quarta-feira, 27 de abril de 2011

Chamado.


Sinto o seu sonho tocar no meu sonho
Devagar
Alguma coisa transcendente nos alia
E toda a matéria se mistura

Entre nós não devia existir pecado
A gente se esfrega religiosamente
E é tudo muito inteiro, e muito sacro

Aliás
Não devia existir pecado entre almas densas
(Quaisquer delas):
Se num deserto de alma desertas
Dizia Caio
Uma alma fértil enxerga logo a outra
Pois que se se encaixem e se tenham nuas
E que o seu achado mútuo espalhe humanidade
Nas almas, nos corpos, nas ruas...

Do que olho nem sempre me lembro
Mas do que vejo eu nunca me esqueço
Reconheço seu corpo em qualquer corpo
As suas loucuras entre quaisquer loucuras

E dentro das vagas noites escuras
Eu mantenho a absoluta certeza de que algo
Ainda vai nos dispor um diante do outro
Só pra que a gente se olhe, se veja e se encontre
De novo.

* Foto: tela "Sobre a Cidade", de Marc Chagall (1915).

terça-feira, 26 de abril de 2011

O dia que Júpiter encontrou Saturno.


- Quando a noite chegar cedo e a neve cobrir as ruas, ficarei o dia inteiro na cama pensando em dormir com você.
- Quando estiver muito quente, me dará uma moleza de balançar devagarinho na rede pensando em dormir com você.
- Vou te escrever carta e não mandar.
- Vou tentar recompor teu rosto sem conseguir.
- Vou ver Júpiter e me lembrar de você.
- Vou ver Saturno e me lembrar de você.
- Daqui a vinte anos voltarão a se encontrar.
- O tempo não existe.
- O tempo existe sim, e devora.
- Vou procurar teu cheiro no corpo de outra mulher. Sem encontrar, porque terei esquecido. Alfazema?
- Alecrim. Quando eu olhar a noite enorme do Equador, pensarei se tudo isso foi um encontro ou uma despedida.
- E que uma palavra ou um gesto, seu ou meu, seria suficiente para modificar nossos roteiros.


ABREU, Caio Fernando. O dia que Júpiter encontrou Saturno. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos Mofados. Rio de Janeiro: Editora Agir, 2005. p.129.

domingo, 24 de abril de 2011

Hemorragia.

Hemorragia de ódio
É inútil nadar
Não existe um mar
Tampouco redenção
Existe apenas a corrente de mal-estar
Que varre o coração
Aterra o sossego
Racha as estruturas
Destrói as sinapses
Paralisa as articulações
E cancela a linguagem.

Queria paz
Queria demais ir embora, não sei pra onde
O tempo passa estranho
Quase absurdo
Lá fora é dia claro, as cores gritam
A cidade me estrangula em vida
E eu me escondo no quarto
Atrás do espelho
Atrás de um sorriso
E só eu ouço esse Adágio em G menor
Que me adormece no volume máximo
E só eu vejo essa poça de ódio que cresce
No piso.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Presente.

Lembro tua boca agora
Tua boca é presente
É um lapso de memória viva
É um vórtice no céu

Vivo tua boca a toda hora
E a tua chegada iminente
E a sucção permanente dos lábios
De vórtice no breu

Tua boca é território meu
Pra onde sempre hei de querer voltar
E se me cerceado este lugar
Habito eu o exílio e a dor

Narro a tua boca num constrangedor
Poema recém-rascunhado
Que é pra manter aceso esse sabor
E a tua boca jamais virar passado...

domingo, 10 de abril de 2011

Passagem Subterrânea

Tenho um coração intangível
Que é o coração que só bombeia
O sangue autômato

(Esse coração é o coração que atravessa
As passagens subterrâneas
E muito esbarra em outros corações
Mas não se afeta)

Tenho um coração de poeta
Que é feito de algodão doce
E só existe se encosta, se enxerga
Se mescla-se em outros corações

(Esse coração é o coração que atravessa
As passagens subterrâneas
À procura de um sentido
E a despeito das pulsações)

Tenho um coração que anda na lua
Tenho um coração que anda na rua
Um automático, um errante
Um cético, um cartomante...

E não sei o que gemina estes corações!
E não sei onde germina em mim a vida
Porque enquanto um coração dorme no leito
O outro coração transcende o peito
E grita.

Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

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Sobre a dúvida...

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

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