terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Gaia.

Num disparo de cavalos forros eu me desfiz em mil sementes, e foi que tudo começou: um rasgo de liberdade, um relógio destruído, um cigarro. E antes mesmo do primeiro sono e do primeiro sonho de amor, a jovem Gaia gemia de algum prazer (ou dor?), e gemia, e gemia... E o seu transe derramou na grama a primeira letra do primeiro verso da primeira estrofe do primeiro lamento da primeira saudade.



E logo veio a primeira morte, quando eu, ainda menino, senti o toque demente da paixão me seqüelar a espinha. Caí de mil falésias, tensionei as supercordas do universo e carreguei nas unhas o concreto da primeira grande torre, ao primeiro meio-dia.



Mais tarde eu quis engendrar duas máquinas: uma de sorrir e a outra de chorar. Diverti-me em colorir a palidez dos primeiros homens, botando-lhes na cara as primeiras expressões e, junto delas, as primeiras dúvidas.



E na primeira meia-noite do meu primeiro desejo, eu buscava, me esgueirando no horizonte, as primeiras experiências físicas e metafísicas de alteridade. À semelhança do relógio, os meus olhos funcionavam mal, quem sabe por adianto ao primeiro clarão da primeira luz que lhes traria a vida. Eu esticava com veemência as pontas dos dedos, mas não pude encontrar a bem-amada, eu não pude...



Foi ali o primeiro frio...
E o primeiro horror.

0 comentários :

Manifeste-se!


Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

Seguidores...

Sobre a dúvida...

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

  © Blogger templates The Professional Template by Ourblogtemplates.com 2008

Back to TOP