quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A morte de A.

No dia 16, após uma overdose de filmes experimentais e pornôs de baixo orçamento, A. sentiu fisgar em seu peito o anzol da morte. No seu apartamento da Rua B., na Zona Sul do R.J., figurava sobre o aparador o olhar grunge de Caetano Veloso na luva de um LP sem nome, datado de 1967, e adquirido num sebo ali bem próximo. Na capa de cores escandalosas, uma alusão prosaica ao paraíso da bíblia: tinha Eva e tinha a cobra, mas tinha também um cacho de bananas e um dragão estilizado de forma um tanto ridícula. Trocando em miúdos, o que o desenho parecia buscar era a reafirmação do “nheco-nheco” e do “fuqui-fuqui” que tanto se diz haver na brasilidade, e todo o tico-tico-tucu-tucu-batemacumba-iêiêiê que vem no pacote. Cruel pensar que A. morreu ao som de “superbacana”, logo este homem que tanto sonhava em morar na D., bem longe daqui.



Ao passar dos dias o corpo começava a deteriorar-se, e não havia ninguém que virasse o disco na vitrola. Aquele silêncio era perturbador. Por volta das 14h do dia 17 surgiram uns modernistas, que chegaram em bando para deglutir os restos de A. Os antropófagos não desperdiçaram nada, nem as meias sociais, que ficaram com O.A., nem o disco de Catetano, que ficou com T.A. Com a oçada do morto levantaram uma escultura de vanguarda, mas depois destruíram, porque ficara mais pra Dadá do que pra Pagu, e assim não dava pé. O sangue, por sua vez, foi enlatado e pintou o vermelho de imensos murais, mas sobre estes eu já não sei o destino que deram...



Já no final da tarde apareceram outros: uns cães esquálidos, uns acadêmicos viciados em gardenal, uns arqueólogos bipolares e uns adolescentes ociosos. A coisa foi crescendo e a multidão se aglutinava densamente entre os cômodos, cantando as canções favoritas de A., e abrindo a geladeira, e revistando os armários. Destes grandes ícones de porra nenhuma, a figura do arqueólogo bipolar me é a mais risível. Eu confesso um prazer misantrópico ao projetar algumas cenas, à exemplo: “Encontrei, é a tíbia de um hominídio datado de 546546546 anos atrás! Há de ser o primeiro registro de um Homo Sexual! Ficarei milionário, ah, como não! Iates e belas mulheres em Ibiza! Se bem que o Homo Sexual nem é tão proeminente, mas o registro não é inútil. Se bem que a tíbia é um osso pouco representativo... E os arqueólogos, hum, estes não ganham dinheiro com descobertas. Ainda nem reconheceram a profissão! Ai, ai. Estou tão triste e tão só. Talvez a morte me dê guarida...”.



Depois que toda a gente refestelou-se, ficaram mesmo só os adolescentes ociosos. Eles são sempre os últimos a ir embora de qualquer evento, e eu ainda não entendi se é por serem adolescentes ou por estarem ociosos, mas não importa muito. Até apareceram uns artistas pós-modernos querendo dar um cacete em O.A., mas, ao ver que ele já fora embora, logo o esqueceram e resolveram garimpar o acervo de filmes experimentais e pornôs de baixo orçamento. Era tudo estranho porque parecia que A. tornara-se um uma essência incrustada em cada objeto da casa, e que gritava para não o tocarem, mas não o ouviam (além de mim). A carne era dura e desgostosa, mas ninguém ousou comentar. O que aconteceu em seguida foi que os adolescentes empilharam os discos do defunto e sentaram-se sobre eles para jogar videogame. Ficaram lá com a cara grudada na TV de plasma recém-comprada e com 3 prestações não quitadas. Jogaram até o mundo acabar, por volta de 2012...

1 comentário :

Anônimo,  19 de novembro de 2009 15:24  

Nunca comento nada aqui...
1 pq nunca acho ter um comentário suficientemente relevante a ponto de valer ser registrado, e 2 pq posso falar o que achei diretamente pra vc... Mas vamos variar... Não que alguma das duas premissas anteriores tenha deixado de ser verdadeira...
Adorei a doideira viajante, muito sarcástico-morbidamente bem humorado (como eu já te disse).
Vou ver se comento mais os seus textos, apareço aqui vez ou outra, ao invés de ficar só pedindo pra vc ler pra mim...
É isso, meu escritor cada dia mais insano( pelo menos no que diz respeito à produção literária).
Te amo muito!
Muitos beijos!

Ju

Manifeste-se!


Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

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