terça-feira, 30 de novembro de 2010

Recusa à Domme (ou o limite do consentimento).

E vem a loucura me açoitar de novo
Com a chibata infectada pela dúvida
E vem me amar à noite, e nós, nus
Sobre os paralelepípedos da rua
Nos descobrimos sós
Ela me aplica choques elétricos
Me enfiando eletrodos nos buracos
Do corpo
Nos ouvidos, no nariz, na boca, no cu
Desatando lentamente os fios da vida
Que costuram os meus órgãos
O meu peito, as minhas costelas
Conectam os meus pulsos
Firmam meus antebraços
Aos braços
Pouco reclamo, minha linguagem não é digna
Pela manhã ela me curra, aguento imóvel
Porque ela ameaça entregar minha tutela
À normalidade
E durante a madrugada me visita, trajando branco
Me arrasta pelas ruas sem sentido
Me expõe a situações imundas
Me enche de cigarros
Me empresta os livros e me faz interrompê-los
No prefácio
É ciumenta, confusa demais
Quer que eu repita palavras positivas
Quer me vender um plano de alegria
Quer que eu goze quando ela me estupra
Quer que eu ostente orgulho em ser poeta
Mas deseja, no fundo, que eu conteste o seu domínio
Pra que ela me ganhe num conflito iminente
E insufle ainda mais
O seu ego escroto
Enquanto eu, ao contrário, não respondo
Não reajo
Permaneço impassível
Mantenho a porta do quarto aberta
Deixo o meu corpo disponível
Como uma aranha capturada
Num pote de criança
Ela brinca de arrancar, uma a uma
Minhas oito patas
Não luto, nem poderia lutar
Porque nossas forças são incomparáveis
E ela pode, se quiser, apartar meus membros
Cortar meus cabelos
Cegar meus olhos
Porém, caso me mate, perderá a presa que lhe entretém o ócio
E enquanto houver vida pulsando nas partes que sobram
Da aranha-eu
Haverá algo de imaterial, algo de etéreo
Algo de mais-que-fluido
Uma coisa aderida ao passado e ao futuro
Que não se deteriora nas mãos dela
Onde ela, aliás, nem é capaz de pôr as mãos
A coisa que é indelével, e que por isso
Ainda confirma a existência de vida
Entre os abusos de poder da loucura
E toda a hipocrisia pervertida
Da normalidade
E da razão.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Sociedade Secreta

Minha cama é cada vez mais larga
Minha calma, mais estreita
Sobram espaços de tecido ao redor
Remendados em mim pelo vazio
Da ausência... Nos recessos de nós dois
Habito apenas eu, artífice
Artista de uma obra interminável
E indeterminável
De desejo

Meus braços, vazios, não se acham
Inteiros
Resgato entre as dobras do lençol
Fragmentos de poesia esquecidos
Na cama... Aos pedaços
Reúno esses momentos de versos perdidos
Congrego em mim um altar de silêncios
Ingresso no átrio dos sentidos
O impulso de existir me evoca
E eu
Atendo ao seu chamado

Fundo uma seita voltada para algo
Onde nós somos os membros únicos
E aceitamo-nos num rito literário
De sutis gestos intensos
Abraços reveladores
E inesperadas completudes, que surgem
Diante dos nossos olhos

Descobrimos a verdade? Será ela?
Posso senti-la brotando no meu rosto
Está aqui, na sociedade secreta
Que nós já forjamos aos poucos
Sem regras, sem dogmas, sem guia
Onde a pedra do sacrifício é o meu quarto
E onde se vive com afinco os dias sagrados
E as noites de culto e devoção
Às letras
Aos sonhos
E ao corpo.

domingo, 14 de novembro de 2010

Confissão (ou a espera de um Deus ex machina).

