quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

"Os Incompreendidos" (1959), de François Truffaut.



Primeiro filme do crítico e cineasta François Truffaut, “Os Incompreendidos” estabelece um dos marcos da Nouvelle Vague, a “nova onda” que marcará o cinema dos anos 60. A obra foi apresentada ao mundo em 1959, conquistando a crítica e recebendo o prêmio de melhor direção no festival de Cannes, onde adquire um caráter de quase-manifesto em prol do rompimento com a tradição clássica no cinema francês. Seu título original provém da expressão faire les quatre cents coups, significando algo como “pintar o sete” ou “quebrar as regras”, o que é brilhante por sintetizar não apenas o sentimento da adolescência oprimida como também os novos conceitos de cinema que o próprio Truffaut e outros nomes – dentre os quais Jean-Luc Godard, Eric Rohmer e Jacques Rivette – queriam expôr.

O filme conta a história de Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), um rapaz com cerca de treze anos que vive uma trajetória de falta de perspectivas e solidão na Paris de fins dos anos 50. Fascinado pelo cinema e pela literatura, e levemente inclinado à delinquência, Antoine desenvolve com os adultos que o cercam – os pais, o professor de francês, os policiais – uma relação pautada menos por desprezo do que por um grande distanciamento, o distanciamento que respalda a incompreensão. Todos os personagens apresentam virtudes e defeitos ao longo da trama, não havendo algum que se possa notoriamente apelidar de bom ou mau. Neste sentido, é necessário ter em vista a simultaneidade dos papéis que desempenham como vítimas e autores de um estranhamento coletivo: na solidão de Antoine, exposta em cada minuto, apenas o amigo René (Patrick Auffray) e nós - os espectadores - estamos em posição privilegiada com relação ao garoto, acompanhando-o desde a aula que “matou” para ir ao cinema até o semifurto da máquina de escrever. Os adultos, por sua vez, se mostram materialmente próximos, mas subjetivamente distantes, de Antoine e de René, sem dúvida, mas talvez deles mesmos, como na referência à vida dupla de Gilberte, quando a personagem volta para casa após encontrar seu amante (e ser flagrada por Antoine) e retoma o espaço da família da exata mesma maneira que antes, o que – longe de questões moralistas – já nos transmite uma inevitável sensação de afastamento ou estranhamento, senão de hipocrisia.

Tecnicamente falando, existem vários elementos que chamam a atenção e que não corroboram com os padrões clássicos então vigentes: primeiro, a maravilhosa trilha sonora de Jean Constantin, que forja um ambiente de imersão para o espectador e vai conduzindo as nuances da narrativa. Constantin recria vários arranjos para uma mesma melodia de forma a adequá-la em cada momento da história, trazendo sentimentos como os de melancolia, solidão e rebeldia, sempre remetendo, simultaneamente, à infância. Os ângulos de enquadramento da câmera também são interessantes na forma como propõem conceitos, estando no alto (plongée) nas cenas em que Antoine se vê oprimido e inadequado, e embaixo (contra-plongée) nos momentos que suscitam a liberdade da personagem, como nos pequenos delitos que comete. Um bom exemplo deste jogo de câmeras é a cena em que a mãe de Antoine comparece ao reformatório para dizer que desistiu dele, filmada sob um ângulo de câmera no alto, mostrando a posição de inferioridade do garoto naquela situação. O uso de panorâmicas e de planos abertos reúne um grande número de elementos no espaço diegético, buscando expôr o complexo ambiente que cerca o protagonista, fundamental para a compreensão da história. Em relação à montagem, o filme não é muito “recortado”, com uma notável presença de planos-sequência, característica que marcará não apenas esta obra como as produções seguintes da Nouvelle Vague. Além destes aspectos, os primeiros-planos e closes são precisos e extremamente bem pensados, ressaltando a dramaticidade de Antoine nos momentos mais importantes do enredo. Já as sequências externas, por sua vez, são numerosas, mostrando liberdade com relação aos estúdios, ideia defendida por Truffaut em seus escritos para a Cahiers du Cinéma.

Muito emblemática, a sequência final (que sempre me emociona) resume, em sua excelente construção, alguns dos elementos citados acima: Antoine foge do reformatório durante um jogo de futebol e, num imenso plano-sequência em travelling, corre em direção a algum lugar que, posteriormente, numa panorâmica, vemos que é a praia. A duração da cena e a ausência da música incidental – com apenas o som das folhas pisadas - causa algum desconforto e, apesar disso, curiosidade. No momento em que a praia é apresentada, a trilha sonora entra e Antoine caminha na areia em direção ao mar, enquanto se aproxima, lentamente, da câmera. No final, ocorre um zoom e o filme encerra de maneira excêntrica, congelando o rosto de Antoine em close, tendo a personagem um olhar que propõe certa continuidade, quase sugerindo um final inacabado em que a falta de rumos do menino permanece flagrante. Vale dizer que a sequência, no todo, é de um impacto e de uma intensidade sensorial inexprimíveis, e quanto mais a assistimos mais atraente ela se torna, agindo como se "crescesse" dentro do espectador.

