domingo, 25 de julho de 2010

7 x 1

Minha boca tem gosto de anteontem. Mecanicamente eu me refaço, vou tentando sobrar intacto por entre as frestas da memória onde me espalho, onde me acho perdido. Eu vejo os sete dias da semana se remontarem, se empilharem holograficamente, mecanicamente; os filhos de uma mesma mãe, esboços de um mesmo projeto. Sete rodas-vivas ao cabo das quais eu me sinto a falsificação de mim mesmo, ou a tentativa constante e inquieta de “ser o que sou” (um simulacro?) mediante o binômio inconciliável de saber o que sou para sê-lo completamente.

Minha boca tem gosto de anteontem, quando, às duas da tarde, eu me levanto. Meu arrependimento por não ter visto o dia chegar é imenso e inevitável. Queria ver render o tempo; queria viver um dia inteiro plenamente; queria viver plenamente uma vida inteira em um dia, talvez. Seria incrível surpreender “o sol antes do sol raiar”, como nas palavras de Chico, agora tão distantes. Eu vou, então, me imaginando, vou me supondo à revelia da margem de erro, vou me perdendo de mim à medida que vou me achando, na medida em que imito a mim mesmo com a estranha ânsia de, quem sabe, preencher a lacuna de características necessárias enquanto fonte às imitações seguintes. É angustiante ser um só... Quisera eu ser sete, mas me faltam uma dúzia de pernas e de vidas para explorar todas as direções aonde é possível seguir. Não posso ser mais do que sou (ou o que não sou), de tal forma que acabo, então, não sendo nada. Acabo não vendo os filmes, não lendo os livros, não tomando porres na Lapa, não saindo pra caminhar em Copacabana, não procurando velhos amigos, não superando e tampouco surpreendendo coisa alguma... A angústia de ter todas as chances (leia-se possibilidades) me devora, e, no meu paradoxo, é a exata mesma angústia de não haver tido chance alguma.

Minha boca tem gosto de anteontem. Tenho esquecido dos poemas que faço, dos nomes que aprendo, das horas, e horas, e horas que... passo. Esqueço das escadas que subo, dos rostos que vejo por aí, da cor cinza do fim de tarde nublado de terça passada, que foi tão bonito. Queria tomar todas as lembranças pela mão, pra que delas eu me criasse quando ao momento das dúvidas, ou quando, talvez, já à beira da porta, eu estivesse ainda inventando o destino para onde ir. Sete cobranças semanais pela urgência de viver! Sou tão jovem...

Minha boca tem gosto de anteontem.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Fugiu?

Um copo vazio,
eu,
na seara do tempo.
Já meio cheio
transbordei,
sei lá...
A palavra sumiu.
Acabou-se a poesia lírica.
E o arquétipo...
Fugiu?
Eu
esqueci das coisas.
Pós-modernismo, teatro e cinema,
sei lá...
Wong Kar-Wai e Jerzy Grotowski
me abandonaram.
Acho que se mudaram de mim...
Eu
não tenho mais o que dizer.
Não justifica nada dizer
nada.
Pareço ser todo agora um artifício,
um ar, um éter...
Repouso dormente no mar
morto.
Eu
só quero um copo cheio
de vazio.
Mormente eu não quero querer!
Mas quero tudo, mas quero apenas
a dor.
Eu quero ser... Sei lá,
a catarse? Sei lá...
Escolho a esmo.
Se choro ou se rio
é o mesmo.

Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

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Sobre a dúvida...

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

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