quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Neutralidade Inalcançável

O amor não dá trégua
O amor é meu
Ele vem de dentro pra fora
E pinta as coisas

Sou a vítima
Não posso fugir
Já tentei correr pela Hilário de Gouveia, até a praia
Ele vinha em mim, e comigo mergulhou
No mar... Não se afogou, viveu
Vive sempre
E comigo vê chegar mais um Outubro
Amargo
Lotado de ausências

Além da noite
Além do limite
É como o sinto... Esse amor
Além da estranheza de assistir seus vultos que passam
Nos ônibus, nos muros, que viram a esquina e, depois,
Desaparecem

Além do tempo de um telefonema,
Da enorme distância de um só bairro
Eu estou cansado, não quero mais
Não quero mais nada
Não quero morrer
Só quero uma neutralidade inalcançável
Um não ser visto

Quero tirar a fantasia da peça que nunca estreei
Quero deixar der ser poeta, de ser vivo, de ser homem
Desisto de ser inteiro, de ser intenso,
Pra ser pequeno... Pra existir só um pouquinho
Pra beber a cicuta do esquecimento
E me deitar no intervalo da mínima dor
Do mínimo movimento

Quero calar
Fumar o meu cigarro
Tomar o meu café
Os meus remédios
E ter o direito de ser triste e grogue
Tal e qual o amor se permite ser sempre amor
Inominável, impreenchível
Plasmado de uma efemeridade cruel
E sem tamanho

Quero terminar de murchar aos poucos, devagarinho
De esquecer os autores que li, de jogar tudo isso fora
Esses filmes, esses discos, esse violão que eu não toco
Essas lembranças da vida
Da escola
Do Largo da Segunda Feira
Esse amor que jorra
Em torrentes
E inunda o meu quarto
Os meus olhos
O meu nexo
O meu sexo
Tudo

Eu não quero eleger novos espaços de sentir
Não quero procurar uma boca em outras bocas
E nem um poema nas bocas e nos olhos alheios
A vida não é poesia, e isso já me faz a criança
Natimorta
Que precisa aprender a ser leve, vazia, inútil
Como um saco plástico solto ao vento
Rodando em giros...

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Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

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"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

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