domingo, 27 de junho de 2010

Ecce Imago

Caminho no corredor,
o espaço é curto,
e mais ainda porque divido a passagem
com o fantasma.
Passo rápido, sonso,
mas ele não colabora,
ele que não me deixa sozinho
e nem acompanhado,
ele que me venera e me odeia
sem razão.
Eu o evitava, antes, e já tentei não olhar
na cara dele.
Porque tinha - ou tenho - medo,
porque me sinto observado
justo quando o voyeur deveria ser
somente eu.
Mas nada adianta, não há argumento,
não há lógica que partilhemos,
não há camaradagem
entre nós.
E eu já me acostumei
com sua presença,
e mais parece ter estado sempre ali,
tácito,
esperando
- ou simulando -
uma oportunidade.
Confesso que antes era simples
porque eu notava os limites claros,
óbvios,
só que hoje a história é outra,
e, às vezes, já confundo
a mim mesmo
com o fantasma,
e o culpo por movimentos bruscos,
arcos-reflexos,
pelos meus solilóquios no escuro.
Piso na ponta dos pés, noite adentro,
não quero acordá-lo.
Já cuido dele,
mas ele se antecipa, ágil,
e parece saber as respostas, e parece querer
me dizer
alguma coisa.
Piso na ponta dos pés, noite a dentro,
não quero acordá-lo.
Mas custo a perceber que ele
me zomba,
que pisa na ponta dos pés, atrás de mim,
mas não o vejo (porque só o vejo quando ele permite).
Então eu grito de susto! E ele grita
junto,
no exato instante,
e me faz um fraco dividido
em dois,
um esquizofrênico!
E me faz o super-homem, me veste de Deus,
me dá uma voz imensa, horrenda,
muito maior
do que eu.
E quando me deito,
cansado
de não entender,
vazio,
ele se deita do lado
e me seca o choro, na fonte,
ainda no olho,
e me embala, e se nega a ir embora.
Numa mão toca meu rosto, na outra
o punhal
em riste.
Ele me olha com amor e com pena
e eu lhe devolvo em expressão de angústia,
de sobrevida,
uma cena triste de cinema
que eu não entendo o porquê.
Por que não mata logo
e encerra
esse filme,
de uma vez,
agora?

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Les Quatre Cents Coups

Les quatre cents coups
leva-me não sei onde...
Truffaut é Antoine,
Truffaut já foi criança.
Tenho saudades dos quatorze:
minha jaqueta manchada,
a garota idealizada,
e uma esperança
imensa!

E nada mais compensa
a vontade de viver,
essa ânsia de reaver
Meu álibi perdido.

Já não faz mais sentido
nem me conforta ser
o incompreendido.
(Truffaut vai me entender...)

domingo, 13 de junho de 2010

Largo de São Francisco

No Centro eu me perco
Entre cinemas e cinismos
Versos esquadrinhados
Largos e becos
E praças
Por avenidas largas
Barrocos, modernismos
Pensamentos atarracam-se
Com fomes
E fumaças
Passos estalam secos
E muitos e múltiplos
E placas e vênus
De ferro fundido
O coração se desmancha
Entre fios e vidraças
E as buzinas se atrapalham
No desconhecido

Largo de São Francisco
O sino já me devora
A hora é sempre uma angústia
Um pontilhismo lá fora
De gente
Ao meio-dia... Não arrisco existir
Entre endereços dementes
De famas
E fobias
Teatros, puteiros
Sebos, confeitarias
A aflição é bonita
E a solidão me entretém
Aqui não sou o centro
Aqui não sou ninguém

Frágil.

Amei desesperadamente,

mas ela desatinou, se foi, e nem sei o que houve. Não tive tempo de pensar, o instantâneo do desvario dela me exigia um arco-reflexo único e certo. Um movimento só... E, de repente, eu não sei onde estava. Talvez por distração, ou, penso ainda, que se possa ter escondido por insegurança. Mas não por zombaria, eu creio (creio?). Talvez esteja aqui, em mim, por dentro, nas paredes dos meus órgãos, nos alvéolos pulmonares, debaixo dos músculos.

Amei desesperadamente,

mas não soube lhe dar esse amor com cuidado... Trouxe altas doses na pele; vinha plasmado de aflição e desejo: e ela se queimou. Assustou-se, então, voou de mim, arisca e frágil, e perdeu-se nas árvores... Pra nunca mais... Pássaro livre num silêncio meu, num instante! Deus do céu, um instante! Chorei qual criança, chamei seu nome até a rouquidão, e, já sem a voz, ainda mexia a boca, pois quem sabe me lesse, de longe, a fricção dos lábios: “-Preciso estar contigo um pouco mais! Só um pouco mais!”. Talvez no céu ou no inferno, e eu quis morrer, ou no silêncio do sono, e eu quis dormir... Por ironia, no fim, o que sobrou dela sou eu: conservo intactos e esparsos no meu corpo os seus lugares, costumes, rotinas; e me mantenho incólume por ser eu mesmo o relicário deste sentimento.

Amei desesperadamente,

e hoje vejo seus vultos, por aí... Debruço-me em vestígios da vida procurando ligações circunstanciais; conecto fatos sem sentido, e permaneço, então, como um anacrônico, o historiador errante de mim mesmo. Ela desapareceu no tempo mais do que no espaço! Deus do céu, num segundo! Uma fé que insiste exagerada... Ainda espero revê-la em outros ares, em outras bocas. Talvez, como a minha, já roucas.

Amei desesperadamente.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Teu Leite.

"E a mulher amada, de quem eu já sorvera o leite,
me deu de beber a água com que havia lavado sua blusa."

Chico Buarque - Budapeste

Corpos inseguros
Estranhas ilhas
Na epiderme da terra
Onde somos imensos
Pequenos lapsos intensos
Revelam
Meu corpo árido
Estranho
Ilha insegura
Fruto de guerras
E te(n)sões
Tua boca ávida
Chupa
E semeia
Num gesto perfeito
Nosso cotinente-ilha
Inteiro
Revelo teu corpo ártico
Incontinente bebo
Teu leite
Lavo teus olhos
Friezas ásperas
Me arrastam
Pelas águas atlânticas
Nossas ilhas se chocam
E submergem
Sonâmbulas

Para além do eldorado
Terras em transe
E em transe(a) perfeito(a)
Eu te traço
Curvas
Nas águas turvas
Nossa ilha revela
Escombros de nós
Vícios de guerra
E espólios
Do chão de mundo
Em que planto
Teu leite
E onde nascem meus olhos
Nesse continente-ilha
Meu corpo úmido
E cálido
Submerge
Entre crônicas ácidas
História incerta
Nossas ilhas se afastam
Gélidas
E catatônicas
Teu doce dissolve
Em minha boca
Aberta

domingo, 6 de junho de 2010

O Corte.

Pior do que o pior episódio
Perdi a prosódia
Fiquei perplexo
Mas fui tímido
Assistir TV

Pior do que o pior espelho
Fiquei paspalho
Perdi o reflexo
E num átimo
Deixei você

***

O homem-estação eu
Trabalho sem recesso
Vou amargando distâncias imensas
Não rio não converso

Apenas peço licença pro tempo
Eu sou eu era eu vou
Reescrevendo o adeus silencioso
Para os que alçaram vôo

Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

Seguidores...

Sobre a dúvida...

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

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