quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Arena.

Desejo
O grito no teatro de arena
Ninguém ouve... Platéia
Ausente
Houve apenas a voz do ator
Buscando voar
Fogo! Fogo nos olhos
Fogo nas mãos
Chuva de fogos estrelados
E de granizos-estrela
O corpo-ebulição... Deixa queimar
Deixa-me ver o que tem na tua alma
Deixa, pelo amor de nós
Que ainda se ouve ao longe (houve?)
Talvez... Não sei de onde
Essa água que inunda o meu cenário
Se faz além da métrica
Além da lírica presença
A vejo adensar, se me deito
É um dilúvio de dilemas
Uma ansiedade aterradora
Que é muito maior do que o céu
Mas cabe no meu peito
O teatro me acompanha
Percorro as suas fileiras
Em ritmo crescente
Faço curvas, me perco
Quero que entendam o meu papel
Porque preciso entendê-lo
Nunca sei onde estou: sonho? Mundo?
Crucifixos de cabelo, mãos sujas de sangue
Tudo vejo e nada me vê
Veja-me, pelo amor de nós
É deserto o tempo da vida
É gelado o meu caminho... Ponha-se fogo!
Fogo nos olhos
Fogo nas mãos
Chuva de fogos estrelados
Eu quero viver
Pra ver o circo em chamas
Eu quero saber o que tem na tua alma
Então deixa
Que seja feita a nossa vontade
Deixa a vida desabar... Com pressa
Ou com calma
Deixa queimar.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Recusa à Domme (ou o limite do consentimento).

E vem a loucura me açoitar de novo
Com a chibata infectada pela dúvida
E vem me amar à noite, e nós, nus
Sobre os paralelepípedos da rua
Nos descobrimos sós
Ela me aplica choques elétricos
Me enfiando eletrodos nos buracos
Do corpo
Nos ouvidos, no nariz, na boca, no cu
Desatando lentamente os fios da vida
Que costuram os meus órgãos
O meu peito, as minhas costelas
Conectam os meus pulsos
Firmam meus antebraços
Aos braços
Pouco reclamo, minha linguagem não é digna
Pela manhã ela me curra, aguento imóvel
Porque ela ameaça entregar minha tutela
À normalidade
E durante a madrugada me visita, trajando branco
Me arrasta pelas ruas sem sentido
Me expõe a situações imundas
Me enche de cigarros
Me empresta os livros e me faz interrompê-los
No prefácio
É ciumenta, confusa demais
Quer que eu repita palavras positivas
Quer me vender um plano de alegria
Quer que eu goze quando ela me estupra
Quer que eu ostente orgulho em ser poeta
Mas deseja, no fundo, que eu conteste o seu domínio
Pra que ela me ganhe num conflito iminente
E insufle ainda mais
O seu ego escroto
Enquanto eu, ao contrário, não respondo
Não reajo
Permaneço impassível
Mantenho a porta do quarto aberta
Deixo o meu corpo disponível
Como uma aranha capturada
Num pote de criança
Ela brinca de arrancar, uma a uma
Minhas oito patas
Não luto, nem poderia lutar
Porque nossas forças são incomparáveis
E ela pode, se quiser, apartar meus membros
Cortar meus cabelos
Cegar meus olhos
Porém, caso me mate, perderá a presa que lhe entretém o ócio
E enquanto houver vida pulsando nas partes que sobram
Da aranha-eu
Haverá algo de imaterial, algo de etéreo
Algo de mais-que-fluido
Uma coisa aderida ao passado e ao futuro
Que não se deteriora nas mãos dela
Onde ela, aliás, nem é capaz de pôr as mãos
A coisa que é indelével, e que por isso
Ainda confirma a existência de vida
Entre os abusos de poder da loucura
E toda a hipocrisia pervertida
Da normalidade
E da razão.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Sociedade Secreta

Minha cama é cada vez mais larga
Minha calma, mais estreita
Sobram espaços de tecido ao redor
Remendados em mim pelo vazio
Da ausência... Nos recessos de nós dois
Habito apenas eu, artífice
Artista de uma obra interminável
E indeterminável
De desejo

Meus braços, vazios, não se acham
Inteiros
Resgato entre as dobras do lençol
Fragmentos de poesia esquecidos
Na cama... Aos pedaços
Reúno esses momentos de versos perdidos
Congrego em mim um altar de silêncios
Ingresso no átrio dos sentidos
O impulso de existir me evoca
E eu
Atendo ao seu chamado

Fundo uma seita voltada para algo
Onde nós somos os membros únicos
E aceitamo-nos num rito literário
De sutis gestos intensos
Abraços reveladores
E inesperadas completudes, que surgem
Diante dos nossos olhos

Descobrimos a verdade? Será ela?
Posso senti-la brotando no meu rosto
Está aqui, na sociedade secreta
Que nós já forjamos aos poucos
Sem regras, sem dogmas, sem guia
Onde a pedra do sacrifício é o meu quarto
E onde se vive com afinco os dias sagrados
E as noites de culto e devoção
Às letras
Aos sonhos
E ao corpo.

domingo, 14 de novembro de 2010

Confissão (ou a espera de um Deus ex machina).

Já senti coisas tão intensas que, hoje, tenho medo de não senti-las novamente, bem como tenho medo de senti-las e, assim, criar novos entes de “para sempre” dentro de mim, novos amigos imaginários para a minha esquizofrenia literária. Essa cabeça de poeta me faz refém das histórias que protagonizo, reais ou inventadas, e fica cada vez mais difícil viver por viver, preencher os dias, mecanizar a rotina, orbitar numa certa “superficialidade” (nem sei bem o que chamar de superficial). Eu sei que fui (ou, quem sabe, ainda seja) plenamente capaz de perder o tino por paixão, e, às vezes, por amor: à poesia, à música, a uma mulher... Entretanto, essa pulsão de morte do sentimento é potência ambígua, que tem o ímpeto de construir os sonhos e os argumentos, de nortear o futuro, mas tem também o capricho de quebrar a linha de continuidade da vida, de fixar algum tempo, alguma cena, alguma palavra, algum olhar, enfim... Alguma “marca de Caim” que se autoproclama parâmetro para todas as outras possibilidades de sentir, e daí, como eu já disse, fica difícil viver por viver. Essas histórias são inquestionáveis, são muito mais fortes do que o meu presente, e quando caminho pela rua, em muitos lugares, e leio certas coisas, e ouço outras, não estou apto a escrever novas estrofes a partir de então, mas apenas retorno às mesmas do costume, como um faminto catando migalhas de algum prazer já não vigorante, mas que, aos trancos e barrancos, é o que ainda alimenta.

Temo, por fim, que a minha alma permaneça aprisionada nos seis anos passados, enquanto o meu corpo vaga, por aí, irresoluto e desconexo, passivo de uma gama de sentidos. Não duvido. Se fui capaz de me prender a uma única noite por quase três anos, criando sobre ela uma constelação de imagens, cheiros, poemas e fantasmas... Criando sobre tal noite uma paixão imensa e covarde, sim, covarde porque a ausência é incombatível (e é por isso que os mortos adquirem perfeição instantânea). Se fui capaz disso, sou capaz de qualquer absurdo congênere, sou capaz de enxergar por todo o Rio de Janeiro um martírio de placas de neon que piscam na minha cara apontando caminhos, uma sinestesia de referências que sempre me façam lembrar destes anos...

O passado - este signo que é o passado - é implacável, inalienável, incorrigível. É o modelo mais covarde, mais até do que o futuro: ausência viva...

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Silêncio.

Eu vejo a estação
Minh'alma se reparte entre os vagões
A Poesia me leva
E me lava
Você, apenas lá
Existe implícita
Seu olhar me apanha
Nesse lugar onde o tempo
Não passa
Não há nada, não há ninguém
Apenas você que me encontra
Que me salva do silêncio
Que, na madrugada sem chuva, espera
Próxima ao meu destino
O trem da vida
Quando nós, à beira dos trilhos,
Fundimos os desejos
E inclinamos as cabeças, juntos,
Na exata direção
Do infinito.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Haja Kandahar

Se Kandahar for mais quente
Do que o meu quarto
Não me importo, lá nunca estive
Kandahar é breve para mim
Vista de longe, feita aos cacos
Vai se afirmando mais extensa
E há de ser plena de palavras
Que nunca deixam de estar novas
Mesmo que prostituidamente
E sem afeto
Sejam usadas
Há de ser o que eu quiser que seja
E por isso amo Kandahar
Porque não amo a Lapa, chão onde piso
Braço de vida onde se acaba a catarse
Com muita ressaca
E pouco cortejo
Amo mesmo aquela esperança malograda
Aquele beijo em suspenso
Aquele lugar, aquele ideal
Aquela paragem ao norte
Que, virgem da minha estada,
Multiplica-se de nomes
Amo mais a amante ausente
Em cada mulher transeunte
De cada segundo seguinte
E cada resposta que não sei
Dizer
O destino nos confunde, sempre
Espero que não me leve à Kandahar
Onde não quero pisar hoje
Aliás, nunca
Porque prefiro fecundá-la aos poucos
Vivê-la aos solilóquios
Enchê-la de tudo o que é desejo
Com a utopia de encarnar o super-homem
De Nietzsche, ou dos quadrinhos
Porque ao contrário do que dizem
Aqueles que não se julgam loucos
Se realmente existe um cais
Se houver Kandahar
O paraíso são os outros.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Adversidade

Vós                                      Nós
Sois                Mas               Somos
Sóis                                     Sombras

Paragens.

