terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Clara.

Quando Clara chegou eu já estava lá. E é como melhor posso dizer da sensação que tive ao ver as leituras e expressões menores invadidas e saqueadas por ela. Há tempos imemoriais eu era o mesmo todo, complexo e conciso, determinado e determinista, e, sobretudo, vasto. Percebo agora que Clara, desde a manhã na qual se fez concreta, foi como a morte em me tocar sem pedir licença, desordenando os elementos que, coesos, me desenhavam os sonhos diante dos olhos e a vida diante das mãos. Nada restou de matéria minha que não ruísse aos seus trancos, seu dom de interromper o que antes era fato, fazer das horas metáforas, e reviver Platão.



Eis que num Dezembro, quando beijamo-nos enfim, perdi naquele beijo a chave da arca em que escondera intensos medos, imensas fantasias com que brincava em carnavais remotos. Perdi os olhos castos em que Clara nunca pôde olhar, porque, ao chegar, a ingenuidade repousava nua e envergonhada. Naquela cena a conheci profunda, porém muda. Creio não se saber o outro mais com frases do que com silêncios, e talvez aí mesmo, na ausência da voz, estejam causa e prova de minha loucura. E mais que o gênio de Clara parecesse transtornar o tempo e as aras, debrucei perplexo ao calendário de Dezembro, e era Dezembro, ainda Dezembro. Dezembro antes, e após também...

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Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

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"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

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