Por recontar diversos elementos de sua juventude no filme, incluindo mesmo uma passagem pelo reformatório, François Truffaut constrói a personagem de Antoine Doinel como uma espécie de alter ego que o acompanhará em mais quatro produções, sempre com interpretação de Jean-Pierre Léaud: “Antoine e Colette”, um dos esquetes do filme “O Amor aos Vinte Anos” (1962); “Beijos Proibidos” (1968); “Domicílio Conjugal” (1970); e “O Amor em Fuga” (1978).

A obra-prima que abriu os caminhos do ainda jovem Truffaut (27 anos à época do lançamento) para uma carreira sólida, “Os Incompreendidos” é um filme simples – mas não raso –, de intensa beleza e melancolia, e, na forma como o sinto e percebo, particularmente, parece dizer mais sobre a incompreensão na alteridade humana como um todo do que numa problemática puramente juvenil.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Nublados

Naquela manhã
Chegou como quem era dona
De tudo
Abriu meu Neruda
Num verso qualquer
E leu para o universo
Como fizesse uma oração
Daí ouvimos Beatriz
E Ana de Amsterdam
Ela me perguntou entre beijos
Se eu não era feliz
Eu gargalhei
Ela se exaltou
Me pediu um café forte
Não tardou em disparar filosofias
Sobre o meu medo de amar
E eu
Me esquivando dos seus berros
E nos salvando do absurdo
Arranquei o Neruda do seu colo
Arranquei o lençol do seu corpo
E transamos contra o tempo
Meio desesperados
Até cair num silêncio tão eloquente
Que se ouvia o crepitar da brasa
Nos cigarros.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Feliz Aniversário

Quase dois anos se passaram. Por educação e por carinho, envio uma mensagem de "feliz aniversário" e você nem sequer me responde "obrigada". Mais de um ano em que não a vejo, em que não nos falamos, em que não sei pra que lado foi o seu destino. Opção sua, até aí tudo bem. Tantas e tantas coisas aconteceram nesse breve período imenso. Eu não pretendo sabotar a sua liberdade de fingir que eu morri, eu não tentei, com essa mensagem, restabelecer um contato incômodo e desencontrado no espaço-tempo. Eu tento não me incomodar por você desviar os olhos ao me encontrar na rua, e apenas evaporar, pálida como um fantasma. Não, não é nada disso, eu apenas quis desejar um feliz aniversário, e dizer, nas entrelinhas, que não me esqueci de você e nem pretendo fazê-lo, porque não vou compactuar com essa loucura imatura de alienar, à toa, um pedaço grande e fundamental da minha vida.

Não sei o que se passa na sua cabeça. Na minha, posso dizer que dominam os questionamentos sem respostas. Já devo, quem sabe, ter agido de tal forma que me tornasse merecedor do seu amor, do seu carinho, do seu ódio ou até mesmo da sua pena, porém, no seu desprezo, eu me sinto incapaz de entender a minha imagem. Entendo, sim, que talvez você não possa me explicar os porquês, já que a subjetividade das sensações sobrepõe qualquer desventura racional, mas admito que considero esse silêncio, na forma em que se constitui, uma covardia amplamente desnecessária. Mas isso é um problema meu. Suponho, baseado em algumas experiências, que sou capaz de superar a maior dor do mundo se compreendo a sua origem, mas não sou capaz de superar uma simples ansiedade que eu não saiba de onde nasceu. Eu tento agir em coerência comigo mesmo e com o status quo de todas as realidades que me cercam, e a nossa realidade, sob o meu ponto de vista, é a de que não tenho motivos para ignorar você na rua ou para me esquecer voluntariamente do seu aniversário, e acredito que, da mesma forma, você não tenha motivos para me repelir ao ponto de não manifestar, via texto, um simples, curto, grosso e descompromissado "obrigada". Não doeria nada em você, mas doeu muito em mim.