Vida
Estaleiro de sonhos
Fábrica de passados
Onde vão se apertando absurdos
Com chave inglesa
Escudos de metal pesado escodem
Os pulmões obtusos
Por cigarros
Entre as paragens do meu corpo
Demoram quaisquer certezas
E a cerveja que se bebe, sem gosto,
É hesitante
O futuro que se espera sem remédio... Hesitante
E toda a mecânica das pernas
Caminhantes sós, e só
Pela metade
Porque triste mesmo é este canteiro de obras
É claro, inacabadas
Onde se cobra trabalho inútil
Onde se arrasta uma alma-jato
Bem maior
Do que sua fuselagem.

Los Amorosos (do poeta mexicano Jaime Sabines)


Los amorosos callan.
El amor es el silencio más fino,
el más tembloroso, el más insoportable.
Los amorosos buscan,
los amorosos son los que abandonan,
son los que cambian, los que olvidan.
Su corazón les dice que nunca han de encontrar,
no encuentran, buscan.

Los amorosos andan como locos
porque están solos, solos, solos,
entregándose, dándose a cada rato,
llorando porque no salvan al amor.
Les preocupa el amor. Los amorosos
viven al día, no pueden hacer más, no saben.
Siempre se están yendo, siempre,
hacia alguna parte.
Esperan,
no esperan nada, pero esperan.
Saben que nunca han de encontrar.
El amor es la prórroga perpetua,
siempre el paso siguiente, el otro, el otro.
Los amorosos son los insaciables,
los que siempre ¡qué bueno! han de estar solos.

Los amorosos son la hidra del cuento.
Tienen serpientes en lugar de brazos.
Las venas del cuello se les hinchan
también como serpientes para asfixiarlos.
Los amorosos no pueden dormir
porque si se duermen se los comen los gusanos.

En la obscuridad abren los ojos
y les cae en ellos el espanto.

Encuentran alacranes bajo la sábana
y su cama flota como sobre un lago.

Los amorosos son locos,
sólo locos, sin Dios y sin diablo.

Los amorosos salen de sus cuevas
temblorosos, hambrientos,
a cazar fantasmas.
Se ríen de las gentes que lo saben todo,
de las que aman a perpetuidad, verídicamente,
de las que creen en el amor como en una lámpara
de inagotable aceite.

Los amorosos juegan a coger el agua,
a tatuar el humo, a no irse.
Juegan el largo, el triste juego del amor.
Nadie ha de resignarse.
Dicen que nadie ha de resignarse.
Los amorosos se avergüenzan de toda conformación.

Vacíos, pero vacíos de una a otra costilla,
la muerte les fermenta detrás de los ojos,
y ellos caminan, lloran hasta la madrugada
en que trenes y gallos se despiden dolorosamente.

Les llega a veces un olor a tierra recién nacida,
a mujeres que duermen con la mano en el sexo,
complacidas,
a arroyos de agua tierna y a cocinas.

Los amorosos se ponen a cantar entre labios
una canción no aprendida.
Y se van llorando, llorando la hermosa vida.

* Foto: tela "Os Amantes", de René Magritte (1928).

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

7 transas, 4 tatuagens e 2 poetas.

Quero nascer o meu poema da pele dela
E nela escrevê-lo
Como quem arranca a essência
Vou expô-la sem piedade
Ao meu domínio
Nos seus olhos que me dizem coisas
Eu submerjo, imanado com força
Gozando em cada tatuagem
Uma estrofe de volúpia
Sucumbido em beijos
Adstringentes
Ardentes por seu cheiro imbuído
Em minha cama, em minhas roupas
Num poema que verte aos poucos
Da ponta de uma língua que lambe
Desesperadamente
Aquele corpo
Onde eu meto, eu falo, eu sinto
E me faço tatuar
Nos seios dela, no pescoço
Nos olhos
Nos versos que ela expulsa no papel
Por mim amassado
Enquanto nós
Com as pernas trôpegas
Nos queimamos sem limite
E sem retorno
Na babel desse desejo
Vasto
E rouco

domingo, 7 de novembro de 2010

Somas.


Ela voltou-se em minha direção, seus olhos expunham medos maiores que os espigões do centro da cidade, lugar que entrou para o hábito da memória recente. Mergulhado num “ser poeta”, eu vi nestes olhos de mulher a minha infância refletida, a imagem que guardo gratuitamente de um "eu criança" descendo as escadas do hall no Pedro II, ao meio-dia, tão cheio de expectativas breves e fáceis de se cumprir, bem como de se esquecer, porque agora não causam mais nenhum tipo de diferença. De repente essa infância, imbuída nesses olhos, se agarrou aos muitos poemas que li e escrevi mais tarde, e ao mar de Copacabana de uns 9 anos atrás, quando eu passeava ao lado do meu pai, na madrugada, só pra ocupar o tempo de uma relação que era mais pautada na beleza do mundo visto do que na tentativa de se entender e enxergar um ao outro. Essa Copacabana perdida tinha, pra nós, o papel que a televisão costuma desempenhar num contexto menos romântico.

Acho estranho que o meu passado exaspere o meu futuro, sempre espelhando nessas velhas cenas a vontade de consumar com intensidade o presente, mostrando pra mim o imperativo de despedidas que há na vida, na mudança, e nessa coisa mutante que sempre fui eu, assim, que hoje sou algum, amanhã não sei... Eu que vejo tantas coisas em olhos, e tanta arte na cidade do Rio de Janeiro, imagens que não saem de mim, e que fazem sinestesia com as palavras que mais uso, as músicas de cada fase, e os cheiros que me fixam... Sempre sinto alguma coisa quando passo pelo Aterro do Flamengo, em frente ao MAM, e certas vezes, dada a inspiração, até me nasce um poema. Essa coisa que sinto é um pedaço de drama, que é bom, mas dói, simplesmente porque drama, por ser apenas o que é.

Enquanto ela ainda me olhava de perto nossos “eus” jamais estiveram distantes, porque quando nos materializávamos na presença de corpos que se colavam um ao outro mentíamos felizes sobre a possibilidade de não existir sozinhos, cada qual com seus desígnios. Pouco depois de não sei quando, já cansada de me fitar, ela abriu um livro; tive inveja do livro, queria sê-lo pra que ela pudesse me ler, pra que pudesse imiscuir em seu pensamento essa minha vida que não sai de mim, essa bagagem que não há como dividir com ninguém, e que eu intento jogar pela janela junto a toda a capacidade absurda de amar que sempre ostentei sem pedir, e que por aquela tal bagagem é a única responsável direta. De repente, nessa hora, livre de mim mesmo, eu veria os olhos dela apenas como olhos, com sua cor banal de íris que tantos outros olhos têm igual no mundo.

E tal como nos olhos dela salta o meu amor inteiro, somado desde sempre, o cotidiano dos dias remete, em sua pura normalidade, a um turbilhão de poesias e imagens que brotam de tudo e de lugar nenhum. Quando passeio, hoje, pela orla de Copacabana, lembro-me do meu pai, com seus vícios de poeta desnorteado que tanto me constituíram sem querer; lembro-me dos versos à beira do mar, em dias e noites diversos, alguns recentes, e das putas que conheci pelo nome, que me apertavam as bochechas e sorriam, seminuas... De assalto, lembro-me dos olhos dela vidrada em minhas histórias, afoita em me ver por dentro, e do quanto isso me fazia querer falar sem parar, afim de me transcrever, como é de lei na história do amor, a qual, segundo Vinícius de Moraes, é a própria história da vida.

Entretanto, falta um porém: de todos os lugares de onde tiro poemas, tiro tristeza. Tento ser condescendente a ambos os sentimentos, mas não sei qual deles me ganha, e nem sei, afinal, se duelam ou se conspiram por mim. Pareço ser feito de somas, e não imagino onde essa conta ainda vai me levar...

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Sem Saída.

