sábado, 28 de agosto de 2010

Contra a corrente.

Perecer.
Destino natural...
Meu corpo agora estranha
o que já foi normal.

Se até lá eu viver,
eu sinto, eu sei:
Súbito estranharei
o amigo próximo,
e no desconhecido
hei de buscar o nexo,
o aval da benção,
e o colo.

E, com qualquer impulso,
tudo me será fácil,
pois quero muito pouco...
Agora que o injusto
e o paradoxo
já não me insuflam mais,
serei feliz com anestésico.
(Ou serei demente?)

Nadar contra a corrente?
Nada contra... Mas, pra quê?
Se, de repente, a natureza me ganha
e tão impotente quanto vi nascer
o meu delírio de tantos anos,
os meus sonhos, os meus planos
e eu... Todos juntos vamos
perecer.

domingo, 15 de agosto de 2010

Terra arrasada.

Não sei de que crime
me acusa o inimigo.
Julga-me pelas costas!
E a pena que inflige?
Terra arrasada:
sem comida, sem abrigo,
o solo esturricado
e a água envenenada.
Não entendo o veredito...
Faltei a esta guerra?
Avanço na estrada,
Clara vem comigo.
Do meu algoz, nem palpite.
Vai sem rumo o meu revide,
mas, mesmo assim, revido.

sábado, 14 de agosto de 2010

O Primeiro Ato.

Parte I - Deus e eu, na coxia

Às vezes, quando vou dormir, é que vem a vontade de ser feliz
E o medo
A tristeza dói no estômago
Mal vejo a hora de irromper da coxia
A fala tantas vezes ensaiada
Meu traje a rigor
Quero estrear depressa a minha esquete
Quero extrair em frente ao publico
A melhor parte de mim
Algo que viva para sempre
E que possa ser útil a quem for de interesse
Mas se a expressão da face corromper o ato
Se o sentimento não atingir minha relapsa
Porém amável
Plateia
(Que se dispõe piedosa por eu ser mais um)
Eu não vou chorar
Não vou borrar a maquiagem pesada
Porque é uma vida inteira à espreita de um momento
“A cortina, a cortina...”. Nem pisco mais
Só sinto a honra e o pavor de fazer
O estranho papel de mim mesmo
Coisa mais difícil pra qualquer ator, eu suponho
Pois que todo personagem tem partes de seu intérprete
Mas esse é único, esse é o ápice
É o gozo, e... fim
Não temos direito a um segundo ato
E, embora a categoria o reivindique,
Não me atrai a dependência
Pelo talvez
Eu vou mesmo é nascer e morrer em cena
Pra que não fiquem frustrações e culpas
Não por ser mau ator
Mas pela brutalidade alheia
Que eu não possa vencer

Parte II - Vontade de Potência

A tristeza dói no estômago
E se é uma mancha na retina da gente
Ou na epiderme do mundo
Pra mim tanto faz,
A ardência é a mesma
Mal vejo a hora de romper o claustro da palavra
E passear nos limites da pulsão
Quero estrear meu paletó de madeira sem pendências
Quero cair exausto de amor
Mas o tempo... o tempo...
A tristeza manipula o relógio
E dói no estômago
Mal vejo a hora de irromper a madrugada por puro prazer
Sem que haja medo de dormir
E o mesmo medo de acordar
A tristeza é uma Síndrome de Estocolmo que dá na gente
É a mudez que vem já pelo medo de perder a fala
Um inimigo tão próximo
Que crio e alimento no meu quarto
A angústia de esperar contra o espelho
Eu... já vestido e montado para a hora da estreia
Que é amanhã, que já foi ontem e hoje
Que nunca chega porque a tristeza manipula o relógio
E dói no estômago

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Poema para Clara dormindo.

Quem é ela que dorme nua
caiu súbita sincera e clara
quando a vista lhe pesou
me espremo na sobra estreita
na casa cheiro de mar
tem gosto de água e sal
no cabelo escuro liso
clara a manhã de todo santo
dia em que a vejo pisar descalça
sobre as areias de "para sempre"
e o quebra-mar de "nunca mais"
quem é ela que dorme isenta
das coisas tristes do mundo
e faz do corpo a imensa foz
de tudo o que me alimenta
clara a penúltima palavra
antes do sono e na última
ficou e fiquei
pela metade espremido
na sobra estreita do amor
ingênuo e leve de Clara
marcado pelo valor
de muito e apenas
ser.
(Livre.)

Os ácaros.

Prefiro me antecipar
ao cheiro dos livros,
e aos ácaros
que sempre fazem voltar a alergia
(maldita rinite).
Mato esses ácaros!
Sufoco-os na sacola do sebo
mantida intacta nos livros comprados.
E melhor mesmo, penso eu, é não abrí-los
(Imagine só quantos ÁCAROS medonhos
não deve haver ali?!).
Á-CA-ROS!!!
A grande questão é que não posso deixar
de tê-los, de desejá-los.
Os livros fazem parte, é claro.
A gente tem que fazer as coisas,
sabe? As coisas de sempre.
O moto-contínuo é continuo, ora...
A vida é vida que segue.
Prefiro me antecipar,
melhor é viver de uma vez por todas,
melhor é que eu plante a minha árvore
antes que Chronos me pegue.
Ademais o presente, tudo é talvez.
Prefiro me precaver...
Já estou disposto a matar
a saudade
no minuto seguinte ao adeus.
Antes que no vão do esquecimento
Ou na obsolescência da lembrança
Ela me mate.

Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

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Sobre a dúvida...

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

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