Fico triste em perceber que, aos poucos, a consciência está destruindo a admiração quase espiritual que eu sempre lhe dediquei, e que gostaria de manter por ser um sentimento bom e puro, coisa rara na vida. O amor é resistente, ele continua lá enquanto tudo degenera ao redor. Mas e daí? Estou vivo, ainda, e pensar nisso não resolve nada. Tenho a certeza absoluta de que vou amar você para sempre, talvez não você, mas a sua lembrança. Só vejo que esse amor é cada vez mais imbuído de melancolia e decepção, e é pena que eu vá morrer com um sentimento tão distorcido, pois sei que, de alguma forma, tudo poderia ter sido diferente.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Origens

Me deito sobre as raízes
Esfrego meu peito na terra
Quero a amplitude do elemento original
Quero dormir a natureza
Entre sonos de morfina
Não, essa beleza não morre
À golpes de rotina
Se for comida aos soluços
No campo desse amor absurdo
A sua presença de neblina turva
E desespera
Não, não quero bucetas bípedes
Quero asas que me sequestrem do tempo
E sexos que me transem ao cume
Das origens
Quero bocas e ouvidos que me transmitam
Quando meus sentidos revelarem as mais céticas
Idiossincrasias
Apodrecendo todas as paixões
Que gritam nos sonhos de eu-criança
E declinam numa dança de musas
Fleumáticas e vazias.

sábado, 26 de novembro de 2011

Gatilho

Habito o ventre da noite
Como num déjà vu
Acho que vou nascer pelo avesso
Há anos tenho feito malabarismos
Com os limites da sanidade
Por que tanta dor, ainda?
Por que tantas possibilidades?

Quando o meu fígado metaboliza
A última gota de álcool
O sol já assombra o horizonte
Por sobre as nossas cabeças
E eu, condenado à liberdade,
Suporto o insuportável.

De vez em quando, pra matar o tédio
Hiroshima e Nagasaki explodem juntas
Dentro de mim
E sinto que é a hora de puxar o gatilho
E sei o quão frágil é a placenta da vida

Então, refaço a catarse da minha história
E me distraio em algum sonho bom
Espelhado nos olhos de quem conhece o castelo
Pelo estilo e pelo estado da fachada

domingo, 6 de novembro de 2011

Heresia

Minha angústia jorra dos poros
Animando a inexpressão de Clara
Resvala no seu corpo de retina
Dissolve luz na pedra bruta

Condenado em absoluta heresia
Escorro entre beijos e espantos
E insisto amar a musa oblíqua
Que zomba de mim pelos cantos

No oásis ao norte de Pasárgada
Eu quero beber de toda a água
Que aos poetas nenhum mar ostenta

E, na areia, vomitar a alma
Que a vida inteira não esgota
E a carne frágil não sustenta

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Limite

Desde que você foi embora, talvez antes
Tenho andado sobre e entre as superfícies do tempo
Bolhas de sabão
Limites frágeis para a minha condescendência com a vida

Não caminho em campo aberto
Atravesso véus de seda
Abrindo labirintos
Como no sonho branco de um paraíso insalubre

Às vezes, a vejo pontuar o horizonte
Guia silenciosa
Mas quando me mexo, a imagem vacila
Seu rosto some

Permaneço eu, a contragosto,
Lamentando o inaudito
As palavras que nasceram em nossas bocas
Penderam por nossos corpos
E se perderam por aí

(Tudo é nada se o estado é de dormência)

Estou ficando louco, com certeza
Mas não tenho medo
Porque quando eu perder a consciência
Não vou mais ter de fingir que sei jogar
O jogo

Anatomia do Esquecimento (nota nº 1)

Às vezes me parece que o preço do esquecimento é muito alto: quase sempre fica difícil cortar um pedaço do filme sem se perder na narrativa. Hoje, tentei lembrar como era o sexo com você. Inesperadamente, não consegui remontar a cena em minúcias, capturando toda a complexidade envolvida no momento. Pode parecer natural, mas isso me perturbou sobremaneira, já que costumava ostentar uma excelente memória sensitiva. Após algum esforço de abstração, senti que não podia fazê-lo sinceramente, sem idealizações ou utopias. Já tenho a impressão de que a materialidade do desejo de viver - ou de continuar vivo - sufoca esses pensamentos, e eu me perco do seu corpo, gestos e planos de futuro como eu me perco de mim mesmo num abismo de futilidades e insatisfações estéreis.

Anatomia do Esquecimento (nota nº 2)

Era uma quinta-feira, por volta de 23:30h, em algum motel barato. A noite caminhava tranquila, enquanto ele, obsessivo, sugava da moça toda a saliva e o suor que pudesse, como se nos fluídos permanecesse impregnada a essência de um achado, ou como se procurasse criar pontos de referência, para, mais tarde, lembrar de tudo com maior vibração. Queria, mesmo, engolir-lhe inteira. Queria engolir todas as coisas do mundo por inteiro, numa refeição completa: carne, músculos, derme e epiderme, partes de mística simbologia, significantes de um desejo. O significado intrínseco a elas vinha de sua própria fome de vida, que ali encontrava terreno fértil para objetos de profunda análise... Na geografia daquela mulher, ele atingia o êxtase do estrangeiro em viagem por terras inexploradas.