Solidão: solilóquio satírico
Sobrevida sórdida
Cinismo cíclico
Na seara do sutil
Já não me sinto mais
Somente suponho
Surreais certezas
Que, aos solavancos,
Seguro comigo

E seccionado de si
Insípido sigo
Sequestrado e seco
Do suporte seu
Solapado num sopro
De sono e silêncio
Na soberba insanidade
De sanar essa sede
Que soçobra o sentido
Do sujeito
Eu

Situação insolúvel
Sentimento sombrio
Substância que sobra
Saudade suprema
Que salta em segredo
E eu saio do sério
E submerjo no sonho

Simplesmente sozinho
Terei de soerguer
Com severa sobriedade
O sobrepeso de ser

A sina
Será sofrível
Mas ainda que eu sucumba
Suado
E sem saída
Simularei sentimentos
Solares e serenos
No semblante

(E sabores súbitos
E adstringentes
Na saliva...)

Em Falso...

Encontro a lagoa, na Borges,
A noite me dói
Se a procuro refletida
E não vejo
Persigo o dia
Vou ao Flamengo, à Botafogo
O inferno chega em mim
Aos poucos

Como as folhas caídas do aterro
Quero o gosto, aquele
Aquela seiva de corpo
Aquele fluido vaginal
Aquele vício
A natureza me chama
Não sei de onde vem
Mas ouço

Na Urca, medito
Com os pés descalços
A Avenida Portugal me recebe
Lacônica
A vejo do outro lado
Num embaraço
De passos
Que me enlaçam

Quero tabaco, cachaça, sexo
E ócio
Quero gozar definitivamente
Não quero porra nenhuma, só quero
Que parem de me seguir a rota
Os epiléticos de Copacabana
Os felizes e os saciados

Das varandas
Trocam-se olhares suspeitos
Que a apontam perdida
Na Paissandu
Próximo ao Largo do Machado

É claro, vejo seu traço no céu,
Vou de encontro
Piso em falso
Sou outra coisa, menos gente
Sou nada

Sou triste demais
Tenho braços que me atrapalham
Que sobram
Que me nadam na baía,
Se penso que ela esteja
Na ponte
Prestes...

Eu
Ao dispor de pálidas armas
Amantes hipotéticas
Com seus gatilhos de veludo
Vermelho
Seus sexos tapados
Que de mansinho
Ou com vigor
Sempre me dizem
Não

Eu
sou eu que entendo John Lennon
Também amei Yoko Ono
Desde que vi seu “yes”
Sapiente
Rompante
Conclusivo

Romântico e destruído
Por nada
Em Laranjeiras eu caio
Exausto
Na Pinheiro Machado
A lua apaga, a vista embaça
Próximo ao viaduto
Não sei se o que ainda me prende
Me prende, de fato

O gerúndio processual e inconcluso
Acabou de acabar.
Ele que há tempos me adiava:
Não estou ficando louco
Agora
Eu
Já...

Neutralidade Inalcançável

O amor não dá trégua
O amor é meu
Ele vem de dentro pra fora
E pinta as coisas

Sou a vítima
Não posso fugir
Já tentei correr pela Hilário de Gouveia, até a praia
Ele vinha em mim, e comigo mergulhou
No mar... Não se afogou, viveu
Vive sempre
E comigo vê chegar mais um Outubro
Amargo
Lotado de ausências

Além da noite
Além do limite
É como o sinto... Esse amor
Além da estranheza de assistir seus vultos que passam
Nos ônibus, nos muros, que viram a esquina e, depois,
Desaparecem

Além do tempo de um telefonema,
Da enorme distância de um só bairro
Eu estou cansado, não quero mais
Não quero mais nada
Não quero morrer
Só quero uma neutralidade inalcançável
Um não ser visto

Quero tirar a fantasia da peça que nunca estreei
Quero deixar der ser poeta, de ser vivo, de ser homem
Desisto de ser inteiro, de ser intenso,
Pra ser pequeno... Pra existir só um pouquinho
Pra beber a cicuta do esquecimento
E me deitar no intervalo da mínima dor
Do mínimo movimento

Quero calar
Fumar o meu cigarro
Tomar o meu café
Os meus remédios
E ter o direito de ser triste e grogue
Tal e qual o amor se permite ser sempre amor
Inominável, impreenchível
Plasmado de uma efemeridade cruel
E sem tamanho

Quero terminar de murchar aos poucos, devagarinho
De esquecer os autores que li, de jogar tudo isso fora
Esses filmes, esses discos, esse violão que eu não toco
Essas lembranças da vida
Da escola
Do Largo da Segunda Feira
Esse amor que jorra
Em torrentes
E inunda o meu quarto
Os meus olhos
O meu nexo
O meu sexo
Tudo

Eu não quero eleger novos espaços de sentir
Não quero procurar uma boca em outras bocas
E nem um poema nas bocas e nos olhos alheios
A vida não é poesia, e isso já me faz a criança
Natimorta
Que precisa aprender a ser leve, vazia, inútil
Como um saco plástico solto ao vento
Rodando em giros...

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Noite Ávida.

Solidão muita
Escuridão a dentro
Escuridão há
Lá dentro
Nessa terça asséptica
Que me pesca
Eu mordo o anzol do silêncio

Por decisão urgente
Hoje
Eu preciso
Me embriagar de saliva
Na fonte
E bater nas curvas

Nas mãos há luvas
Cirúrgicas
Acadêmicas
Me isolando
Que rasgo e atiro
Lá fora
Contra a janela
Onde espero
Esfolar
Meus pelos
E abrir
Meus poros

Nessa terça estúpida
Plasmada de tesão
Sem uso
Que me implora a chupar seus seios
Até formigar a boca
Fazendo o corpo ser
Deixando marcas
Criando luas
Cálidas
Crescentes
Expostas

Além do vazio
No quarto
A vida inteira
Nua
Eu quero
Quero anular o que me impede
De ser inteiro
Com ela
E avivar a natureza morta
Excitando o concreto
No chão

Quero gozar nos prédios
Nos muros
Na cara dela
Chocar os paralelepípedos
Despir as ruas
Lamber os carros
Ungir suas coxas com porra
Fincar os dedos
Na noite
Nas ancas
E dominá-la
E comê-la sem mastigar
Com o pau com os olhos com as mãos
Com os versos
Arrastando a madrugada
Pelos fios dos postes
E dos cabelos
Emaranhados à noite
Arrepiada
E ávida
De suor
E sexo

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Lembranças, no âmbar, não ficam.

O ápeiron é agora:
meu sangue borbulhando na chaleira do corpo,
meus pés que vacilam na soleira da porta
querendo voltar.

Tudo se escora,
mas, equilíbrio, não!
Ao contrário:

Ápeiron,
como despolarização maior que o caos.
Lembranças no âmbar

não ficam.

Do lado de cá, minh'alma
que grita,
que em urticárias filtra a parte fogo
do elemento água...

Desejo:
a ambição humilhada,
desbaratada facilmente;
do poema impresso,
seu preço incorpóreo
e alto

(fragilidade concreta).

Pago pra ver,
não sei se resolve.
Conheço a temporalidade da matéria,

conheço o imperativo de ser.

Não tenho escape pra essa coisa
que, ora ápeiron, ontem palavra,

já foi tinta,
foi língua,
foi âmbar,
foi nada.

Espiral.

Não amo você
amava a Outra
aquela
a que escorreu da minha cama
adiantada
antes do fim das velas

Num continuum
persigo a besta do futuro
em curvas espirais
me dobrando
matava a Outra
não vi
não tive olhos
só perscrutava a bailarina em seu hall de espelhos
ainda menina
cadáver de sapatilhas
pisando nas vértebras
que foram
minhas
quando eu era...

Mas se removo a pele morta
das horas
se cria nova crosta
em pouco espaço
nada vejo
apenas você que emerge
abreviando
abreviada
exclamando interrogações
me enchendo de vírgulas
e me comendo
nas pausas.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Alto-falante.

Que coisa é essa que me fixa?
O que é que tem se eu quero arriscar?
Se penso ser alto-falante,
não me venha pôr no mudo.
Não me desplugue,
me permita.

Abre a represa e me deixa fluir
que eu posso ser mais leve do que a água.

O que é que tem nessa mordida ferina
que não desgarra?
Apaga esse sinal de mim!
Me expõe ao sol, me evapora,
me excreta, me ejeta!
Cessa de me prover à força, de me dar o peito,
de provocar monólogos...

Deixa-me embrutecer.

