domingo, 30 de maio de 2010

A Morte e o Sexo.

O sexo da gente se estranhando,
Se apertando, se magoando, se mordendo.
O sexo da gente se matando,
Que se matando a gente vai vivendo.

Enquanto vive a gente não se entrega.
E se ferindo a gente chega ao gozo.
E tropeçando a gente lambe o fosso.
E pelo avesso, a morte é o puro sexo...

Eu meto, eu gemo, eu bato, eu grito, eu fodo!
E te fodendo eu me perco da estrada.
E enlouquecido eu me esqueço do corpo...

sábado, 22 de maio de 2010

O Processo.

Entrando pela saída
Na contramão do processo
De um parto, o oposto e o reverso
Um passo e um salto pra trás

O gozo que molha o falo
O sangue que cai do feto
A morte é o caminho certo
Da água, a fonte e o ralo

Da casa, a porta e a janela
De Deus, o fim e o começo
A abrangência esvaziada
De um sonho sem endereço

Entrando pela saída
Caindo na ratoeira
O tempo só é medida
Do sono existencial...

sábado, 8 de maio de 2010

Visão Periférica...

E ela olhava, e olhava, e olhava... Obstinadamente. Quem sabe jogasse um solitário jogo, buscando vencer a distração e o cansaço... Tinha nesse instante uma expressão nublada, talvez apática, da qual seus olhos pesados sobressaltavam por um lacrimejo excessivo. Perturbava-lhe a balbúrdia em sua visão periférica, enquanto o pensamento, imaterial e genioso, escapulia, subvertia, evaporava... Multiplicava o mundo em outras possibilidades, coroando e destronando intensos reis: o amor, a arte, o visceral, o sensual. E então ela não tinha limites, ela não tinha medo afora de si mesma, pois absorta em anomia a moça adiava a míngua do gozo, a urgência pelo significado que se desprendera nas passagens: da vontade para o toque, do pensamento para a linguagem, do sentimento para a atitude...

Pois foi que, de repente, naquele olhar, alguma revolução de sentidos estourou na cara dela, e desde então desvaneceu, murchou, e já não é tão bela quanto ontem, tão simples como outrora. Uma vida roubada. Seus olhos avermelharam, correu em disparada com as mãos premidas no cordão do tempo, sujou-se de poeira cósmica, dançou em giros, cruzou paredes; caiu diante de mim. Fiquei demente, catatônico, e bem quis tocá-la, mas não soube como.

O que sei é que entre o sonho e a realidade existe apenas um cinismo...
Que grande cinismo.

Trava-Língua.

O mundo é um trava-língua:

Ou você se entrega.
Ou você se integra.

E de uma lista de verbos razoáveis:
Conseguir, suportar, querer, aceitar...
Por um problema na distância entre os nós
desse trançado a que chamamos "nós",
ou pela obscena intransigência entre
a comunicação, o sentimento, a lucidez,
eu prefiro não elencar verbo algum,
eu prefiro não condicionar a sentença...
Então deixo a lacuna, que resta agora
como o desdobramento de um monólogo inconcluso.
Como um estranhamento, um desapego,
uma cegueira.
Uma questão impossível para o "eu"
e para o "outro".

Mas onde vão as palavras urgentes?
Estão socadas dentro de um reboco
que só o silêncio cirscuncreve e ocupa,
evitando alguma queda desastrosa
no fosso da linguagem
e da loucura...

E logo surge o espaço do absurdo,
que só se nota no revés do espelho
na minha cara, no meu signo, no meu último
palpite sobre a palavra certa.

E no reflexo que expõe a casca
Ocorre um "eu"-não-"eu", um desencontro.
Uma cenografia,
um cobertor,
um escafandro...
Um perfeito David, ma chi non parla.

E se falasse não diria nada
Pois nada explica essa interrogação,
E junto dela o significante
Na obstinada e onerosa espera
Da nave virtual e pós-moderna
Que poderia dar algum recado
Sobre um suposto significado:

Eu não ____________ me integrar.

Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

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Sobre a dúvida...

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

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