sábado, 13 de fevereiro de 2010

Agnose.

Deus,
Onde está
O Deus
Que melhore
A ânsia
Que me vem
Do estômago
E umedece
O esôfago
E amarga
A boca
E me deixa
Tonto
E me torna
Vil.

Onde mora o Deus?
Só quero saber
Se no escárnio teu
Se na minha morte
Se num DVD
Se no livro antigo
De um parnasiano
Se no olhar oblíquo
Da separação.

Só quero saber
Se esse Deus tem dó.
- Por que estou tão só
Nessa imensa várzea?
- Por que me atropelo
Nesse carnaval?
- Por que não sou elo
Preso no cordão?
Esse nó é frouxo
Nosso tempo é pó.

Só quero saber
Se ele me conhece
Se ele vem do sol
Se ele vem do mar
Se ele vai se rir
Quando eu me perder
Ou quando eu cantar
Ou quando eu falar
E ninguém ouvir:

Onde mora o Deus?

Gauche.

Todos os dias era tudo igual, mas em desarmonia com as cores havia, entretanto, um sujeito: era aquele sentado no banco, o que trajava camisa social azul-marinho, com gola amarfanhada e dois botões abertos (- Isso, é aquele mesmo!). Aquele conseguia ser inteiramente gauche, e o fazia em tão minúsculos e estranhos detalhes que nem mesmo a rotina da rotina cuidava de solapar seus vícios. Ele insistia com doutores sobre os perigos que corria em seu cotidiano, e atinava em um pálido assunto de que “para morrer basta estar vivo”. E todos os especialistas lhe prometiam, então, a cura para a gauchitude... Mas ela nunca veio. Em nada resultava este esforço, e a hipocondria se somava aos seus outros pesares. Ele sabia que sabia andar, mas caso pensasse no mecanismo que lhe movia as pernas, o pobre era capaz de empacar na calçada sem que houvesse remédio. No campo afetivo e de relações, ele jamais se acostumou aos beijos e carinhos de sua amada, sempre sentindo o coração palpitar, a barriga doer e o joelho afrouxar... Que triste figura. Trabalhava todos os dias pensando em fugir da cidade ao fim do expediente, e cria sempre estar próximo da saturação, do limite e da curva.



Precavido que sempre fora, o homem não soltava da bolsa de pano em que guardava alguns gêneros (com a validade já vencida), ansiando por sua inadiável partida sem destino. Não lia livros até o fim devido à angústia de saber que existem outros na estante, e que podem ser melhores, e que não era razoável se aplicar e se conter naquele único. E pensava ainda que, além dos livros, existem as músicas, os filmes, o sexo... E que cada segundo mais próximo da morte evoca uma centena de possibilidades gauches de vivê-lo... Nunca pôde tocar violão, porque maldita era a presença do piano e errante era a beleza do oboé. Aquele indivíduo sentia todos os dias o mesmo pavor de que os ônibus da avenida transversal lhe esmagassem os planos, e mesmo que sempre atravessasse em perigo, e mesmo que um carro lhe cortasse, vez em quando, um fino de vento, um triz... E mesmo assim nunca pensou em alterar sua rota. E a cada xixi ele sentia imenso medo de molhar as bordas do urinol, e lavava a mão duas vezes seguidas, e se secava com 3 folhas de papel, embalando a mão direita numa outra folha que lhe evitasse o contato da torneira, e, por fim, numa última folha que escondesse a maçaneta da porta do banheiro público.



E foi que hoje, pela manhã, eu procurei por ele na rua e no banco, porém ouvi comentários de que viajou no fim da tarde de ontem... Dizem que foi para Aracaju viver de “vamos-ver-o-quê”. Mas sei que, a qualquer hora, o desassossego vai lhe bater à porta levando consigo o fantasma do ser gauche, e logo mais o jovem sisudo vai querer de volta o expediente, o violão, a mulher amada, os ônibus da transversal...

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Poética (I) revisitada...

De manhã me deito
De dia durmo
De tarde acordo
De noite ardo.

A oeste a sorte
Contra quem vivo
Do sul lascivo
O afago e o corte.

Outros que contem
Nexo por nexo.
Eu surto ontem.

Faço amanhã
Morro onde há espaço:
- Meu tempo é nunca.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Pasárgada revisitada...

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do Bandeira
Aqui não tenho eira nem beira
Aqui não é o meu lugar

Vou-me embora pra Pasárgada
Gastar o meu pé-de-meia
Vou beber Iced Coffee
Lá não existe puta feia
(Manuel que me falou...)

Nunca mais farei ginástica
Andarei de pernas bambas
Cairei de burro brabo
Fugirei do pau-de-sebo
Beberei água do mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do asfalto
E desperto sem relógio
Sem carteira
E celular

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem regras muito bem feitas
Pra evitar a exceção
Tem musas para os artistas
Vodka com preço baixo
E um monte de cantinhos
Que é pra gente fornicar

Vou-me embora pra Pasárgada
Já que em mais lugar algum
Vou achar tantos amigos
Vou tomar chá de sumiço
Vou perder o meu juízo
Vou esquecer de onde eu vim

Vou-me embora pra Pasárgada

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Clara.