Botafogo às 14:00h

Caí da cama mais cedo
Oito e pouca
Pensei o dia inteiro
Intrigado... Até a fome chegar
E levar meu pensamento embora

Caiu a tarde nublada
Vicejando nas vagas consciências
Em trânsito
Caio eu, em nostalgia,
Em frente à praia
Tenho espasmos de pânico
O futuro machuca

Caiu a chuva que me molhará
Cai a ficha
Caem as máscaras deste mundo cão
Vacilante nas avenidas
Embatucado de infelicidades
Gente volúvel, maquiada
Autoiludida

Caio eu no velho projeto de silenciar meu lamento
E falho... Faço barulho, respiro
Mesmo parado.

Tento entender o moinho
Queria crer no amor
Como a potência que cria o movimento
Que expulsa a gente do colo da mãe
Pra inventar a saudade
Que faz Botafogo parecer mais bonito que o Méier

Um dia cometo uma loucura
Antes que a urgência pelo pão me amortize
Ainda me atiro a nado através da enseada
E vou distribuir abraços e poemas
De barco em barco

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Catabolismo.

A descoberta é domínio da desordem e explosão alienante de múltiplos estímulos caóticos proféticos virais lisérgicos na origem dos efeitos que em mim introjetam a potência furiosa de um grito perfeito que ecoa sem chão sem ar sem jeito e arranca a bateria do chip-consciência e me elege cobaia do botão reset que esse deus desprovido de consentimento bolinou quando tudo já estava acabado metendo um toque equivocado na espessura fresca da tinta que me consagra o eterno replicante e me pinta enganchado às asas depenadas de uma gangue de arcanjos-mensageiros-beatnik com suas auréolas depostas no balcão do bar e suas bençãos imanadas no útero da noite onde arrepia o pavor no qual se cria a coisa a qual almeja refundar o meu entendimento porque me obriga a ir dormir deixando a porta aberta a essa força que age impiedosamente soprando no nariz o pó da descoberta.

A Náusea.

Tenho notado que, em quase todos os textos e poemas de cunho reflexivo (ou seja, em quase todos os textos e poemas), eu confesso as mesmas coisas, e fico falando insistentemente sobre “náusea” e “condição humana”, de modo direto ou entre linhas. Acho que registro o que sei sobre mim pra tentar preservar alguma referência, frente ao próximo giro da Terra, o que me põe em xeque a paixão e o talento literário os quais eu sempre sonhei ter, porque se essa coisa, esse sentimento de que falo, parasse de me mortificar, eu nem imagino se escreveria uma única palavra a mais... Talvez eu simplesmente respirasse fundo e tirasse as mãos do teclado na hora, no ato. Não sei se escrevo por arte, mas com certeza é no texto que desconto o maldito sentimento. É o único fio de contato, o placebo que parece me impedir de ser um louco de tipo descontrolado. A necessidade é diferente da criatividade, em certa medida, porque elas se encontram mas não por isso são a mesma.

Isso não é, portanto, um poema, nem prosa poética... Nem mesmo literatura isso é. Escrevo porque preciso, publico porque me sinto menos só, ainda que ninguém leia. Acho que estou tentando sublimar o desespero: é que existe uma coisa, um sentimento que eu não sei nomear, o qual já não me era estranho e que agora voltou, de assalto, a atormentar minha sanidade. Esse sentimento se desdobra em diversas perturbações: vivo com ele a constante impressão de que cada momento razoavelmente confortável não está sendo consumado o bastante, e que após o seu efeito calmante a agonia voltará ainda maior (o que é empiricamente comprovado); vivo na paranóica expectativa de qualquer força ou acontecimento redentor, físico ou metafísico, que altere profundamente a estrutura da existência, quando, por sorte, eu passaria a me sentir achado.

Uma gastura, uma dor, uma ânsia, quase uma abstinência. Em certos momentos me faz pensar que é algo químico, mas não pode ser, porque não uso nada (afora umas cervejas e uns cigarros de vez em quando). É muito mais que solidão, que angústia, que medo, que pessimismo, que desencontro: é tudo isso num vômito só, enquanto, nos limites da percepção, eu sei que não é exatamente nenhum desses males, tanto que, para cada um deles, eu me sinto plenamente capaz de atribuir rótulos ímpares. É um pesadelo instaurado, institucionalizado, que não desaparece nem de olhos abertos. É insuportável, insustentável, não dorme, não pára, não dá um segundo de trégua, nunca, em hipótese alguma, e fica insinuando ser pior do que a morte, querendo me convencer de que ela seria a única saída para a “A Náusea”. Só que eu também não entendo a morte. Sou medroso, hedonista (na medida do condizente) e curioso demais pra isso. Tenho uma vontade quase autodestrutiva de ver aonde a Roda-Viva da condição humana vai me levar.

Esse tal sentimento me enfiou a alma num quarto branco e me fez desaprender o caminho de casa. Entre sorrisos, manhãs de aula, noites de farra ou de poemas, filmes, preocupações financeiras, conversas fiadas... Eu sou o nômade. Sou mutante e nem sei se quem muda sou eu, ainda que inconscientemente, ou se é o mundo que está em constante rotação por baixo dos meus pés, num movimento natural, porém medonho.

Sempre gostei de ser nômade em certas conjunturas, porque é inegavelmente prazeroso incursionar no diferente, percorrer caminhos, conhecer. Mas agora adquiro um asco e uma claustrofobia que crescem exponencialmente à vista desta situação insalubre, a de não optar, mas ser obrigado ao nomadismo. Permanecer condicionado a qualquer coisa é uma merda absurda, imoral, indescritível, uma bomba-relógio sempre em fins de contagem, agravada pelo fato de que a explosão metafórica é intensamente mais desconcertante do que a explosão literal, já que, no caso da primeira, a gente não sabe na prática como é que acontece essa coisa de explodir, nem qual o rearranjo ou o caos que podem surgir logo após o boom.

Tem-se, então, e a todo momento, uma verdadeira odisséia, o cansaço de vigiar, a tensão muscular e psíquica de quem não consegue chegar em casa, na acepção metafórica da frase mas na realidade absoluta do sentimento.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Ícone.

A atração, quando juntada, cria uma aderência sebosa
encrudescida no parapeito da janela,
onde debruça ela hoje a assistir ela ontem estendendo a mão a ela
amanhã,
nas andanças justapostas de várias gerações.

A fruição deste impulso organicista é tão violenta que arranca tudo de uma vez
e ameaça despir, desmontar a memória
como desmonta, após o sexo, a amante faminta:
então caótica, contemplativa,
outra mulher,
na acepção de um livro escrito do punho de quem não mais o reconhece.

(Mas há livro, há punho, e tudo isso é bom de haver).

Se o objeto só existe no confronto preto / branco,
pois que se ame vigorosamente o branco e o preto.

Viva a moralidade-do-pau-oco, que dá sua carne de comer aos parafílicos.
Viva a poesia asséptica de Olavo Bilac, seu antimagnetismo que brutaliza ainda mais o estupro sensorial de Murilo Mendes.

Viva a indiferença solapada no desejo,
e o corpo de mulher dessacralizado na antinomia do tempo, na moenda da metáfora,
na inteligência artificial da pós-modernidade e sua máquina depressiva, iconoclastizante e desterradora.

(Vejo na hóstia o teu mamilo).

Se o susto da alteridade bole teu sexo até a consciência,
historiciza esse pavor!
Transcende a estada em ti mesma, invade o álbum de retratos,
bole tua mãe, tua avó, tua tia,
todas elas em você tatuadas e assinaladas num mesmo nome ilegível,
rascunhado nos projetos de eu ontem, eu hoje, eu amanhã.

À vista da tua linha ancestral
percebo a força da natureza.
Tua sequência de vidas tem o cheiro do amaciante no uniforme, de chocolate, de macarrão com queijo, de richester superiore e rosquinha Mabel, de restos de rosas guardadas, dias inteiros no quarto, de café, de vinho branco, de expectativa, de lágrima, de cinema, de suor e saliva, de seda verão intenso, de leite de rosas, de cigarro, de descoberta, de desespero.

Todas elas imanadas em você
me elegeram a presa em comum.
Na antinomia perfeita de todos os meus desejos
historicamente degenerados.

(Tenho medo de,
quando todas elas e todos eus saírem juntos pra ver o sol,
o que é que vai sobrar de mim).

domingo, 26 de setembro de 2010

Da sujeição de Severin.

Wanda, coberta de couros escuros,
com os olhos mais gélidos que a fria madrugada russa
do inverno alemão,
esvaziava Severin do ser Severin,
pregava Severin na cruz,
e fincava a cruz no mais erguido que pudesse.

O seu pacto, firmado em silêncio, arrogava um pietismo naturalmente

[estabelecido
entre o artista e a obra,
dentro do qual todo o prazer se concretizaria no entreatos,
no rito de passagem:
a coesão - apavorada - dos músculos contractos
contra o relaxamento que sucede ao pingo
da cera quente.