Lembrava das corridas sem rumo de moleque, quando cada passo de estrada era um frio na barriga e uma ideia na cabeça ("epifania", esse é o termo). Sabia que era capaz de amá-la para sempre, porque cada forma de atração e contato é um afeto: sua língua formigando de cansaço é um afeto; os joelhos ardendo nos tacos do chão, outro afeto distinto. Naquela tarde, guardava um desconforto e uma angústia em pensar que não sabia o seu roteiro das próximas horas, o seu destino imediato.

“ - E se todos os afetos pudessem se ligar ao sujeito como características, de uma tal maneira que a gente carregasse no corpo as cicatrizes da história, sem pensar em nomes, como uma amarra infalível de elos de vida? Será que, de alguma forma, ainda que escusa, cada afeto marca pra sempre?"

Perguntou-se, por retórica, e a sua razão forçosamente ébria indicava que sim. Naquelas circunstâncias, dada a violência desse pensamento, enlouqueceu brevemente com ele. A descoberta era crítica, aguda, mas presa à volatilidade de um momento, porque no momento do momento aquilo que se sente é sempre a mais absoluta verdade, e a única. É a própria totalidade da essência. Nutria, em seu âmago, um imenso pavor de esquecer. Era escritor, não podia se dar ao luxo de deixar uma experiência para trás, solta por aí, à mercê de um qualquer que lhe pudesse roubar o ineditismo e a densidade criativa.

“ - Quando algo me machucava, não sei, algum corte, alguma pancada, podia até desejar morrer só pra que aquela dor de milésimos de segundo parasse imediatamente. Quero dizer que, às vezes, a opção mais sensata não é a mais efetiva. No fim das contas, tudo são momentos, e eu não quero ser mártir de causa alguma, nem quero depender de um longo prazo. Lembrar dói, e a dor é urgente. Por outro lado, não sei esquecer. Saber, esse é o verbo. E se não sei esquecer, então não vou esquecer, não posso esquecer e não quero esquecer. Uma coisa leva à outra. E como fica esse absurdo de existir diante de um mau presságio sobre a viabilidade de esquecer? Esquecer? Só consigo carregar o mundo pra sempre ou apagá-lo inteiro de mim. É tudo ou nada...”

Seria tudo, provavelmente, já que ele agora assinava a confissão da onipresença de seus afetos, e podia mesmo parar o tempo ali só pra não acabar ateu. Era perigoso deixar pra depois e perder o rumo na utopia. No dia seguinte, ele sabe, vai ser mais encheção de saco e de linguiça, mais balbúrdia na vida dele, mais informações, explicações pra dar, gente querendo quebrar o pau, virar a mesa, mais e mais papos furados no boteco, mais birita, mais lisergia... E aquele amor malpassado tomará parte ativa em reprogramá-lo, entrará para o seu código, se imiscuirá ao resto do bolo e fará com que ame a próxima anônima (anônima?) de alguma forma diferente do que jamais amou. Talvez melhor, talvez pior, mas, no mínimo, diferente.

“ - A lembrança é um edifício fantasma em meu nome. Não posso erguê-lo do próprio esforço, mas não sei quem o faz por mim, na minha ausência, e à minha revelia”.

Imaginou, ofegante, se conseguiria armazenar ao menos o cheiro daquele quarto, costurado entre os hormônios de ambos e o alvejante vagabundo dos lençóis. Apesar disso, em seu íntimo, ele sabia que, já amanhã, no trabalho, ou na fila do banco, será algum outro homem qualquer, desses que passam na contramão da calçada e a gente, inflado de superegos, não vê. Amanhã estará indisposto pelo enjoo do destino, bombardeado pela materialidade, e já terá esquecido tudo (tudo?) o que refletiu sobre esquecer. E todo o insight de ser um Deus das possibilidades e plenitudes terá esmorecido. No ápice da filosofia, é chato perceber-se, de repente, fragmento de si mesmo. Nessa hora, ele quis prender o gozo pra que a vida se arrastasse de mansinho, um pouco mais, um pouquinho mais... Foi um sopro de poder que teve. Uma rebelião de juventude. O conceito era bom, mas por ser carne, por ser sangue, por ser matéria inexorável, ele não transcendeu: apenas gozou.

"- Não é à toa que os franceses chamam o orgasmo de la petite mort..."

domingo, 9 de outubro de 2011

Canto da Sereia

Há o silêncio, entre as palavras centuriões em riste, no oculto dos sentidos, na falácia das comunicações. Há que se pescar o silêncio usando isca de palavra, dizia Clarice.