Já senti coisas tão intensas que, hoje, tenho medo de não senti-las novamente, bem como tenho medo de senti-las e, assim, criar novos entes de “para sempre” dentro de mim, novos amigos imaginários para a minha esquizofrenia literária. Essa cabeça de poeta me faz refém das histórias que protagonizo, reais ou inventadas, e fica cada vez mais difícil viver por viver, preencher os dias, mecanizar a rotina, orbitar numa certa “superficialidade” (nem sei bem o que chamar de superficial). Eu sei que fui (ou, quem sabe, ainda seja) plenamente capaz de perder o tino por paixão, e, às vezes, por amor: à poesia, à música, a uma mulher... Entretanto, essa pulsão de morte do sentimento é potência ambígua, que tem o ímpeto de construir os sonhos e os argumentos, de nortear o futuro, mas tem também o capricho de quebrar a linha de continuidade da vida, de fixar algum tempo, alguma cena, alguma palavra, algum olhar, enfim... Alguma “marca de Caim” que se autoproclama parâmetro para todas as outras possibilidades de sentir, e daí, como eu já disse, fica difícil viver por viver. Essas histórias são inquestionáveis, são muito mais fortes do que o meu presente, e quando caminho pela rua, em muitos lugares, e leio certas coisas, e ouço outras, não estou apto a escrever novas estrofes a partir de então, mas apenas retorno às mesmas do costume, como um faminto catando migalhas de algum prazer já não vigorante, mas que, aos trancos e barrancos, é o que ainda alimenta.

Temo, por fim, que a minha alma permaneça aprisionada nos seis anos passados, enquanto o meu corpo vaga, por aí, irresoluto e desconexo, passivo de uma gama de sentidos. Não duvido. Se fui capaz de me prender a uma única noite por quase três anos, criando sobre ela uma constelação de imagens, cheiros, poemas e fantasmas... Criando sobre tal noite uma paixão imensa e covarde, sim, covarde porque a ausência é incombatível (e é por isso que os mortos adquirem perfeição instantânea). Se fui capaz disso, sou capaz de qualquer absurdo congênere, sou capaz de enxergar por todo o Rio de Janeiro um martírio de placas de neon que piscam na minha cara apontando caminhos, uma sinestesia de referências que sempre me façam lembrar destes anos...

O passado - este signo que é o passado - é implacável, inalienável, incorrigível. É o modelo mais covarde, mais até do que o futuro: ausência viva...

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Silêncio.

Eu vejo a estação
Minh'alma se reparte entre os vagões
A Poesia me leva
E me lava
Você, apenas lá
Existe implícita
Seu olhar me apanha
Nesse lugar onde o tempo
Não passa
Não há nada, não há ninguém
Apenas você que me encontra
Que me salva do silêncio
Que, na madrugada sem chuva, espera
Próxima ao meu destino
O trem da vida
Quando nós, à beira dos trilhos,
Fundimos os desejos
E inclinamos as cabeças, juntos,
Na exata direção
Do infinito.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Haja Kandahar

Se Kandahar for mais quente
Do que o meu quarto
Não me importo, lá nunca estive
Kandahar é breve para mim
Vista de longe, feita aos cacos
Vai se afirmando mais extensa
E há de ser plena de palavras
Que nunca deixam de estar novas
Mesmo que prostituidamente
E sem afeto
Sejam usadas
Há de ser o que eu quiser que seja
E por isso amo Kandahar
Porque não amo a Lapa, chão onde piso
Braço de vida onde se acaba a catarse
Com muita ressaca
E pouco cortejo
Amo mesmo aquela esperança malograda
Aquele beijo em suspenso
Aquele lugar, aquele ideal
Aquela paragem ao norte
Que, virgem da minha estada,
Multiplica-se de nomes
Amo mais a amante ausente
Em cada mulher transeunte
De cada segundo seguinte
E cada resposta que não sei
Dizer
O destino nos confunde, sempre
Espero que não me leve à Kandahar
Onde não quero pisar hoje
Aliás, nunca
Porque prefiro fecundá-la aos poucos
Vivê-la aos solilóquios
Enchê-la de tudo o que é desejo
Com a utopia de encarnar o super-homem
De Nietzsche, ou dos quadrinhos
Porque ao contrário do que dizem
Aqueles que não se julgam loucos
Se realmente existe um cais
Se houver Kandahar
O paraíso são os outros.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Adversidade

Vós                                      Nós
Sois                Mas               Somos
Sóis                                     Sombras

Paragens.