Se Wanda, a Vênus, trajava o quíton clássico,
se podia gravar em seu braço a marca de Caim,
então cruel era o perdão
e vil era Severin,
o tirano,
o escravo,
que em seu maior artifício de vilania
almejava sujeitar a musa de Pompéia
a sujeitá-lo.

sábado, 25 de setembro de 2010

Trailer.

Saudade de sentir saudade,
um refúgio que tudo tangencia
mas nada o invade;
a capacidade de conter o universo
num nome simbólico, mítico;
o álibi atestado pra chorar sem culpa,
pra ser injusto ao lidar com a razão.

O pathos, o logos, o ethos,
as potências de existir que em mim se excedem,
no escopo do amor mantinham colocado
cada sujeito em seu lugar, tudo arrumado,
tudo amarrado,
mas cada lugar, em si, um caos,
e cada caos a síntese de um éden.

Acho que, de repente, acordei num trailer
desgovernado, por aí... Corpo afora.
Porque por dentro foi tudo corroído
num desbotamento covarde da cor.

O sulco aberto, em mim, pela libido
alienou sua função, secou até a memória;
até o subsolo da raiz do último fio
da mínima coisa que dá força ao gesto;
até uma nesga de sentimento figurar sozinha,
dilapidada pobremente,
mais pendida ao desgosto do mesquinho,
da comiseração
e da nostalgia.

Saudade de chegar em casa
e, havendo casa, encontrar o motivo
desta necessidade aflita por sorver,
esta fome insaciável, a qual,
após o jantar perdurando,
me questiono em consulta ao subterrâneo
da mente:
sorver, ok, certamente,
mas...
O quê?

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Limite.

Claustrofobia.
Castração.
A força que oprime.
A moça foge, a mão a alcança, a câmera treme...
Ela esteve doente nas últimas semanas.
Antibiótico regrado (de 12 em 12 horas),
o periódico por hábito lacrado
sobre a mesa,
whisky, passaporte,
uma vontade imensa de infringir as regras,
mas, ainda que frouxa,
a venda...
Que nos olhos atrasava o aporte do estalo óbvio:
quem não subscreve o limite... Não peca.

Bobagem, uma questão relativa.
Seu reconhecimento imediato se deu
no reflexo do café
na xícara:
estava presa num tronco onde mal cabia
(a cigarra num pote de criança!).
Ruminava o desdém pela verossimilhança
e ia, então,
se reduzindo...

Pela manhã fumava seduzindo
alguém
por trás do espelho.
Junto à poltrona de rattan da sala
rezava, ela, de joelhos.

Pra dilatar o campo dos contatos
onde a porta do corpo não abria
fingia agora interpretar a si mesma
durante um ensaio de filosofia:

“(...) Ando à cata do que me traduza
o nome e a medida da escala
em que o sentido das coisas se messa
no momento que antecede a fala. (...)”

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A mão da arte.

Na seara do desejo
Tudo são olhos abertos
Tudo são cordas que vibram
O meu corpo, um disparate
O aperto da mão arte
Me bulindo sem pudor

Na seara do desejo
É a tinta que me pinta
É o poema que me escreve
As terminações nervosas
Se expandem pra além da pele
A beleza esconde o medo
A dor que me faz gozar

Na seara do desejo
Toda a fé está exposta
O sentido é o sentimento
O contato é a resposta
O inferno é a vontade
de querer ser sempre mais...

De querer parar o tempo
Na seara do desejo.

sábado, 28 de agosto de 2010

Contra a corrente.

Perecer.
Destino natural...
Meu corpo agora estranha
o que já foi normal.

Se até lá eu viver,
eu sinto, eu sei:
Súbito estranharei
o amigo próximo,
e no desconhecido
hei de buscar o nexo,
o aval da benção,
e o colo.

E, com qualquer impulso,
tudo me será fácil,
pois quero muito pouco...
Agora que o injusto
e o paradoxo
já não me insuflam mais,
serei feliz com anestésico.
(Ou serei demente?)

Nadar contra a corrente?
Nada contra... Mas, pra quê?
Se, de repente, a natureza me ganha
e tão impotente quanto vi nascer
o meu delírio de tantos anos,
os meus sonhos, os meus planos
e eu... Todos juntos vamos
perecer.

domingo, 15 de agosto de 2010

Terra arrasada.

Não sei de que crime
me acusa o inimigo.
Julga-me pelas costas!
E a pena que inflige?
Terra arrasada:
sem comida, sem abrigo,
o solo esturricado
e a água envenenada.
Não entendo o veredito...
Faltei a esta guerra?
Avanço na estrada,
Clara vem comigo.
Do meu algoz, nem palpite.
Vai sem rumo o meu revide,
mas, mesmo assim, revido.

sábado, 14 de agosto de 2010

O Primeiro Ato.

Parte I - Deus e eu, na coxia

Às vezes, quando vou dormir, é que vem a vontade de ser feliz
E o medo
A tristeza dói no estômago
Mal vejo a hora de irromper da coxia
A fala tantas vezes ensaiada
Meu traje a rigor
Quero estrear depressa a minha esquete
Quero extrair em frente ao publico
A melhor parte de mim
Algo que viva para sempre
E que possa ser útil a quem for de interesse
Mas se a expressão da face corromper o ato
Se o sentimento não atingir minha relapsa
Porém amável
Plateia
(Que se dispõe piedosa por eu ser mais um)
Eu não vou chorar
Não vou borrar a maquiagem pesada
Porque é uma vida inteira à espreita de um momento
“A cortina, a cortina...”. Nem pisco mais
Só sinto a honra e o pavor de fazer
O estranho papel de mim mesmo
Coisa mais difícil pra qualquer ator, eu suponho
Pois que todo personagem tem partes de seu intérprete
Mas esse é único, esse é o ápice
É o gozo, e... fim
Não temos direito a um segundo ato
E, embora a categoria o reivindique,
Não me atrai a dependência
Pelo talvez
Eu vou mesmo é nascer e morrer em cena
Pra que não fiquem frustrações e culpas
Não por ser mau ator
Mas pela brutalidade alheia
Que eu não possa vencer

Parte II - Vontade de Potência

A tristeza dói no estômago
E se é uma mancha na retina da gente
Ou na epiderme do mundo
Pra mim tanto faz,
A ardência é a mesma
Mal vejo a hora de romper o claustro da palavra
E passear nos limites da pulsão
Quero estrear meu paletó de madeira sem pendências
Quero cair exausto de amor
Mas o tempo... o tempo...
A tristeza manipula o relógio
E dói no estômago
Mal vejo a hora de irromper a madrugada por puro prazer
Sem que haja medo de dormir
E o mesmo medo de acordar
A tristeza é uma Síndrome de Estocolmo que dá na gente
É a mudez que vem já pelo medo de perder a fala
Um inimigo tão próximo
Que crio e alimento no meu quarto
A angústia de esperar contra o espelho
Eu... já vestido e montado para a hora da estreia
Que é amanhã, que já foi ontem e hoje
Que nunca chega porque a tristeza manipula o relógio
E dói no estômago

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Poema para Clara dormindo.

Quem é ela que dorme nua
caiu súbita sincera e clara
quando a vista lhe pesou
me espremo na sobra estreita
na casa cheiro de mar
tem gosto de água e sal
no cabelo escuro liso
clara a manhã de todo santo
dia em que a vejo pisar descalça
sobre as areias de "para sempre"
e o quebra-mar de "nunca mais"
quem é ela que dorme isenta
das coisas tristes do mundo
e faz do corpo a imensa foz
de tudo o que me alimenta
clara a penúltima palavra
antes do sono e na última
ficou e fiquei
pela metade espremido
na sobra estreita do amor
ingênuo e leve de Clara
marcado pelo valor
de muito e apenas
ser.
(Livre.)

Os ácaros.

Prefiro me antecipar
ao cheiro dos livros,
e aos ácaros
que sempre fazem voltar a alergia
(maldita rinite).
Mato esses ácaros!
Sufoco-os na sacola do sebo
mantida intacta nos livros comprados.
E melhor mesmo, penso eu, é não abrí-los
(Imagine só quantos ÁCAROS medonhos
não deve haver ali?!).
Á-CA-ROS!!!
A grande questão é que não posso deixar
de tê-los, de desejá-los.
Os livros fazem parte, é claro.
A gente tem que fazer as coisas,
sabe? As coisas de sempre.
O moto-contínuo é continuo, ora...
A vida é vida que segue.
Prefiro me antecipar,
melhor é viver de uma vez por todas,
melhor é que eu plante a minha árvore
antes que Chronos me pegue.
Ademais o presente, tudo é talvez.
Prefiro me precaver...
Já estou disposto a matar
a saudade
no minuto seguinte ao adeus.
Antes que no vão do esquecimento
Ou na obsolescência da lembrança
Ela me mate.

domingo, 25 de julho de 2010

7 x 1

Minha boca tem gosto de anteontem. Mecanicamente eu me refaço, vou tentando sobrar intacto por entre as frestas da memória onde me espalho, onde me acho perdido. Eu vejo os sete dias da semana se remontarem, se empilharem holograficamente, mecanicamente; os filhos de uma mesma mãe, esboços de um mesmo projeto. Sete rodas-vivas ao cabo das quais eu me sinto a falsificação de mim mesmo, ou a tentativa constante e inquieta de “ser o que sou” (um simulacro?) mediante o binômio inconciliável de saber o que sou para sê-lo completamente.

