sábado, 13 de fevereiro de 2010

Gauche.

Todos os dias era tudo igual, mas em desarmonia com as cores havia, entretanto, um sujeito: era aquele sentado no banco, o que trajava camisa social azul-marinho, com gola amarfanhada e dois botões abertos (- Isso, é aquele mesmo!). Aquele conseguia ser inteiramente gauche, e o fazia em tão minúsculos e estranhos detalhes que nem mesmo a rotina da rotina cuidava de solapar seus vícios. Ele insistia com doutores sobre os perigos que corria em seu cotidiano, e atinava em um pálido assunto de que “para morrer basta estar vivo”. E todos os especialistas lhe prometiam, então, a cura para a gauchitude... Mas ela nunca veio. Em nada resultava este esforço, e a hipocondria se somava aos seus outros pesares. Ele sabia que sabia andar, mas caso pensasse no mecanismo que lhe movia as pernas, o pobre era capaz de empacar na calçada sem que houvesse remédio. No campo afetivo e de relações, ele jamais se acostumou aos beijos e carinhos de sua amada, sempre sentindo o coração palpitar, a barriga doer e o joelho afrouxar... Que triste figura. Trabalhava todos os dias pensando em fugir da cidade ao fim do expediente, e cria sempre estar próximo da saturação, do limite e da curva.



Precavido que sempre fora, o homem não soltava da bolsa de pano em que guardava alguns gêneros (com a validade já vencida), ansiando por sua inadiável partida sem destino. Não lia livros até o fim devido à angústia de saber que existem outros na estante, e que podem ser melhores, e que não era razoável se aplicar e se conter naquele único. E pensava ainda que, além dos livros, existem as músicas, os filmes, o sexo... E que cada segundo mais próximo da morte evoca uma centena de possibilidades gauches de vivê-lo... Nunca pôde tocar violão, porque maldita era a presença do piano e errante era a beleza do oboé. Aquele indivíduo sentia todos os dias o mesmo pavor de que os ônibus da avenida transversal lhe esmagassem os planos, e mesmo que sempre atravessasse em perigo, e mesmo que um carro lhe cortasse, vez em quando, um fino de vento, um triz... E mesmo assim nunca pensou em alterar sua rota. E a cada xixi ele sentia imenso medo de molhar as bordas do urinol, e lavava a mão duas vezes seguidas, e se secava com 3 folhas de papel, embalando a mão direita numa outra folha que lhe evitasse o contato da torneira, e, por fim, numa última folha que escondesse a maçaneta da porta do banheiro público.



E foi que hoje, pela manhã, eu procurei por ele na rua e no banco, porém ouvi comentários de que viajou no fim da tarde de ontem... Dizem que foi para Aracaju viver de “vamos-ver-o-quê”. Mas sei que, a qualquer hora, o desassossego vai lhe bater à porta levando consigo o fantasma do ser gauche, e logo mais o jovem sisudo vai querer de volta o expediente, o violão, a mulher amada, os ônibus da transversal...

0 comentários :

Manifeste-se!


Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

Seguidores...

Sobre a dúvida...

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

  © Blogger templates The Professional Template by Ourblogtemplates.com 2008

Back to TOP