Vida
Estaleiro de sonhos
Fábrica de passados
Onde vão se apertando absurdos
Com chave inglesa
Escudos de metal pesado escodem
Os pulmões obtusos
Por cigarros
Entre as paragens do meu corpo
Demoram quaisquer certezas
E a cerveja que se bebe, sem gosto,
É hesitante
O futuro que se espera sem remédio... Hesitante
E toda a mecânica das pernas
Caminhantes sós, e só
Pela metade
Porque triste mesmo é este canteiro de obras
É claro, inacabadas
Onde se cobra trabalho inútil
Onde se arrasta uma alma-jato
Bem maior
Do que sua fuselagem.

Los Amorosos (do poeta mexicano Jaime Sabines)


Los amorosos callan.
El amor es el silencio más fino,
el más tembloroso, el más insoportable.
Los amorosos buscan,
los amorosos son los que abandonan,
son los que cambian, los que olvidan.
Su corazón les dice que nunca han de encontrar,
no encuentran, buscan.

Los amorosos andan como locos
porque están solos, solos, solos,
entregándose, dándose a cada rato,
llorando porque no salvan al amor.
Les preocupa el amor. Los amorosos
viven al día, no pueden hacer más, no saben.
Siempre se están yendo, siempre,
hacia alguna parte.
Esperan,
no esperan nada, pero esperan.
Saben que nunca han de encontrar.
El amor es la prórroga perpetua,
siempre el paso siguiente, el otro, el otro.
Los amorosos son los insaciables,
los que siempre ¡qué bueno! han de estar solos.

Los amorosos son la hidra del cuento.
Tienen serpientes en lugar de brazos.
Las venas del cuello se les hinchan
también como serpientes para asfixiarlos.
Los amorosos no pueden dormir
porque si se duermen se los comen los gusanos.

En la obscuridad abren los ojos
y les cae en ellos el espanto.

Encuentran alacranes bajo la sábana
y su cama flota como sobre un lago.

Los amorosos son locos,
sólo locos, sin Dios y sin diablo.

Los amorosos salen de sus cuevas
temblorosos, hambrientos,
a cazar fantasmas.
Se ríen de las gentes que lo saben todo,
de las que aman a perpetuidad, verídicamente,
de las que creen en el amor como en una lámpara
de inagotable aceite.

Los amorosos juegan a coger el agua,
a tatuar el humo, a no irse.
Juegan el largo, el triste juego del amor.
Nadie ha de resignarse.
Dicen que nadie ha de resignarse.
Los amorosos se avergüenzan de toda conformación.

Vacíos, pero vacíos de una a otra costilla,
la muerte les fermenta detrás de los ojos,
y ellos caminan, lloran hasta la madrugada
en que trenes y gallos se despiden dolorosamente.

Les llega a veces un olor a tierra recién nacida,
a mujeres que duermen con la mano en el sexo,
complacidas,
a arroyos de agua tierna y a cocinas.

Los amorosos se ponen a cantar entre labios
una canción no aprendida.
Y se van llorando, llorando la hermosa vida.

* Foto: tela "Os Amantes", de René Magritte (1928).

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

7 transas, 4 tatuagens e 2 poetas.

Quero nascer o meu poema da pele dela
E nela escrevê-lo
Como quem arranca a essência
Vou expô-la sem piedade
Ao meu domínio
Nos seus olhos que me dizem coisas
Eu submerjo, imanado com força
Gozando em cada tatuagem
Uma estrofe de volúpia
Sucumbido em beijos
Adstringentes
Ardentes por seu cheiro imbuído
Em minha cama, em minhas roupas
Num poema que verte aos poucos
Da ponta de uma língua que lambe
Desesperadamente
Aquele corpo
Onde eu meto, eu falo, eu sinto
E me faço tatuar
Nos seios dela, no pescoço
Nos olhos
Nos versos que ela expulsa no papel
Por mim amassado
Enquanto nós
Com as pernas trôpegas
Nos queimamos sem limite
E sem retorno
Na babel desse desejo
Vasto
E rouco

domingo, 7 de novembro de 2010

Somas.


