domingo, 26 de setembro de 2010

Da sujeição de Severin.

Wanda, coberta de couros escuros,
com os olhos mais gélidos que a fria madrugada russa
do inverno alemão,
esvaziava Severin do ser Severin,
pregava Severin na cruz,
e fincava a cruz no mais erguido que pudesse.

O seu pacto, firmado em silêncio, arrogava um pietismo naturalmente

[estabelecido
entre o artista e a obra,
dentro do qual todo o prazer se concretizaria no entreatos,
no rito de passagem:
a coesão - apavorada - dos músculos contractos
contra o relaxamento que sucede ao pingo
da cera quente.

Se Wanda, a Vênus, trajava o quíton clássico,
se podia gravar em seu braço a marca de Caim,
então cruel era o perdão
e vil era Severin,
o tirano,
o escravo,
que em seu maior artifício de vilania
almejava sujeitar a musa de Pompéia
a sujeitá-lo.

sábado, 25 de setembro de 2010

Trailer.

Saudade de sentir saudade,
um refúgio que tudo tangencia
mas nada o invade;
a capacidade de conter o universo
num nome simbólico, mítico;
o álibi atestado pra chorar sem culpa,
pra ser injusto ao lidar com a razão.

O pathos, o logos, o ethos,
as potências de existir que em mim se excedem,
no escopo do amor mantinham colocado
cada sujeito em seu lugar, tudo arrumado,
tudo amarrado,
mas cada lugar, em si, um caos,
e cada caos a síntese de um éden.

Acho que, de repente, acordei num trailer
desgovernado, por aí... Corpo afora.
Porque por dentro foi tudo corroído
num desbotamento covarde da cor.

O sulco aberto, em mim, pela libido
alienou sua função, secou até a memória;
até o subsolo da raiz do último fio
da mínima coisa que dá força ao gesto;
até uma nesga de sentimento figurar sozinha,
dilapidada pobremente,
mais pendida ao desgosto do mesquinho,
da comiseração
e da nostalgia.

Saudade de chegar em casa
e, havendo casa, encontrar o motivo
desta necessidade aflita por sorver,
esta fome insaciável, a qual,
após o jantar perdurando,
me questiono em consulta ao subterrâneo
da mente:
sorver, ok, certamente,
mas...
O quê?

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Limite.

Claustrofobia.
Castração.
A força que oprime.
A moça foge, a mão a alcança, a câmera treme...
Ela esteve doente nas últimas semanas.
Antibiótico regrado (de 12 em 12 horas),
o periódico por hábito lacrado
sobre a mesa,
whisky, passaporte,
uma vontade imensa de infringir as regras,
mas, ainda que frouxa,
a venda...
Que nos olhos atrasava o aporte do estalo óbvio:
quem não subscreve o limite... Não peca.

Bobagem, uma questão relativa.
Seu reconhecimento imediato se deu
no reflexo do café
na xícara:
estava presa num tronco onde mal cabia
(a cigarra num pote de criança!).
Ruminava o desdém pela verossimilhança
e ia, então,
se reduzindo...

Pela manhã fumava seduzindo
alguém
por trás do espelho.
Junto à poltrona de rattan da sala
rezava, ela, de joelhos.

Pra dilatar o campo dos contatos
onde a porta do corpo não abria
fingia agora interpretar a si mesma
durante um ensaio de filosofia:

“(...) Ando à cata do que me traduza
o nome e a medida da escala
em que o sentido das coisas se messa
no momento que antecede a fala. (...)”

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A mão da arte.

Na seara do desejo
Tudo são olhos abertos
Tudo são cordas que vibram
O meu corpo, um disparate
O aperto da mão arte
Me bulindo sem pudor

Na seara do desejo
É a tinta que me pinta
É o poema que me escreve
As terminações nervosas
Se expandem pra além da pele
A beleza esconde o medo
A dor que me faz gozar

Na seara do desejo
Toda a fé está exposta
O sentido é o sentimento
O contato é a resposta
O inferno é a vontade
de querer ser sempre mais...

De querer parar o tempo
Na seara do desejo.

Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

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Sobre a dúvida...

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

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