Mas o silêncio engana, cavaleiro do apocalipse. O silêncio finge ser o eclipse enquanto é tudo o mais: o eclipse, a lua, o céu e o sol.

O silêncio quer ser silencioso, mas ele reverbera, ele nunca se cobre da poeira do tempo, ele grita, ele salta na lembrança.

Quero esse silêncio férreo em ponta de punhal que fira o corpo da desgraça, mas ele não me alcança.

Ação e reação.

Quero esse silêncio trilha da porta de saída, ou de um labirinto que gaste o esforço da tentativa de sair.

Ouvir ou não ouvir o silêncio?

O silêncio é a mensagem, mas pode ser um chamado indistinto entre a sanidade e a loucura, e pode ser na mesma voz.

Nada mais verdadeiro do que o canto da sereia.

Há, ainda, que se diferenciar o fogo da fumaça, e que se medir o vigor da ausência contra a anemia da palavra, tanto que já me vejo ausente em palavras e todo palavreado em ausências.

Sim! Toda forma ideal habita o silêncio, e, portanto, há que se possuir, em algum lugar de todo lugar, o antigo Egito, os mistérios de Elêusis, o teu e o meu nome gravados... Porque cada elemento converge ao silêncio e nele encontra a partícula fundamental. Ele que é contrassenso, que pare e não acalenta, que é beira de precipício, que é luz que cega.

A desgraça oscila suave, superfície de lago que não seca, cacofonia que entope as ideias.

E entre ocupações e êxodos há, na mente, o estado de alienação, que é analgésico para o incompreensível.

Há, no corpo, o estado de dormência, que é fantasia de conhecer o silêncio e hábito de viver.

E há, no silêncio, a vida, que é muito chiado pra pouca sinfonia.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Planície

Fora da rota
Cheiro de chuva
As folhas da goiabeira que balançam
A cidade bem longe
Alguma música no fundo
Meu caderno nas mãos
Um passeio sem pressa
No escuro

Enquanto a noite se alonga
Entre horizontes de planície
Eu, aqui, pensando que seria incrível
Te mostrar o encontro do mar com o rio
E a curva da ribeira

Pela manhã que nasce, além da estrada
Ainda espio.
Você não vem.

Sei disso, mas, mesmo assim,
Esqueço a graça do mundo
Porque é como se em tudo o que existe de vivo
Vicejassem seus rastros, seus resíduos
Fantasma de quem eu,
Talvez por medo,
Me esforço em guardar o rosto
Que se apaga no vazio...

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Trama.

Quando chora
Eu
Circunspecto
Preocupo imediato consigo
Você demora a voltar
A si
E quando volta, rasga o luto
Ri
Transforma de nuance
Muda de forma
Camaleônica mulher que acende
Se vista como um banquete
Mas na iminência da boca fremente
Medra
E evapora

Olha
Olha de lado pra mim
Provoca o meu lirismo
Me enforca na sua trama
Faz que vai abrir os braços
Chego a pensar que me ama
E, pouco a pouco, desfaço
Exclamações em reticências
E retas em embaraços...

Choro
E você,
circunspecta
Esnoba imediato comigo
Demoro a lhe entender
E quando entendo
Rio
Desaprendo sobre amores
Transformo de nuance
Evoco os meus rancores
Dobro a sua arrogância
E, então, você me vem
Ouço sua voz crescer
Sem identificar mais nada...

(Irônica é a vontade da paixão.
Camaleônica é a cadeira do tirano.)

E quando da revolução
E quando eu te enforcar na trama
Serei terrível algoz
Serei perfeito carrasco
Pois quero te pôr aberta,
O destino ao meu comando
O espírito carmim

Brilha mais e mais pra mim
Que o meu asco é assassino
Vou sugar seu viço aos poucos
Vou desnortear seu tino
Vou te esfarelar na mão
O meu destino é anárquico
E o espírito...
Carvão.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Confissão (ou a espera de um Deus ex machina) - Parte II

Quanto tempo mais terei de esperar para saber a verdade? Alguns meses, anos, uma vida inteira, a eternidade transcendental?