Ela voltou-se em minha direção, seus olhos expunham medos maiores que os espigões do centro da cidade, lugar que entrou para o hábito da memória recente. Mergulhado num “ser poeta”, eu vi nestes olhos de mulher a minha infância refletida, a imagem que guardo gratuitamente de um "eu criança" descendo as escadas do hall no Pedro II, ao meio-dia, tão cheio de expectativas breves e fáceis de se cumprir, bem como de se esquecer, porque agora não causam mais nenhum tipo de diferença. De repente essa infância, imbuída nesses olhos, se agarrou aos muitos poemas que li e escrevi mais tarde, e ao mar de Copacabana de uns 9 anos atrás, quando eu passeava ao lado do meu pai, na madrugada, só pra ocupar o tempo de uma relação que era mais pautada na beleza do mundo visto do que na tentativa de se entender e enxergar um ao outro. Essa Copacabana perdida tinha, pra nós, o papel que a televisão costuma desempenhar num contexto menos romântico.

Acho estranho que o meu passado exaspere o meu futuro, sempre espelhando nessas velhas cenas a vontade de consumar com intensidade o presente, mostrando pra mim o imperativo de despedidas que há na vida, na mudança, e nessa coisa mutante que sempre fui eu, assim, que hoje sou algum, amanhã não sei... Eu que vejo tantas coisas em olhos, e tanta arte na cidade do Rio de Janeiro, imagens que não saem de mim, e que fazem sinestesia com as palavras que mais uso, as músicas de cada fase, e os cheiros que me fixam... Sempre sinto alguma coisa quando passo pelo Aterro do Flamengo, em frente ao MAM, e certas vezes, dada a inspiração, até me nasce um poema. Essa coisa que sinto é um pedaço de drama, que é bom, mas dói, simplesmente porque drama, por ser apenas o que é.

Enquanto ela ainda me olhava de perto nossos “eus” jamais estiveram distantes, porque quando nos materializávamos na presença de corpos que se colavam um ao outro mentíamos felizes sobre a possibilidade de não existir sozinhos, cada qual com seus desígnios. Pouco depois de não sei quando, já cansada de me fitar, ela abriu um livro; tive inveja do livro, queria sê-lo pra que ela pudesse me ler, pra que pudesse imiscuir em seu pensamento essa minha vida que não sai de mim, essa bagagem que não há como dividir com ninguém, e que eu intento jogar pela janela junto a toda a capacidade absurda de amar que sempre ostentei sem pedir, e que por aquela tal bagagem é a única responsável direta. De repente, nessa hora, livre de mim mesmo, eu veria os olhos dela apenas como olhos, com sua cor banal de íris que tantos outros olhos têm igual no mundo.

E tal como nos olhos dela salta o meu amor inteiro, somado desde sempre, o cotidiano dos dias remete, em sua pura normalidade, a um turbilhão de poesias e imagens que brotam de tudo e de lugar nenhum. Quando passeio, hoje, pela orla de Copacabana, lembro-me do meu pai, com seus vícios de poeta desnorteado que tanto me constituíram sem querer; lembro-me dos versos à beira do mar, em dias e noites diversos, alguns recentes, e das putas que conheci pelo nome, que me apertavam as bochechas e sorriam, seminuas... De assalto, lembro-me dos olhos dela vidrada em minhas histórias, afoita em me ver por dentro, e do quanto isso me fazia querer falar sem parar, afim de me transcrever, como é de lei na história do amor, a qual, segundo Vinícius de Moraes, é a própria história da vida.

Entretanto, falta um porém: de todos os lugares de onde tiro poemas, tiro tristeza. Tento ser condescendente a ambos os sentimentos, mas não sei qual deles me ganha, e nem sei, afinal, se duelam ou se conspiram por mim. Pareço ser feito de somas, e não imagino onde essa conta ainda vai me levar...

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Sem Saída.

Solidão: solilóquio satírico
Sobrevida sórdida
Cinismo cíclico
Na seara do sutil
Já não me sinto mais
Somente suponho
Surreais certezas
Que, aos solavancos,
Seguro comigo

E seccionado de si
Insípido sigo
Sequestrado e seco
Do suporte seu
Solapado num sopro
De sono e silêncio
Na soberba insanidade
De sanar essa sede
Que soçobra o sentido
Do sujeito
Eu

Situação insolúvel
Sentimento sombrio
Substância que sobra
Saudade suprema
Que salta em segredo
E eu saio do sério
E submerjo no sonho

Simplesmente sozinho
Terei de soerguer
Com severa sobriedade
O sobrepeso de ser

A sina
Será sofrível
Mas ainda que eu sucumba
Suado
E sem saída
Simularei sentimentos
Solares e serenos
No semblante

(E sabores súbitos
E adstringentes
Na saliva...)