Minha boca tem gosto de anteontem, quando, às duas da tarde, eu me levanto. Meu arrependimento por não ter visto o dia chegar é imenso e inevitável. Queria ver render o tempo; queria viver um dia inteiro plenamente; queria viver plenamente uma vida inteira em um dia, talvez. Seria incrível surpreender “o sol antes do sol raiar”, como nas palavras de Chico, agora tão distantes. Eu vou, então, me imaginando, vou me supondo à revelia da margem de erro, vou me perdendo de mim à medida que vou me achando, na medida em que imito a mim mesmo com a estranha ânsia de, quem sabe, preencher a lacuna de características necessárias enquanto fonte às imitações seguintes. É angustiante ser um só... Quisera eu ser sete, mas me faltam uma dúzia de pernas e de vidas para explorar todas as direções aonde é possível seguir. Não posso ser mais do que sou (ou o que não sou), de tal forma que acabo, então, não sendo nada. Acabo não vendo os filmes, não lendo os livros, não tomando porres na Lapa, não saindo pra caminhar em Copacabana, não procurando velhos amigos, não superando e tampouco surpreendendo coisa alguma... A angústia de ter todas as chances (leia-se possibilidades) me devora, e, no meu paradoxo, é a exata mesma angústia de não haver tido chance alguma.

Minha boca tem gosto de anteontem. Tenho esquecido dos poemas que faço, dos nomes que aprendo, das horas, e horas, e horas que... passo. Esqueço das escadas que subo, dos rostos que vejo por aí, da cor cinza do fim de tarde nublado de terça passada, que foi tão bonito. Queria tomar todas as lembranças pela mão, pra que delas eu me criasse quando ao momento das dúvidas, ou quando, talvez, já à beira da porta, eu estivesse ainda inventando o destino para onde ir. Sete cobranças semanais pela urgência de viver! Sou tão jovem...

Minha boca tem gosto de anteontem.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Fugiu?

Um copo vazio,
eu,
na seara do tempo.
Já meio cheio
transbordei,
sei lá...
A palavra sumiu.
Acabou-se a poesia lírica.
E o arquétipo...
Fugiu?
Eu
esqueci das coisas.
Pós-modernismo, teatro e cinema,
sei lá...
Wong Kar-Wai e Jerzy Grotowski
me abandonaram.
Acho que se mudaram de mim...
Eu
não tenho mais o que dizer.
Não justifica nada dizer
nada.
Pareço ser todo agora um artifício,
um ar, um éter...
Repouso dormente no mar
morto.
Eu
só quero um copo cheio
de vazio.
Mormente eu não quero querer!
Mas quero tudo, mas quero apenas
a dor.
Eu quero ser... Sei lá,
a catarse? Sei lá...
Escolho a esmo.
Se choro ou se rio
é o mesmo.

domingo, 27 de junho de 2010

Ecce Imago

Caminho no corredor,
o espaço é curto,
e mais ainda porque divido a passagem
com o fantasma.
Passo rápido, sonso,
mas ele não colabora,
ele que não me deixa sozinho
e nem acompanhado,
ele que me venera e me odeia
sem razão.
Eu o evitava, antes, e já tentei não olhar
na cara dele.
Porque tinha - ou tenho - medo,
porque me sinto observado
justo quando o voyeur deveria ser
somente eu.
Mas nada adianta, não há argumento,
não há lógica que partilhemos,
não há camaradagem
entre nós.
E eu já me acostumei
com sua presença,
e mais parece ter estado sempre ali,
tácito,
esperando
- ou simulando -
uma oportunidade.
Confesso que antes era simples
porque eu notava os limites claros,
óbvios,
só que hoje a história é outra,
e, às vezes, já confundo
a mim mesmo
com o fantasma,
e o culpo por movimentos bruscos,
arcos-reflexos,
pelos meus solilóquios no escuro.
Piso na ponta dos pés, noite adentro,
não quero acordá-lo.
Já cuido dele,
mas ele se antecipa, ágil,
e parece saber as respostas, e parece querer
me dizer
alguma coisa.
Piso na ponta dos pés, noite a dentro,
não quero acordá-lo.
Mas custo a perceber que ele
me zomba,
que pisa na ponta dos pés, atrás de mim,
mas não o vejo (porque só o vejo quando ele permite).
Então eu grito de susto! E ele grita
junto,
no exato instante,
e me faz um fraco dividido
em dois,
um esquizofrênico!
E me faz o super-homem, me veste de Deus,
me dá uma voz imensa, horrenda,
muito maior
do que eu.
E quando me deito,
cansado
de não entender,
vazio,
ele se deita do lado
e me seca o choro, na fonte,
ainda no olho,
e me embala, e se nega a ir embora.
Numa mão toca meu rosto, na outra
o punhal
em riste.
Ele me olha com amor e com pena
e eu lhe devolvo em expressão de angústia,
de sobrevida,
uma cena triste de cinema
que eu não entendo o porquê.
Por que não mata logo
e encerra
esse filme,
de uma vez,
agora?

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Les Quatre Cents Coups

Les quatre cents coups
leva-me não sei onde...
Truffaut é Antoine,
Truffaut já foi criança.
Tenho saudades dos quatorze:
minha jaqueta manchada,
a garota idealizada,
e uma esperança
imensa!

E nada mais compensa
a vontade de viver,
essa ânsia de reaver
Meu álibi perdido.

Já não faz mais sentido
nem me conforta ser
o incompreendido.
(Truffaut vai me entender...)

domingo, 13 de junho de 2010

Largo de São Francisco

No Centro eu me perco
Entre cinemas e cinismos
Versos esquadrinhados
Largos e becos
E praças
Por avenidas largas
Barrocos, modernismos
Pensamentos atarracam-se
Com fomes
E fumaças
Passos estalam secos
E muitos e múltiplos
E placas e vênus
De ferro fundido
O coração se desmancha
Entre fios e vidraças
E as buzinas se atrapalham
No desconhecido

Largo de São Francisco
O sino já me devora
A hora é sempre uma angústia
Um pontilhismo lá fora
De gente
Ao meio-dia... Não arrisco existir
Entre endereços dementes
De famas
E fobias
Teatros, puteiros
Sebos, confeitarias
A aflição é bonita
E a solidão me entretém
Aqui não sou o centro
Aqui não sou ninguém

Frágil.

Amei desesperadamente,

mas ela desatinou, se foi, e nem sei o que houve. Não tive tempo de pensar, o instantâneo do desvario dela me exigia um arco-reflexo único e certo. Um movimento só... E, de repente, eu não sei onde estava. Talvez por distração, ou, penso ainda, que se possa ter escondido por insegurança. Mas não por zombaria, eu creio (creio?). Talvez esteja aqui, em mim, por dentro, nas paredes dos meus órgãos, nos alvéolos pulmonares, debaixo dos músculos.

Amei desesperadamente,

mas não soube lhe dar esse amor com cuidado... Trouxe altas doses na pele; vinha plasmado de aflição e desejo: e ela se queimou. Assustou-se, então, voou de mim, arisca e frágil, e perdeu-se nas árvores... Pra nunca mais... Pássaro livre num silêncio meu, num instante! Deus do céu, um instante! Chorei qual criança, chamei seu nome até a rouquidão, e, já sem a voz, ainda mexia a boca, pois quem sabe me lesse, de longe, a fricção dos lábios: “-Preciso estar contigo um pouco mais! Só um pouco mais!”. Talvez no céu ou no inferno, e eu quis morrer, ou no silêncio do sono, e eu quis dormir... Por ironia, no fim, o que sobrou dela sou eu: conservo intactos e esparsos no meu corpo os seus lugares, costumes, rotinas; e me mantenho incólume por ser eu mesmo o relicário deste sentimento.

Amei desesperadamente,

e hoje vejo seus vultos, por aí... Debruço-me em vestígios da vida procurando ligações circunstanciais; conecto fatos sem sentido, e permaneço, então, como um anacrônico, o historiador errante de mim mesmo. Ela desapareceu no tempo mais do que no espaço! Deus do céu, num segundo! Uma fé que insiste exagerada... Ainda espero revê-la em outros ares, em outras bocas. Talvez, como a minha, já roucas.