O não-entender é a pior das penalidades que me poderiam ter sido dadas. E não entendendo eu não abstraio, não supero; e não superando o caminho permanece em contramão, ou brecando à suspeita de qualquer vestígio, qualquer migalha de justificativa para o passado-presente. Acho curiosas e muito voluntariosas as reaparições deste meu ontem: na banalidade dos dias, vou entupindo de vida as minhas artérias, os poros, e vou me cercando de questões, aleatoriedades, objetos, ações, sentimentos. Mas numa noite qualquer, deitado em minha cama, ou voltando pra casa, no ônibus, eu percebo que ainda sou o mesmo cara que se pode atingir da mesma forma com algo que, na prática, já não vigora mais. E quando volta, dói como se fosse agora, dói de retorcer o estômago. Meus olhos enchem d'água inevitavelmente, e morro de medo de nunca saber os porquês, e morro de medo de nunca mais vê-la, ou de vê-la súbito, quando tudo estiver resolvido dentro de mim. E morro de medo de que ela viceje no meu corpo até o último segundo, e morro até de saudades, não sei se dela ou da paz que eu tinha em minha "outra vida"; não sei se dela ou da sensação de que, quando deflagrada a primeira batalha da terceira guerra mundial, eu saberia exatamente a quem avisar, e para onde correr, e mais resoluta e cabal do que a ciência de Deus seria a presença dela, sob cujos braços eu estaria protegido contra mil canhões, e mil palavras pontiagudas, e mil angústias de juventude, e mil leões, e áspides, e setas que voam de dia, e crises de depressão, e topadas ardidas no dedão do pé. E nesse momento, transgredido de um tal "destino certo", tudo o que eu quero é, no mínimo, o entendimento sobre o fim. Não aceito abdicar do direito de saber, mas a quem recorro? Onde fica a côrte do absurdo do amor e do humano? Onde está a arbitragem dos erros de roteiro no teatro da vida?

E quando me vejo preso a esse passado inexplicado é que percebo o quanto a biologia tem sido injusta comigo! "Nascer, crescer, reproduzir, envelhecer e morrer", é a urgência de todos nós, eu sei, mas mais urgente é encontrar um motivo, uma meta, um rumo, um ritmo qualquer que permita ao sujeito manter a sanidade e seguir reto... Sem cambalear.

sábado, 25 de junho de 2011

Solstício de Inferno

Inverno, agora,
Hiberno.

No chão as palavras pingentes
Que ditas na cara, ou entres os dentes
Jamais vingaram na sua alma infértil

Hiberno, sim, e que saída?
Não vou morrer por fome de amor
Nem vou matar por fome de vida

Me explica, por favor, o seu problema!
Como é que você nunca se cansa
De repetir os erros mais mesquinhos?
A vida não é um piquenique de domingo
Com papai, mamãe e os amiguinhos
(CRI-AN-ÇA!)

A vida é uma Quimera faminta!
É inútil se fazer de rogada
Ela vai te destruir, te dissecar,
Te esvaziar, te engolir
Até o caroço
(Sozinho ninguém pode...)

Hiberno, é só o que me resta
Não quero saber de verdades inertes
Minta! Seja santa, seja puta, seja alheia...
Mas seja honesta!

Não tenho a alma pequena
E nem sangue de barata:

Não vou te levar pra casa
Quando a casa cair
No fim da festa
Mas não vou aplaudir seu delírio
De puxar o gatilho
Contra a própria testa!

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Solaris

Por que a vida é tão sonâmbula?
E o sonho é tão vivo?
Quero agarrar cada momento bom, num pulo,
Pelos cabelos
Persigo eternamente respostas palatáveis
Viro o mundo atrás dos seus modelos

Toma-me o destino num só gole
Não quero lembrança, quero festa de sentidos
Quero acordar todo dia e ver e ouvir seu nome
No vento

Quero estar consigo quando for descoberta
Mantenedora das estrelas, ampla, sinestésica
Entre flores e canhões
Entre forma e exegese
O universo cabendo em sua íris
E lhe cabendo reescrever o ethos
De ser a última fronteira do mistério
A filha de Eros, exposta contra a luz,
Contra tudo o que lhe for excesso
Em seu gênio de ares expansivos
Colisões inevitáveis
E delírios

Procuro a mim mesmo
Através da antimatéria
Me descubro pelo que não sou. Não sou você?
Sou eu?
Antítese...
Irresoluto entre beijos alheios
Viro o rosto contra a cama, ninguém me vê
Distorço as formas originais de me criar
E me torno montagem, teatro de juventude
(Já estou velho e ranzinza por dentro)

Não, não é uma fase, não é um drama!
Se quase te acho se me acho no espelho
Me acho? Te acho... Me perco.
Descarrego um arsenal de metonímias
Distribuo uma dezena de carinhos
Me livro dos sorrisos reservados
Cansados da sua ausência perene
Toco fogo em todos os roteiros
E me atenho à nossa mise-en-scène...

terça-feira, 24 de maio de 2011

Química Misteriosa.