Quando Clara chegou eu já estava lá. E é como melhor posso dizer da sensação que tive ao ver as leituras e expressões menores invadidas e saqueadas por ela. Há tempos imemoriais eu era o mesmo todo, complexo e conciso, determinado e determinista, e, sobretudo, vasto. Percebo agora que Clara, desde a manhã na qual se fez concreta, foi como a morte em me tocar sem pedir licença, desordenando os elementos que, coesos, me desenhavam os sonhos diante dos olhos e a vida diante das mãos. Nada restou de matéria minha que não ruísse aos seus trancos, seu dom de interromper o que antes era fato, fazer das horas metáforas, e reviver Platão.



Eis que num Dezembro, quando beijamo-nos enfim, perdi naquele beijo a chave da arca em que escondera intensos medos, imensas fantasias com que brincava em carnavais remotos. Perdi os olhos castos em que Clara nunca pôde olhar, porque, ao chegar, a ingenuidade repousava nua e envergonhada. Naquela cena a conheci profunda, porém muda. Creio não se saber o outro mais com frases do que com silêncios, e talvez aí mesmo, na ausência da voz, estejam causa e prova de minha loucura. E mais que o gênio de Clara parecesse transtornar o tempo e as aras, debrucei perplexo ao calendário de Dezembro, e era Dezembro, ainda Dezembro. Dezembro antes, e após também...

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Até o pó.

O fim da rua... O fim da rua.
Não vem ninguém.
Estico as mangas, timidamente,
Porque é verão.
( - E esta mania de usar mangas compridas)
Não vem ninguém.
Mais um café, por favor,
Um expresso.
Com ¾ de angústia
E um quê de saudade.
Eu vigio a vida, gole a gole,
Curioso até o pó.
E este filme démodé
Que frequenta a sessão da tarde.
Mas já vi, eu já sei,
Não vem ninguém.
Às vezes cochilo, às vezes sorrio.
Mas chato mesmo é fazer o bigode
(- maldito bigode.)
Que cresce feito erva daninha.
Feito a misantropia
Que me levou o amor.
Ontem não foi diferente:
Não veio ninguém.
E já são 16:36, o dia se esgota,
Num fim de rua mais ou menos
Distante
Onde os meus olhos capturam, em película,
A fumaça do café, ou do cigarro,
Tudo parece me lembrar que a morte
É um curta-metragem inexorável.
Este café gelando... E o que me importa?
Nunca será tão gelado quanto a espera.
Ou quanto a minha boca.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A Ninfa e o Sátiro.

Estrangulados num cinturão de hipóteses, a Ninfa e o Sátiro não souberam aproximar-se na medida exata: logo viram fundir seus corpos numa densa e indivisível massa, como da colisão de dois ímãs inconseqüentes. A boca da Ninfa era tão molhada de prazer e de suor que o Sátiro, incauto, quis nela beber todas as coisas da vida, e provou de uma loucura indescritível. Ele ambicionou lamber e morder a anatomia completa de sua cativa, e tão completamente a quis que nem mesmo a iminência do fim já lhe metia medo. Refestelava-se ansiosamente na pele da Ninfa jovem, e não sabia onde pôr as mãos; nem onde pôr os olhos. A Ninfa rogava que o ar lhe faltasse por mais um minuto, e que o peso em seus braços pendesse ainda mais, e que a língua em sua língua roçasse ainda mais... E o Sátiro se entregava em carinhos e pequenos delitos nas coxas, nos seios da moça, melando-se inteiro em seu corpo de tinta e de óleos. Ela expulsava a voz fremente e rouca em calados gemidos de gozo e de amor, que apareciam quando o sopro quente do Sátiro vinha visitar-lhe a dobra do pescoço...



E numa hora inexata deu-se o fim, é certo. Tão molhados de prazer e de suor, a Ninfa e o Sátiro...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Gaia.

Num disparo de cavalos forros eu me desfiz em mil sementes, e foi que tudo começou: um rasgo de liberdade, um relógio destruído, um cigarro. E antes mesmo do primeiro sono e do primeiro sonho de amor, a jovem Gaia gemia de algum prazer (ou dor?), e gemia, e gemia... E o seu transe derramou na grama a primeira letra do primeiro verso da primeira estrofe do primeiro lamento da primeira saudade.



E logo veio a primeira morte, quando eu, ainda menino, senti o toque demente da paixão me seqüelar a espinha. Caí de mil falésias, tensionei as supercordas do universo e carreguei nas unhas o concreto da primeira grande torre, ao primeiro meio-dia.



Mais tarde eu quis engendrar duas máquinas: uma de sorrir e a outra de chorar. Diverti-me em colorir a palidez dos primeiros homens, botando-lhes na cara as primeiras expressões e, junto delas, as primeiras dúvidas.



E na primeira meia-noite do meu primeiro desejo, eu buscava, me esgueirando no horizonte, as primeiras experiências físicas e metafísicas de alteridade. À semelhança do relógio, os meus olhos funcionavam mal, quem sabe por adianto ao primeiro clarão da primeira luz que lhes traria a vida. Eu esticava com veemência as pontas dos dedos, mas não pude encontrar a bem-amada, eu não pude...



Foi ali o primeiro frio...
E o primeiro horror.

Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

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Sobre a dúvida...

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

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