sábado, 14 de agosto de 2010

O Primeiro Ato.

Parte I - Deus e eu, na coxia

Às vezes, quando vou dormir, é que vem a vontade de ser feliz
E o medo
A tristeza dói no estômago
Mal vejo a hora de irromper da coxia
A fala tantas vezes ensaiada
Meu traje a rigor
Quero estrear depressa a minha esquete
Quero extrair em frente ao publico
A melhor parte de mim
Algo que viva para sempre
E que possa ser útil a quem for de interesse
Mas se a expressão da face corromper o ato
Se o sentimento não atingir minha relapsa
Porém amável
Plateia
(Que se dispõe piedosa por eu ser mais um)
Eu não vou chorar
Não vou borrar a maquiagem pesada
Porque é uma vida inteira à espreita de um momento
“A cortina, a cortina...”. Nem pisco mais
Só sinto a honra e o pavor de fazer
O estranho papel de mim mesmo
Coisa mais difícil pra qualquer ator, eu suponho
Pois que todo personagem tem partes de seu intérprete
Mas esse é único, esse é o ápice
É o gozo, e... fim
Não temos direito a um segundo ato
E, embora a categoria o reivindique,
Não me atrai a dependência
Pelo talvez
Eu vou mesmo é nascer e morrer em cena
Pra que não fiquem frustrações e culpas
Não por ser mau ator
Mas pela brutalidade alheia
Que eu não possa vencer

Parte II - Vontade de Potência

A tristeza dói no estômago
E se é uma mancha na retina da gente
Ou na epiderme do mundo
Pra mim tanto faz,
A ardência é a mesma
Mal vejo a hora de romper o claustro da palavra
E passear nos limites da pulsão
Quero estrear meu paletó de madeira sem pendências
Quero cair exausto de amor
Mas o tempo... o tempo...
A tristeza manipula o relógio
E dói no estômago
Mal vejo a hora de irromper a madrugada por puro prazer
Sem que haja medo de dormir
E o mesmo medo de acordar
A tristeza é uma Síndrome de Estocolmo que dá na gente
É a mudez que vem já pelo medo de perder a fala
Um inimigo tão próximo
Que crio e alimento no meu quarto
A angústia de esperar contra o espelho
Eu... já vestido e montado para a hora da estreia
Que é amanhã, que já foi ontem e hoje
Que nunca chega porque a tristeza manipula o relógio
E dói no estômago

1 comentário :

Borderline 14 de agosto de 2010 19:48  

Não sei quem é o senhor, nem como achei este lugar, nem o motivo de eu comentar.
É, é um grito. Seu blog é um grito daqueles de ar das entranhas dos pulmões. Assim é bom porque é ruim.
Mas é um grito, e por isso amei - seria palavra certa? Sou feita de gritos. Resíduos. E (quase) todos temem o resto dentro de si. Mas é tão mais belo, não acha?

Não pare de escrever, Sr.
E apague este comentário

Manifeste-se!


Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

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"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

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