Hoje não existe
É tudo suspense
O jornal não chegou
Os carros não andam
As lojas não abrem
O povo circunspecto
E meio mudo
Nada se mexe, nada se atreve
Na angústia de um pacto remoto
À espera de um movimento breve
Terremoto de veludo
Que leve a epiderme da vida de volta
A vibrar.

domingo, 15 de maio de 2011

Movimento.

O tempo não passa em linha
O tempo vai se empilhando
E o que não se supera, se refaz
Sou o que amo
E amo em movimento
Amo em direção
Com todo o corpo eu exagero em ser amor
Eu quero transpor os contratempos da linguagem
Eu quero ganhar humanidade
E imunidade ao fim
Olha pra mim, por dentro, através da intuição
Além da imagem
Toma o meu caminho como o seu caminho
A minha mão como extensão da sua
Tão bom seria
A gente se afinar na mesma nota
A gente rumar na mesma rota
E se o mundo for sempre a mesma merda
A gente vai vivendo por um triz
E repondo as ilusões de ser eterno
Pra tentar ser feliz

sexta-feira, 6 de maio de 2011

(I Can't Get No) Satisfaction.


O que é pleno?
Se eu pudesse descobri-lo
Se eu pudesse conhecê-lo
Eu nunca mais tocaria no vazio
Mas não encontro esse objeto
Esse corpo de mulher
Esse poema maravilhoso
Essa paz ao pôr-do-sol
Essa peça
E, enquanto espero, eu me loto de incertezas
E me loto de ar
Porque preciso preencher, não importa
Com que substância
Então prefiro fazer todas as merdas
Destruir o meu pulmão
Andar à toa por aí
Beber todos os dias
Virar todas as noites
Do que parar pra pensar o tempo todo
E constatar, mas sem ação
O tamanho e a intensidade
Dessa falta de sentido
E desse excesso de paixão.

* Foto: tela "O Terapeuta", de René Magritte (1937).

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Chamado.


Sinto o seu sonho tocar no meu sonho
Devagar
Alguma coisa transcendente nos alia
E toda a matéria se mistura

Entre nós não devia existir pecado
A gente se esfrega religiosamente
E é tudo muito inteiro, e muito sacro

Aliás
Não devia existir pecado entre almas densas
(Quaisquer delas):
Se num deserto de alma desertas
Dizia Caio
Uma alma fértil enxerga logo a outra
Pois que se se encaixem e se tenham nuas
E que o seu achado mútuo espalhe humanidade
Nas almas, nos corpos, nas ruas...

Do que olho nem sempre me lembro
Mas do que vejo eu nunca me esqueço
Reconheço seu corpo em qualquer corpo
As suas loucuras entre quaisquer loucuras

E dentro das vagas noites escuras
Eu mantenho a absoluta certeza de que algo
Ainda vai nos dispor um diante do outro
Só pra que a gente se olhe, se veja e se encontre
De novo.

* Foto: tela "Sobre a Cidade", de Marc Chagall (1915).

terça-feira, 26 de abril de 2011

O dia que Júpiter encontrou Saturno.


- Quando a noite chegar cedo e a neve cobrir as ruas, ficarei o dia inteiro na cama pensando em dormir com você.
- Quando estiver muito quente, me dará uma moleza de balançar devagarinho na rede pensando em dormir com você.
- Vou te escrever carta e não mandar.
- Vou tentar recompor teu rosto sem conseguir.
- Vou ver Júpiter e me lembrar de você.
- Vou ver Saturno e me lembrar de você.
- Daqui a vinte anos voltarão a se encontrar.
- O tempo não existe.
- O tempo existe sim, e devora.
- Vou procurar teu cheiro no corpo de outra mulher. Sem encontrar, porque terei esquecido. Alfazema?
- Alecrim. Quando eu olhar a noite enorme do Equador, pensarei se tudo isso foi um encontro ou uma despedida.
- E que uma palavra ou um gesto, seu ou meu, seria suficiente para modificar nossos roteiros.


ABREU, Caio Fernando. O dia que Júpiter encontrou Saturno. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos Mofados. Rio de Janeiro: Editora Agir, 2005. p.129.

domingo, 24 de abril de 2011

Hemorragia.

Hemorragia de ódio
É inútil nadar
Não existe um mar
Tampouco redenção
Existe apenas a corrente de mal-estar
Que varre o coração
Aterra o sossego
Racha as estruturas
Destrói as sinapses
Paralisa as articulações
E cancela a linguagem.

Queria paz
Queria demais ir embora, não sei pra onde
O tempo passa estranho
Quase absurdo
Lá fora é dia claro, as cores gritam
A cidade me estrangula em vida
E eu me escondo no quarto
Atrás do espelho
Atrás de um sorriso
E só eu ouço esse Adágio em G menor
Que me adormece no volume máximo
E só eu vejo essa poça de ódio que cresce
No piso.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Presente.

