quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Noite Ávida.

Solidão muita
Escuridão a dentro
Escuridão há
Lá dentro
Nessa terça asséptica
Que me pesca
Eu mordo o anzol do silêncio

Por decisão urgente
Hoje
Eu preciso
Me embriagar de saliva
Na fonte
E bater nas curvas

Nas mãos há luvas
Cirúrgicas
Acadêmicas
Me isolando
Que rasgo e atiro
Lá fora
Contra a janela
Onde espero
Esfolar
Meus pelos
E abrir
Meus poros

Nessa terça estúpida
Plasmada de tesão
Sem uso
Que me implora a chupar seus seios
Até formigar a boca
Fazendo o corpo ser
Deixando marcas
Criando luas
Cálidas
Crescentes
Expostas

Além do vazio
No quarto
A vida inteira
Nua
Eu quero
Quero anular o que me impede
De ser inteiro
Com ela
E avivar a natureza morta
Excitando o concreto
No chão

Quero gozar nos prédios
Nos muros
Na cara dela
Chocar os paralelepípedos
Despir as ruas
Lamber os carros
Ungir suas coxas com porra
Fincar os dedos
Na noite
Nas ancas
E dominá-la
E comê-la sem mastigar
Com o pau com os olhos com as mãos
Com os versos
Arrastando a madrugada
Pelos fios dos postes
E dos cabelos
Emaranhados à noite
Arrepiada
E ávida
De suor
E sexo

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Lembranças, no âmbar, não ficam.

O ápeiron é agora:
meu sangue borbulhando na chaleira do corpo,
meus pés que vacilam na soleira da porta
querendo voltar.

Tudo se escora,
mas, equilíbrio, não!
Ao contrário:

Ápeiron,
como despolarização maior que o caos.
Lembranças no âmbar

não ficam.

Do lado de cá, minh'alma
que grita,
que em urticárias filtra a parte fogo
do elemento água...

Desejo:
a ambição humilhada,
desbaratada facilmente;
do poema impresso,
seu preço incorpóreo
e alto

(fragilidade concreta).

Pago pra ver,
não sei se resolve.
Conheço a temporalidade da matéria,

conheço o imperativo de ser.

Não tenho escape pra essa coisa
que, ora ápeiron, ontem palavra,

já foi tinta,
foi língua,
foi âmbar,
foi nada.

Espiral.

Não amo você
amava a Outra
aquela
a que escorreu da minha cama
adiantada
antes do fim das velas

Num continuum
persigo a besta do futuro
em curvas espirais
me dobrando
matava a Outra
não vi
não tive olhos
só perscrutava a bailarina em seu hall de espelhos
ainda menina
cadáver de sapatilhas
pisando nas vértebras
que foram
minhas
quando eu era...

Mas se removo a pele morta
das horas
se cria nova crosta
em pouco espaço
nada vejo
apenas você que emerge
abreviando
abreviada
exclamando interrogações
me enchendo de vírgulas
e me comendo
nas pausas.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Alto-falante.

Que coisa é essa que me fixa?
O que é que tem se eu quero arriscar?
Se penso ser alto-falante,
não me venha pôr no mudo.
Não me desplugue,
me permita.

Abre a represa e me deixa fluir
que eu posso ser mais leve do que a água.

O que é que tem nessa mordida ferina
que não desgarra?
Apaga esse sinal de mim!
Me expõe ao sol, me evapora,
me excreta, me ejeta!
Cessa de me prover à força, de me dar o peito,
de provocar monólogos...

Deixa-me embrutecer.

Botafogo às 14:00h

Caí da cama mais cedo
Oito e pouca
Pensei o dia inteiro
Intrigado... Até a fome chegar
E levar meu pensamento embora

Caiu a tarde nublada
Vicejando nas vagas consciências
Em trânsito
Caio eu, em nostalgia,
Em frente à praia
Tenho espasmos de pânico
O futuro machuca

Caiu a chuva que me molhará
Cai a ficha
Caem as máscaras deste mundo cão
Vacilante nas avenidas
Embatucado de infelicidades
Gente volúvel, maquiada
Autoiludida

Caio eu no velho projeto de silenciar meu lamento
E falho... Faço barulho, respiro
Mesmo parado.