Em Falso...

Encontro a lagoa, na Borges,
A noite me dói
Se a procuro refletida
E não vejo
Persigo o dia
Vou ao Flamengo, à Botafogo
O inferno chega em mim
Aos poucos

Como as folhas caídas do aterro
Quero o gosto, aquele
Aquela seiva de corpo
Aquele fluido vaginal
Aquele vício
A natureza me chama
Não sei de onde vem
Mas ouço

Na Urca, medito
Com os pés descalços
A Avenida Portugal me recebe
Lacônica
A vejo do outro lado
Num embaraço
De passos
Que me enlaçam

Quero tabaco, cachaça, sexo
E ócio
Quero gozar definitivamente
Não quero porra nenhuma, só quero
Que parem de me seguir a rota
Os epiléticos de Copacabana
Os felizes e os saciados

Das varandas
Trocam-se olhares suspeitos
Que a apontam perdida
Na Paissandu
Próximo ao Largo do Machado

É claro, vejo seu traço no céu,
Vou de encontro
Piso em falso
Sou outra coisa, menos gente
Sou nada

Sou triste demais
Tenho braços que me atrapalham
Que sobram
Que me nadam na baía,
Se penso que ela esteja
Na ponte
Prestes...

Eu
Ao dispor de pálidas armas
Amantes hipotéticas
Com seus gatilhos de veludo
Vermelho
Seus sexos tapados
Que de mansinho
Ou com vigor
Sempre me dizem
Não

Eu
sou eu que entendo John Lennon
Também amei Yoko Ono
Desde que vi seu “yes”
Sapiente
Rompante
Conclusivo

Romântico e destruído
Por nada
Em Laranjeiras eu caio
Exausto
Na Pinheiro Machado
A lua apaga, a vista embaça
Próximo ao viaduto
Não sei se o que ainda me prende
Me prende, de fato

O gerúndio processual e inconcluso
Acabou de acabar.
Ele que há tempos me adiava:
Não estou ficando louco
Agora
Eu
Já...

Neutralidade Inalcançável

O amor não dá trégua
O amor é meu
Ele vem de dentro pra fora
E pinta as coisas

Sou a vítima
Não posso fugir
Já tentei correr pela Hilário de Gouveia, até a praia
Ele vinha em mim, e comigo mergulhou
No mar... Não se afogou, viveu
Vive sempre
E comigo vê chegar mais um Outubro
Amargo
Lotado de ausências

Além da noite
Além do limite
É como o sinto... Esse amor
Além da estranheza de assistir seus vultos que passam
Nos ônibus, nos muros, que viram a esquina e, depois,
Desaparecem

Além do tempo de um telefonema,
Da enorme distância de um só bairro
Eu estou cansado, não quero mais
Não quero mais nada
Não quero morrer
Só quero uma neutralidade inalcançável
Um não ser visto

Quero tirar a fantasia da peça que nunca estreei
Quero deixar der ser poeta, de ser vivo, de ser homem
Desisto de ser inteiro, de ser intenso,
Pra ser pequeno... Pra existir só um pouquinho
Pra beber a cicuta do esquecimento
E me deitar no intervalo da mínima dor
Do mínimo movimento

Quero calar
Fumar o meu cigarro
Tomar o meu café
Os meus remédios
E ter o direito de ser triste e grogue
Tal e qual o amor se permite ser sempre amor
Inominável, impreenchível
Plasmado de uma efemeridade cruel
E sem tamanho

Quero terminar de murchar aos poucos, devagarinho
De esquecer os autores que li, de jogar tudo isso fora
Esses filmes, esses discos, esse violão que eu não toco
Essas lembranças da vida
Da escola
Do Largo da Segunda Feira
Esse amor que jorra
Em torrentes
E inunda o meu quarto
Os meus olhos
O meu nexo
O meu sexo
Tudo

Eu não quero eleger novos espaços de sentir
Não quero procurar uma boca em outras bocas
E nem um poema nas bocas e nos olhos alheios
A vida não é poesia, e isso já me faz a criança
Natimorta
Que precisa aprender a ser leve, vazia, inútil
Como um saco plástico solto ao vento
Rodando em giros...

Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

Seguidores...

Sobre a dúvida...

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

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