segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Ícone.

A atração, quando juntada, cria uma aderência sebosa
encrudescida no parapeito da janela,
onde debruça ela hoje a assistir ela ontem estendendo a mão a ela
amanhã,
nas andanças justapostas de várias gerações.

A fruição deste impulso organicista é tão violenta que arranca tudo de uma vez
e ameaça despir, desmontar a memória
como desmonta, após o sexo, a amante faminta:
então caótica, contemplativa,
outra mulher,
na acepção de um livro escrito do punho de quem não mais o reconhece.

(Mas há livro, há punho, e tudo isso é bom de haver).

Se o objeto só existe no confronto preto / branco,
pois que se ame vigorosamente o branco e o preto.

Viva a moralidade-do-pau-oco, que dá sua carne de comer aos parafílicos.
Viva a poesia asséptica de Olavo Bilac, seu antimagnetismo que brutaliza ainda mais o estupro sensorial de Murilo Mendes.

Viva a indiferença solapada no desejo,
e o corpo de mulher dessacralizado na antinomia do tempo, na moenda da metáfora,
na inteligência artificial da pós-modernidade e sua máquina depressiva, iconoclastizante e desterradora.

(Vejo na hóstia o teu mamilo).

Se o susto da alteridade bole teu sexo até a consciência,
historiciza esse pavor!
Transcende a estada em ti mesma, invade o álbum de retratos,
bole tua mãe, tua avó, tua tia,
todas elas em você tatuadas e assinaladas num mesmo nome ilegível,
rascunhado nos projetos de eu ontem, eu hoje, eu amanhã.

À vista da tua linha ancestral
percebo a força da natureza.
Tua sequência de vidas tem o cheiro do amaciante no uniforme, de chocolate, de macarrão com queijo, de richester superiore e rosquinha Mabel, de restos de rosas guardadas, dias inteiros no quarto, de café, de vinho branco, de expectativa, de lágrima, de cinema, de suor e saliva, de seda verão intenso, de leite de rosas, de cigarro, de descoberta, de desespero.

Todas elas imanadas em você
me elegeram a presa em comum.
Na antinomia perfeita de todos os meus desejos
historicamente degenerados.

(Tenho medo de,
quando todas elas e todos eus saírem juntos pra ver o sol,
o que é que vai sobrar de mim).

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Manifeste-se!


Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

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"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

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