domingo, 14 de novembro de 2010

Confissão (ou a espera de um Deus ex machina).

Já senti coisas tão intensas que, hoje, tenho medo de não senti-las novamente, bem como tenho medo de senti-las e, assim, criar novos entes de “para sempre” dentro de mim, novos amigos imaginários para a minha esquizofrenia literária. Essa cabeça de poeta me faz refém das histórias que protagonizo, reais ou inventadas, e fica cada vez mais difícil viver por viver, preencher os dias, mecanizar a rotina, orbitar numa certa “superficialidade” (nem sei bem o que chamar de superficial). Eu sei que fui (ou, quem sabe, ainda seja) plenamente capaz de perder o tino por paixão, e, às vezes, por amor: à poesia, à música, a uma mulher... Entretanto, essa pulsão de morte do sentimento é potência ambígua, que tem o ímpeto de construir os sonhos e os argumentos, de nortear o futuro, mas tem também o capricho de quebrar a linha de continuidade da vida, de fixar algum tempo, alguma cena, alguma palavra, algum olhar, enfim... Alguma “marca de Caim” que se autoproclama parâmetro para todas as outras possibilidades de sentir, e daí, como eu já disse, fica difícil viver por viver. Essas histórias são inquestionáveis, são muito mais fortes do que o meu presente, e quando caminho pela rua, em muitos lugares, e leio certas coisas, e ouço outras, não estou apto a escrever novas estrofes a partir de então, mas apenas retorno às mesmas do costume, como um faminto catando migalhas de algum prazer já não vigorante, mas que, aos trancos e barrancos, é o que ainda alimenta.

Temo, por fim, que a minha alma permaneça aprisionada nos seis anos passados, enquanto o meu corpo vaga, por aí, irresoluto e desconexo, passivo de uma gama de sentidos. Não duvido. Se fui capaz de me prender a uma única noite por quase três anos, criando sobre ela uma constelação de imagens, cheiros, poemas e fantasmas... Criando sobre tal noite uma paixão imensa e covarde, sim, covarde porque a ausência é incombatível (e é por isso que os mortos adquirem perfeição instantânea). Se fui capaz disso, sou capaz de qualquer absurdo congênere, sou capaz de enxergar por todo o Rio de Janeiro um martírio de placas de neon que piscam na minha cara apontando caminhos, uma sinestesia de referências que sempre me façam lembrar destes anos...

O passado - este signo que é o passado - é implacável, inalienável, incorrigível. É o modelo mais covarde, mais até do que o futuro: ausência viva...

0 comentários :

Manifeste-se!


Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

Seguidores...

Sobre a dúvida...

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

  © Blogger templates The Professional Template by Ourblogtemplates.com 2008

Back to TOP