Amei desesperadamente.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Teu Leite.

"E a mulher amada, de quem eu já sorvera o leite,
me deu de beber a água com que havia lavado sua blusa."

Chico Buarque - Budapeste

Corpos inseguros
Estranhas ilhas
Na epiderme da terra
Onde somos imensos
Pequenos lapsos intensos
Revelam
Meu corpo árido
Estranho
Ilha insegura
Fruto de guerras
E te(n)sões
Tua boca ávida
Chupa
E semeia
Num gesto perfeito
Nosso cotinente-ilha
Inteiro
Revelo teu corpo ártico
Incontinente bebo
Teu leite
Lavo teus olhos
Friezas ásperas
Me arrastam
Pelas águas atlânticas
Nossas ilhas se chocam
E submergem
Sonâmbulas

Para além do eldorado
Terras em transe
E em transe(a) perfeito(a)
Eu te traço
Curvas
Nas águas turvas
Nossa ilha revela
Escombros de nós
Vícios de guerra
E espólios
Do chão de mundo
Em que planto
Teu leite
E onde nascem meus olhos
Nesse continente-ilha
Meu corpo úmido
E cálido
Submerge
Entre crônicas ácidas
História incerta
Nossas ilhas se afastam
Gélidas
E catatônicas
Teu doce dissolve
Em minha boca
Aberta

domingo, 6 de junho de 2010

O Corte.

Pior do que o pior episódio
Perdi a prosódia
Fiquei perplexo
Mas fui tímido
Assistir TV

Pior do que o pior espelho
Fiquei paspalho
Perdi o reflexo
E num átimo
Deixei você

***

O homem-estação eu
Trabalho sem recesso
Vou amargando distâncias imensas
Não rio não converso

Apenas peço licença pro tempo
Eu sou eu era eu vou
Reescrevendo o adeus silencioso
Para os que alçaram vôo

domingo, 30 de maio de 2010

A Morte e o Sexo.

O sexo da gente se estranhando,
Se apertando, se magoando, se mordendo.
O sexo da gente se matando,
Que se matando a gente vai vivendo.

Enquanto vive a gente não se entrega.
E se ferindo a gente chega ao gozo.
E tropeçando a gente lambe o fosso.
E pelo avesso, a morte é o puro sexo...

Eu meto, eu gemo, eu bato, eu grito, eu fodo!
E te fodendo eu me perco da estrada.
E enlouquecido eu me esqueço do corpo...

sábado, 22 de maio de 2010

O Processo.

Entrando pela saída
Na contramão do processo
De um parto, o oposto e o reverso
Um passo e um salto pra trás

O gozo que molha o falo
O sangue que cai do feto
A morte é o caminho certo
Da água, a fonte e o ralo

Da casa, a porta e a janela
De Deus, o fim e o começo
A abrangência esvaziada
De um sonho sem endereço

Entrando pela saída
Caindo na ratoeira
O tempo só é medida
Do sono existencial...

sábado, 8 de maio de 2010

Visão Periférica...

E ela olhava, e olhava, e olhava... Obstinadamente. Quem sabe jogasse um solitário jogo, buscando vencer a distração e o cansaço... Tinha nesse instante uma expressão nublada, talvez apática, da qual seus olhos pesados sobressaltavam por um lacrimejo excessivo. Perturbava-lhe a balbúrdia em sua visão periférica, enquanto o pensamento, imaterial e genioso, escapulia, subvertia, evaporava... Multiplicava o mundo em outras possibilidades, coroando e destronando intensos reis: o amor, a arte, o visceral, o sensual. E então ela não tinha limites, ela não tinha medo afora de si mesma, pois absorta em anomia a moça adiava a míngua do gozo, a urgência pelo significado que se desprendera nas passagens: da vontade para o toque, do pensamento para a linguagem, do sentimento para a atitude...

Pois foi que, de repente, naquele olhar, alguma revolução de sentidos estourou na cara dela, e desde então desvaneceu, murchou, e já não é tão bela quanto ontem, tão simples como outrora. Uma vida roubada. Seus olhos avermelharam, correu em disparada com as mãos premidas no cordão do tempo, sujou-se de poeira cósmica, dançou em giros, cruzou paredes; caiu diante de mim. Fiquei demente, catatônico, e bem quis tocá-la, mas não soube como.

O que sei é que entre o sonho e a realidade existe apenas um cinismo...
Que grande cinismo.

Trava-Língua.

O mundo é um trava-língua:

Ou você se entrega.
Ou você se integra.

E de uma lista de verbos razoáveis:
Conseguir, suportar, querer, aceitar...
Por um problema na distância entre os nós
desse trançado a que chamamos "nós",
ou pela obscena intransigência entre
a comunicação, o sentimento, a lucidez,
eu prefiro não elencar verbo algum,
eu prefiro não condicionar a sentença...
Então deixo a lacuna, que resta agora
como o desdobramento de um monólogo inconcluso.
Como um estranhamento, um desapego,
uma cegueira.
Uma questão impossível para o "eu"
e para o "outro".

Mas onde vão as palavras urgentes?
Estão socadas dentro de um reboco
que só o silêncio cirscuncreve e ocupa,
evitando alguma queda desastrosa
no fosso da linguagem
e da loucura...

E logo surge o espaço do absurdo,
que só se nota no revés do espelho
na minha cara, no meu signo, no meu último
palpite sobre a palavra certa.

E no reflexo que expõe a casca
Ocorre um "eu"-não-"eu", um desencontro.
Uma cenografia,
um cobertor,
um escafandro...
Um perfeito David, ma chi non parla.

E se falasse não diria nada
Pois nada explica essa interrogação,
E junto dela o significante
Na obstinada e onerosa espera
Da nave virtual e pós-moderna
Que poderia dar algum recado
Sobre um suposto significado:

Eu não ____________ me integrar.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Agnose.

Deus,
Onde está
O Deus
Que melhore
A ânsia
Que me vem
Do estômago
E umedece
O esôfago
E amarga
A boca
E me deixa
Tonto
E me torna
Vil.

Onde mora o Deus?
Só quero saber
Se no escárnio teu
Se na minha morte
Se num DVD
Se no livro antigo
De um parnasiano
Se no olhar oblíquo
Da separação.

Só quero saber
Se esse Deus tem dó.
- Por que estou tão só
Nessa imensa várzea?
- Por que me atropelo
Nesse carnaval?
- Por que não sou elo
Preso no cordão?
Esse nó é frouxo
Nosso tempo é pó.

Só quero saber
Se ele me conhece
Se ele vem do sol
Se ele vem do mar
Se ele vai se rir
Quando eu me perder
Ou quando eu cantar
Ou quando eu falar
E ninguém ouvir:

Onde mora o Deus?

Gauche.

Todos os dias era tudo igual, mas em desarmonia com as cores havia, entretanto, um sujeito: era aquele sentado no banco, o que trajava camisa social azul-marinho, com gola amarfanhada e dois botões abertos (- Isso, é aquele mesmo!). Aquele conseguia ser inteiramente gauche, e o fazia em tão minúsculos e estranhos detalhes que nem mesmo a rotina da rotina cuidava de solapar seus vícios. Ele insistia com doutores sobre os perigos que corria em seu cotidiano, e atinava em um pálido assunto de que “para morrer basta estar vivo”. E todos os especialistas lhe prometiam, então, a cura para a gauchitude... Mas ela nunca veio. Em nada resultava este esforço, e a hipocondria se somava aos seus outros pesares. Ele sabia que sabia andar, mas caso pensasse no mecanismo que lhe movia as pernas, o pobre era capaz de empacar na calçada sem que houvesse remédio. No campo afetivo e de relações, ele jamais se acostumou aos beijos e carinhos de sua amada, sempre sentindo o coração palpitar, a barriga doer e o joelho afrouxar... Que triste figura. Trabalhava todos os dias pensando em fugir da cidade ao fim do expediente, e cria sempre estar próximo da saturação, do limite e da curva.