Tento entender o moinho
Queria crer no amor
Como a potência que cria o movimento
Que expulsa a gente do colo da mãe
Pra inventar a saudade
Que faz Botafogo parecer mais bonito que o Méier

Um dia cometo uma loucura
Antes que a urgência pelo pão me amortize
Ainda me atiro a nado através da enseada
E vou distribuir abraços e poemas
De barco em barco

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Catabolismo.

A descoberta é domínio da desordem e explosão alienante de múltiplos estímulos caóticos proféticos virais lisérgicos na origem dos efeitos que em mim introjetam a potência furiosa de um grito perfeito que ecoa sem chão sem ar sem jeito e arranca a bateria do chip-consciência e me elege cobaia do botão reset que esse deus desprovido de consentimento bolinou quando tudo já estava acabado metendo um toque equivocado na espessura fresca da tinta que me consagra o eterno replicante e me pinta enganchado às asas depenadas de uma gangue de arcanjos-mensageiros-beatnik com suas auréolas depostas no balcão do bar e suas bençãos imanadas no útero da noite onde arrepia o pavor no qual se cria a coisa a qual almeja refundar o meu entendimento porque me obriga a ir dormir deixando a porta aberta a essa força que age impiedosamente soprando no nariz o pó da descoberta.

A Náusea.

Tenho notado que, em quase todos os textos e poemas de cunho reflexivo (ou seja, em quase todos os textos e poemas), eu confesso as mesmas coisas, e fico falando insistentemente sobre “náusea” e “condição humana”, de modo direto ou entre linhas. Acho que registro o que sei sobre mim pra tentar preservar alguma referência, frente ao próximo giro da Terra, o que me põe em xeque a paixão e o talento literário os quais eu sempre sonhei ter, porque se essa coisa, esse sentimento de que falo, parasse de me mortificar, eu nem imagino se escreveria uma única palavra a mais... Talvez eu simplesmente respirasse fundo e tirasse as mãos do teclado na hora, no ato. Não sei se escrevo por arte, mas com certeza é no texto que desconto o maldito sentimento. É o único fio de contato, o placebo que parece me impedir de ser um louco de tipo descontrolado. A necessidade é diferente da criatividade, em certa medida, porque elas se encontram mas não por isso são a mesma.

Isso não é, portanto, um poema, nem prosa poética... Nem mesmo literatura isso é. Escrevo porque preciso, publico porque me sinto menos só, ainda que ninguém leia. Acho que estou tentando sublimar o desespero: é que existe uma coisa, um sentimento que eu não sei nomear, o qual já não me era estranho e que agora voltou, de assalto, a atormentar minha sanidade. Esse sentimento se desdobra em diversas perturbações: vivo com ele a constante impressão de que cada momento razoavelmente confortável não está sendo consumado o bastante, e que após o seu efeito calmante a agonia voltará ainda maior (o que é empiricamente comprovado); vivo na paranóica expectativa de qualquer força ou acontecimento redentor, físico ou metafísico, que altere profundamente a estrutura da existência, quando, por sorte, eu passaria a me sentir achado.

Uma gastura, uma dor, uma ânsia, quase uma abstinência. Em certos momentos me faz pensar que é algo químico, mas não pode ser, porque não uso nada (afora umas cervejas e uns cigarros de vez em quando). É muito mais que solidão, que angústia, que medo, que pessimismo, que desencontro: é tudo isso num vômito só, enquanto, nos limites da percepção, eu sei que não é exatamente nenhum desses males, tanto que, para cada um deles, eu me sinto plenamente capaz de atribuir rótulos ímpares. É um pesadelo instaurado, institucionalizado, que não desaparece nem de olhos abertos. É insuportável, insustentável, não dorme, não pára, não dá um segundo de trégua, nunca, em hipótese alguma, e fica insinuando ser pior do que a morte, querendo me convencer de que ela seria a única saída para a “A Náusea”. Só que eu também não entendo a morte. Sou medroso, hedonista (na medida do condizente) e curioso demais pra isso. Tenho uma vontade quase autodestrutiva de ver aonde a Roda-Viva da condição humana vai me levar.

