domingo, 7 de novembro de 2010

Somas.


Ela voltou-se em minha direção, seus olhos expunham medos maiores que os espigões do centro da cidade, lugar que entrou para o hábito da memória recente. Mergulhado num “ser poeta”, eu vi nestes olhos de mulher a minha infância refletida, a imagem que guardo gratuitamente de um "eu criança" descendo as escadas do hall no Pedro II, ao meio-dia, tão cheio de expectativas breves e fáceis de se cumprir, bem como de se esquecer, porque agora não causam mais nenhum tipo de diferença. De repente essa infância, imbuída nesses olhos, se agarrou aos muitos poemas que li e escrevi mais tarde, e ao mar de Copacabana de uns 9 anos atrás, quando eu passeava ao lado do meu pai, na madrugada, só pra ocupar o tempo de uma relação que era mais pautada na beleza do mundo visto do que na tentativa de se entender e enxergar um ao outro. Essa Copacabana perdida tinha, pra nós, o papel que a televisão costuma desempenhar num contexto menos romântico.

Acho estranho que o meu passado exaspere o meu futuro, sempre espelhando nessas velhas cenas a vontade de consumar com intensidade o presente, mostrando pra mim o imperativo de despedidas que há na vida, na mudança, e nessa coisa mutante que sempre fui eu, assim, que hoje sou algum, amanhã não sei... Eu que vejo tantas coisas em olhos, e tanta arte na cidade do Rio de Janeiro, imagens que não saem de mim, e que fazem sinestesia com as palavras que mais uso, as músicas de cada fase, e os cheiros que me fixam... Sempre sinto alguma coisa quando passo pelo Aterro do Flamengo, em frente ao MAM, e certas vezes, dada a inspiração, até me nasce um poema. Essa coisa que sinto é um pedaço de drama, que é bom, mas dói, simplesmente porque drama, por ser apenas o que é.

Enquanto ela ainda me olhava de perto nossos “eus” jamais estiveram distantes, porque quando nos materializávamos na presença de corpos que se colavam um ao outro mentíamos felizes sobre a possibilidade de não existir sozinhos, cada qual com seus desígnios. Pouco depois de não sei quando, já cansada de me fitar, ela abriu um livro; tive inveja do livro, queria sê-lo pra que ela pudesse me ler, pra que pudesse imiscuir em seu pensamento essa minha vida que não sai de mim, essa bagagem que não há como dividir com ninguém, e que eu intento jogar pela janela junto a toda a capacidade absurda de amar que sempre ostentei sem pedir, e que por aquela tal bagagem é a única responsável direta. De repente, nessa hora, livre de mim mesmo, eu veria os olhos dela apenas como olhos, com sua cor banal de íris que tantos outros olhos têm igual no mundo.

E tal como nos olhos dela salta o meu amor inteiro, somado desde sempre, o cotidiano dos dias remete, em sua pura normalidade, a um turbilhão de poesias e imagens que brotam de tudo e de lugar nenhum. Quando passeio, hoje, pela orla de Copacabana, lembro-me do meu pai, com seus vícios de poeta desnorteado que tanto me constituíram sem querer; lembro-me dos versos à beira do mar, em dias e noites diversos, alguns recentes, e das putas que conheci pelo nome, que me apertavam as bochechas e sorriam, seminuas... De assalto, lembro-me dos olhos dela vidrada em minhas histórias, afoita em me ver por dentro, e do quanto isso me fazia querer falar sem parar, afim de me transcrever, como é de lei na história do amor, a qual, segundo Vinícius de Moraes, é a própria história da vida.

Entretanto, falta um porém: de todos os lugares de onde tiro poemas, tiro tristeza. Tento ser condescendente a ambos os sentimentos, mas não sei qual deles me ganha, e nem sei, afinal, se duelam ou se conspiram por mim. Pareço ser feito de somas, e não imagino onde essa conta ainda vai me levar...

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Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

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"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

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