Precavido que sempre fora, o homem não soltava da bolsa de pano em que guardava alguns gêneros (com a validade já vencida), ansiando por sua inadiável partida sem destino. Não lia livros até o fim devido à angústia de saber que existem outros na estante, e que podem ser melhores, e que não era razoável se aplicar e se conter naquele único. E pensava ainda que, além dos livros, existem as músicas, os filmes, o sexo... E que cada segundo mais próximo da morte evoca uma centena de possibilidades gauches de vivê-lo... Nunca pôde tocar violão, porque maldita era a presença do piano e errante era a beleza do oboé. Aquele indivíduo sentia todos os dias o mesmo pavor de que os ônibus da avenida transversal lhe esmagassem os planos, e mesmo que sempre atravessasse em perigo, e mesmo que um carro lhe cortasse, vez em quando, um fino de vento, um triz... E mesmo assim nunca pensou em alterar sua rota. E a cada xixi ele sentia imenso medo de molhar as bordas do urinol, e lavava a mão duas vezes seguidas, e se secava com 3 folhas de papel, embalando a mão direita numa outra folha que lhe evitasse o contato da torneira, e, por fim, numa última folha que escondesse a maçaneta da porta do banheiro público.



E foi que hoje, pela manhã, eu procurei por ele na rua e no banco, porém ouvi comentários de que viajou no fim da tarde de ontem... Dizem que foi para Aracaju viver de “vamos-ver-o-quê”. Mas sei que, a qualquer hora, o desassossego vai lhe bater à porta levando consigo o fantasma do ser gauche, e logo mais o jovem sisudo vai querer de volta o expediente, o violão, a mulher amada, os ônibus da transversal...

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Poética (I) revisitada...

De manhã me deito
De dia durmo
De tarde acordo
De noite ardo.

A oeste a sorte
Contra quem vivo
Do sul lascivo
O afago e o corte.

Outros que contem
Nexo por nexo.
Eu surto ontem.

Faço amanhã
Morro onde há espaço:
- Meu tempo é nunca.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Pasárgada revisitada...

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do Bandeira
Aqui não tenho eira nem beira
Aqui não é o meu lugar

Vou-me embora pra Pasárgada
Gastar o meu pé-de-meia
Vou beber Iced Coffee
Lá não existe puta feia
(Manuel que me falou...)

Nunca mais farei ginástica
Andarei de pernas bambas
Cairei de burro brabo
Fugirei do pau-de-sebo
Beberei água do mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do asfalto
E desperto sem relógio
Sem carteira
E celular

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem regras muito bem feitas
Pra evitar a exceção
Tem musas para os artistas
Vodka com preço baixo
E um monte de cantinhos
Que é pra gente fornicar

Vou-me embora pra Pasárgada
Já que em mais lugar algum
Vou achar tantos amigos
Vou tomar chá de sumiço
Vou perder o meu juízo
Vou esquecer de onde eu vim

Vou-me embora pra Pasárgada

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Clara.

Quando Clara chegou eu já estava lá. E é como melhor posso dizer da sensação que tive ao ver as leituras e expressões menores invadidas e saqueadas por ela. Há tempos imemoriais eu era o mesmo todo, complexo e conciso, determinado e determinista, e, sobretudo, vasto. Percebo agora que Clara, desde a manhã na qual se fez concreta, foi como a morte em me tocar sem pedir licença, desordenando os elementos que, coesos, me desenhavam os sonhos diante dos olhos e a vida diante das mãos. Nada restou de matéria minha que não ruísse aos seus trancos, seu dom de interromper o que antes era fato, fazer das horas metáforas, e reviver Platão.



Eis que num Dezembro, quando beijamo-nos enfim, perdi naquele beijo a chave da arca em que escondera intensos medos, imensas fantasias com que brincava em carnavais remotos. Perdi os olhos castos em que Clara nunca pôde olhar, porque, ao chegar, a ingenuidade repousava nua e envergonhada. Naquela cena a conheci profunda, porém muda. Creio não se saber o outro mais com frases do que com silêncios, e talvez aí mesmo, na ausência da voz, estejam causa e prova de minha loucura. E mais que o gênio de Clara parecesse transtornar o tempo e as aras, debrucei perplexo ao calendário de Dezembro, e era Dezembro, ainda Dezembro. Dezembro antes, e após também...

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Até o pó.

O fim da rua... O fim da rua.
Não vem ninguém.
Estico as mangas, timidamente,
Porque é verão.
( - E esta mania de usar mangas compridas)
Não vem ninguém.
Mais um café, por favor,
Um expresso.
Com ¾ de angústia
E um quê de saudade.
Eu vigio a vida, gole a gole,
Curioso até o pó.
E este filme démodé
Que frequenta a sessão da tarde.
Mas já vi, eu já sei,
Não vem ninguém.
Às vezes cochilo, às vezes sorrio.
Mas chato mesmo é fazer o bigode
(- maldito bigode.)
Que cresce feito erva daninha.
Feito a misantropia
Que me levou o amor.
Ontem não foi diferente:
Não veio ninguém.
E já são 16:36, o dia se esgota,
Num fim de rua mais ou menos
Distante
Onde os meus olhos capturam, em película,
A fumaça do café, ou do cigarro,
Tudo parece me lembrar que a morte
É um curta-metragem inexorável.
Este café gelando... E o que me importa?
Nunca será tão gelado quanto a espera.
Ou quanto a minha boca.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A Ninfa e o Sátiro.

Estrangulados num cinturão de hipóteses, a Ninfa e o Sátiro não souberam aproximar-se na medida exata: logo viram fundir seus corpos numa densa e indivisível massa, como da colisão de dois ímãs inconseqüentes. A boca da Ninfa era tão molhada de prazer e de suor que o Sátiro, incauto, quis nela beber todas as coisas da vida, e provou de uma loucura indescritível. Ele ambicionou lamber e morder a anatomia completa de sua cativa, e tão completamente a quis que nem mesmo a iminência do fim já lhe metia medo. Refestelava-se ansiosamente na pele da Ninfa jovem, e não sabia onde pôr as mãos; nem onde pôr os olhos. A Ninfa rogava que o ar lhe faltasse por mais um minuto, e que o peso em seus braços pendesse ainda mais, e que a língua em sua língua roçasse ainda mais... E o Sátiro se entregava em carinhos e pequenos delitos nas coxas, nos seios da moça, melando-se inteiro em seu corpo de tinta e de óleos. Ela expulsava a voz fremente e rouca em calados gemidos de gozo e de amor, que apareciam quando o sopro quente do Sátiro vinha visitar-lhe a dobra do pescoço...



E numa hora inexata deu-se o fim, é certo. Tão molhados de prazer e de suor, a Ninfa e o Sátiro...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Gaia.

Num disparo de cavalos forros eu me desfiz em mil sementes, e foi que tudo começou: um rasgo de liberdade, um relógio destruído, um cigarro. E antes mesmo do primeiro sono e do primeiro sonho de amor, a jovem Gaia gemia de algum prazer (ou dor?), e gemia, e gemia... E o seu transe derramou na grama a primeira letra do primeiro verso da primeira estrofe do primeiro lamento da primeira saudade.



E logo veio a primeira morte, quando eu, ainda menino, senti o toque demente da paixão me seqüelar a espinha. Caí de mil falésias, tensionei as supercordas do universo e carreguei nas unhas o concreto da primeira grande torre, ao primeiro meio-dia.



Mais tarde eu quis engendrar duas máquinas: uma de sorrir e a outra de chorar. Diverti-me em colorir a palidez dos primeiros homens, botando-lhes na cara as primeiras expressões e, junto delas, as primeiras dúvidas.



E na primeira meia-noite do meu primeiro desejo, eu buscava, me esgueirando no horizonte, as primeiras experiências físicas e metafísicas de alteridade. À semelhança do relógio, os meus olhos funcionavam mal, quem sabe por adianto ao primeiro clarão da primeira luz que lhes traria a vida. Eu esticava com veemência as pontas dos dedos, mas não pude encontrar a bem-amada, eu não pude...



Foi ali o primeiro frio...
E o primeiro horror.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

O Ponteiro.

Larga a minha mão!

Porque a quina da rua
se dobra na frente
da cara da gente.

Percebe a minha mão!

Eu que corto um dobrado
esquivando, escaldado,
A sua sombra no chão.

Sucumbe à minha mão!

O ponteiro me arrasta
de hora pra hora
o meu pé já falseia
e o chão não demora
em comer o que sobra
do milissegundo
que ainda nos finca
a raiz neste mundo

Então sente a minha mão!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O Drama.

Dopado de sarcasmo, eu corro
por caminhos obscuros e oníricos.
Não sei se à busca de qualquer enredo
ou de um cenário em que se encaixe o drama.

Na acepção de um personagem, eu
vou sucumbindo à dor e ao prazer
onde a existência é um quadro de Chagall
e a realidade é o erro dos sentidos.

Mas, por favor, não arregale os olhos
se entre espasmos de amor e morte
eu aspergir, como se fosse tinta,
uma verborragia de rancores.

Fiquei pra ver o sol, apenas eu,
muito ofegante e vilipendiado
pelo desejo que assaltou o trajeto;
pela saudade que assaltou o objeto.

Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

Seguidores...

Sobre a dúvida...

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

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