Esse tal sentimento me enfiou a alma num quarto branco e me fez desaprender o caminho de casa. Entre sorrisos, manhãs de aula, noites de farra ou de poemas, filmes, preocupações financeiras, conversas fiadas... Eu sou o nômade. Sou mutante e nem sei se quem muda sou eu, ainda que inconscientemente, ou se é o mundo que está em constante rotação por baixo dos meus pés, num movimento natural, porém medonho.

Sempre gostei de ser nômade em certas conjunturas, porque é inegavelmente prazeroso incursionar no diferente, percorrer caminhos, conhecer. Mas agora adquiro um asco e uma claustrofobia que crescem exponencialmente à vista desta situação insalubre, a de não optar, mas ser obrigado ao nomadismo. Permanecer condicionado a qualquer coisa é uma merda absurda, imoral, indescritível, uma bomba-relógio sempre em fins de contagem, agravada pelo fato de que a explosão metafórica é intensamente mais desconcertante do que a explosão literal, já que, no caso da primeira, a gente não sabe na prática como é que acontece essa coisa de explodir, nem qual o rearranjo ou o caos que podem surgir logo após o boom.

Tem-se, então, e a todo momento, uma verdadeira odisséia, o cansaço de vigiar, a tensão muscular e psíquica de quem não consegue chegar em casa, na acepção metafórica da frase mas na realidade absoluta do sentimento.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Ícone.

A atração, quando juntada, cria uma aderência sebosa
encrudescida no parapeito da janela,
onde debruça ela hoje a assistir ela ontem estendendo a mão a ela
amanhã,
nas andanças justapostas de várias gerações.

A fruição deste impulso organicista é tão violenta que arranca tudo de uma vez
e ameaça despir, desmontar a memória
como desmonta, após o sexo, a amante faminta:
então caótica, contemplativa,
outra mulher,
na acepção de um livro escrito do punho de quem não mais o reconhece.

(Mas há livro, há punho, e tudo isso é bom de haver).

Se o objeto só existe no confronto preto / branco,
pois que se ame vigorosamente o branco e o preto.

Viva a moralidade-do-pau-oco, que dá sua carne de comer aos parafílicos.
Viva a poesia asséptica de Olavo Bilac, seu antimagnetismo que brutaliza ainda mais o estupro sensorial de Murilo Mendes.

Viva a indiferença solapada no desejo,
e o corpo de mulher dessacralizado na antinomia do tempo, na moenda da metáfora,
na inteligência artificial da pós-modernidade e sua máquina depressiva, iconoclastizante e desterradora.

(Vejo na hóstia o teu mamilo).

Se o susto da alteridade bole teu sexo até a consciência,
historiciza esse pavor!
Transcende a estada em ti mesma, invade o álbum de retratos,
bole tua mãe, tua avó, tua tia,
todas elas em você tatuadas e assinaladas num mesmo nome ilegível,
rascunhado nos projetos de eu ontem, eu hoje, eu amanhã.

À vista da tua linha ancestral
percebo a força da natureza.
Tua sequência de vidas tem o cheiro do amaciante no uniforme, de chocolate, de macarrão com queijo, de richester superiore e rosquinha Mabel, de restos de rosas guardadas, dias inteiros no quarto, de café, de vinho branco, de expectativa, de lágrima, de cinema, de suor e saliva, de seda verão intenso, de leite de rosas, de cigarro, de descoberta, de desespero.

Todas elas imanadas em você
me elegeram a presa em comum.
Na antinomia perfeita de todos os meus desejos
historicamente degenerados.

(Tenho medo de,
quando todas elas e todos eus saírem juntos pra ver o sol,
o que é que vai sobrar de mim).

Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

Seguidores...

Sobre a dúvida...

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

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