suspeita de qualquer vestígio, qualquer migalha de justificativa para o passado-presente. Acho curiosas e muito voluntariosas as reaparições deste meu ontem: na banalidade dos dias, vou entupindo de vida as minhas artérias, os poros, e vou me cercando de questões, aleatoriedades, objetos, ações, sentimentos. Mas numa noite qualquer, deitado em minha cama, ou voltando pra casa, no ônibus, eu percebo que ainda sou o mesmo cara que se pode atingir da mesma forma com algo que, na prática, já não vigora mais. E quando volta, dói como se fosse agora, dói de retorcer o estômago. Meus olhos enchem d'água inevitavelmente, e morro de medo de nunca saber os porquês, e morro de medo de nunca mais vê-la, ou de vê-la súbito, quando tudo estiver resolvido dentro de mim. E morro de medo de que ela viceje no meu corpo até o último segundo, e morro até de saudades, não sei se dela ou da paz que eu tinha em minha "outra vida"; não sei se dela ou da sensação de que, quando deflagrada a primeira batalha da terceira guerra mundial, eu saberia exatamente a quem avisar, e para onde correr, e mais resoluta e cabal do que a ciência de Deus seria a presença dela, sob cujos braços eu estaria protegido contra mil canhões, e mil palavras pontiagudas, e mil angústias de juventude, e mil leões, e áspides, e setas que voam de dia, e crises de depressão, e topadas ardidas no dedão do pé. E nesse momento, transgredido de um tal "destino certo", tudo o que eu quero é, no mínimo, o entendimento sobre o fim. Não aceito abdicar do direito de saber, mas a quem recorro? Onde fica a côrte do absurdo do amor e do humano? Onde está a arbitragem dos erros de roteiro no teatro da vida?

E quando me vejo preso a esse passado inexplicado é que percebo o quanto a biologia tem sido injusta comigo! "Nascer, crescer, reproduzir, envelhecer e morrer", é a urgência de todos nós, eu sei, mas mais urgente é encontrar um motivo, uma meta, um rumo, um ritmo qualquer que permita ao sujeito manter a sanidade e seguir reto... Sem cambalear.

sábado, 25 de junho de 2011

Solstício de Inferno

Inverno, agora,
Hiberno.

No chão as palavras pingentes
Que ditas na cara, ou entres os dentes
Jamais vingaram na sua alma infértil

Hiberno, sim, e que saída?
Não vou morrer por fome de amor
Nem vou matar por fome de vida

Me explica, por favor, o seu problema!
Como é que você nunca se cansa
De repetir os erros mais mesquinhos?
A vida não é um piquenique de domingo
Com papai, mamãe e os amiguinhos
(CRI-AN-ÇA!)

A vida é uma Quimera faminta!
É inútil se fazer de rogada
Ela vai te destruir, te dissecar,
Te esvaziar, te engolir
Até o caroço
(Sozinho ninguém pode...)

Hiberno, é só o que me resta
Não quero saber de verdades inertes
Minta! Seja santa, seja puta, seja alheia...
Mas seja honesta!

Não tenho a alma pequena
E nem sangue de barata:

Não vou te levar pra casa
Quando a casa cair
No fim da festa
Mas não vou aplaudir seu delírio
De puxar o gatilho
Contra a própria testa!

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Solaris

Por que a vida é tão sonâmbula?
E o sonho é tão vivo?
Quero agarrar cada momento bom, num pulo,
Pelos cabelos
Persigo eternamente respostas palatáveis
Viro o mundo atrás dos seus modelos

Toma-me o destino num só gole
Não quero lembrança, quero festa de sentidos
Quero acordar todo dia e ver e ouvir seu nome
No vento

Quero estar consigo quando for descoberta
Mantenedora das estrelas, ampla, sinestésica
Entre flores e canhões
Entre forma e exegese
O universo cabendo em sua íris
E lhe cabendo reescrever o ethos
De ser a última fronteira do mistério
A filha de Eros, exposta contra a luz,
Contra tudo o que lhe for excesso
Em seu gênio de ares expansivos
Colisões inevitáveis
E delírios

Procuro a mim mesmo
Através da antimatéria
Me descubro pelo que não sou. Não sou você?
Sou eu?
Antítese...
Irresoluto entre beijos alheios
Viro o rosto contra a cama, ninguém me vê
Distorço as formas originais de me criar
E me torno montagem, teatro de juventude
(Já estou velho e ranzinza por dentro)

Não, não é uma fase, não é um drama!
Se quase te acho se me acho no espelho
Me acho? Te acho... Me perco.
Descarrego um arsenal de metonímias
Distribuo uma dezena de carinhos
Me livro dos sorrisos reservados
Cansados da sua ausência perene
Toco fogo em todos os roteiros
E me atenho à nossa mise-en-scène...

Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

Seguidores...

Sobre a dúvida...

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

  © Blogger templates The Professional Template by Ourblogtemplates.com 2008

Back to TOP