Lembro tua boca agora
Tua boca é presente
É um lapso de memória viva
É um vórtice no céu

Vivo tua boca a toda hora
E a tua chegada iminente
E a sucção permanente dos lábios
De vórtice no breu

Tua boca é território meu
Pra onde sempre hei de querer voltar
E se me cerceado este lugar
Habito eu o exílio e a dor

Narro a tua boca num constrangedor
Poema recém-rascunhado
Que é pra manter aceso esse sabor
E a tua boca jamais virar passado...

domingo, 10 de abril de 2011

Passagem Subterrânea

Tenho um coração intangível
Que é o coração que só bombeia
O sangue autômato

(Esse coração é o coração que atravessa
As passagens subterrâneas
E muito esbarra em outros corações
Mas não se afeta)

Tenho um coração de poeta
Que é feito de algodão doce
E só existe se encosta, se enxerga
Se mescla-se em outros corações

(Esse coração é o coração que atravessa
As passagens subterrâneas
À procura de um sentido
E a despeito das pulsações)

Tenho um coração que anda na lua
Tenho um coração que anda na rua
Um automático, um errante
Um cético, um cartomante...

E não sei o que gemina estes corações!
E não sei onde germina em mim a vida
Porque enquanto um coração dorme no leito
O outro coração transcende o peito
E grita.

sábado, 19 de março de 2011

Constatação nº2

O mundo não sobrevive ao contrário:

As plantas não desnascem pra dentro do chão
As nascentes não chupam as águas de volta
Ninguém descaminha o ponteiro das horas
A palavra dita não é apagável

Então
Diante do irrevogável
Por que motivo há quem pense que amor
Pode ir embora?

Constatação nº1

Meu olho exige te ver
Ainda você, estrutura do meu cérebro
Crivo do meu juízo
Piso frouxo do meu mundo
De antagonismos breves
Ah! Que se danem as coisas nobres
Da vida
Não quero mais saber dos desgraçados
Não quero mais acompanhar notícias

Terremoto no Japão
Chuva em Santa Catarina
E você roubando a cena
Ainda...

Transubstanciação

A transubstanciação da matéria
Jamais neguei
Apenas por teu corpo eu existo
"O corpo de cristo..."
O corpo-pão
Se me atiro à deglutição
Da tua matéria indecifrável
Engulo à seco e sigo faminto
De algum sentimento palpável

Mas se alcanço o limiar do teu corpo
De cativa irresoluta
Sou barco atracado num porto
Por direito apenas meu

(E sou movido por alguma luta
Que só se luta e nunca se vence
E faz a fome de paixão crescer
Em extensão, sabor e vida)

E de toda a espécie de comida
A ceia que me traz é farta
Nos lábios onde se quedam asas,
Seios, mãos
Alguma amarga verdade faz ninho
Viçosa de qualquer sentido
Que é sangue na mão dos bandidos
Mas na boca dos aflitos
Vinho

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Crua e cruel.

A madrugada vagabunda de quarta
Vagarosamente iluminada pela lua
O desconforto da cadeira da espera
A minha presença magra diante do espelho
A ausência requintada de qualquer desejo
A insolubilidade para o desespero

Saudade...
Coisa crua e cruel
Gosto de noite mal dormida
Nos dentes, gengiva, e língua, e saliva
A demora do meu sonho de morfina
Mais lúcido e consciente em sua longa estada
Quando visto de dentro do olho
Da amada

Saudade...
É o que vejo em tudo
É o que toco e não sinto
Os mortos falantes sem sepulcro
Que andam, vão à praia, lêem livros
E festejam a aparição do arrebol
Quando a tarde mata o sol
E inunda o céu
De amor

E sangue.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Poema-Olho

Quero fazer um poema
Sobre tristeza
Um texto elástico
Que amarre cores e ruídos
E vômitos e delírios
Um verso-corpo, furado de espadas
se arrastando entre túneis e escadas
Espirais infindas

Quero escrever um poema-olho
Que enxergue ao contrário
Um projetor de lembranças que expurgue
O espectro de pigmentos
Por mim concebidos
E agora expostos feito imagem e semelhança
Desse meu roteiro
Desse meu destino

Quero traduzir o desconforto
Criando um desatino qualquer
Sobre o desígnio torto de viver
Mas falta o doce e a colher
Falta o alimento, o fim, o corpo
Falta palavra, falta sonho,
Falta algo que traduza...
Erato, Euterpe, Clio?
Não vi... E me pergunto
Por onde vagueia sem saudade
A minha musa?

Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

Seguidores...

Sobre a dúvida...

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

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