quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Bom dia.

Ficou o maldito gosto, e eu não consigo engolir, escovar, ou cuspir. Acho que a tua saliva deu prole em minha boca. Acho que o teu silêncio seqüestrou o meu gênio criador, de tal forma que todas as histórias se inflexionam na tua história, e todas as minhas palavras se valem dos conceitos e das semânticas que inventei para o teu propósito. Vejo crescer, nos jardins do assombro, uma insaciável cadeia de signos e ilusões: Quando digo “- Bom dia”, este “bom” e este “dia” não podem pretender-se mais do que os teus seios nus a atritar minha língua. Ou se assisto ao “Quarto 666”, de Wim Wenders, a pergunta do diretor a respeito do futuro do cinema não me empurra além de uma crise sobre o papel que desempenho neste cenário vulgar, ou acerca da tua morte em minha imago-trama.



Se não se pode sangrar um sujeito para lhe pôr lá dentro um ponto de vista, não seria a comunicação, portanto, semelhante ao caminho por que somos reconduzimos em nós mesmos? Em minha vida este é o caminho por que sou inelutavelmente reconduzido a você.



Lingüística a parte, o problema mesmo é o trauma, no sentido mais Freudiano da coisa. O que tem me sugado é a cicatriz sensorial em meus desejos, que permanece passiva e irresoluta, tal como toda cicatriz. Melhor viver e purgar mil vezes a dilaceração orgânica de um “Lavoura Arcaica” do que sofrê-lo em dose única. Eu vejo que este mal sem resgate vai empilhando velhas imagens de si mesmo, mas nunca se reprojeta, nunca se rememora, tampouco se esgota. Incrusta-se tão prolífero quanto saliva dormente em minha boca; tão colérico que já não gozo mais em tatear tuas coxas nos meus piscares, e sinto apenas nada.



Como a Alice de “Closer”, você me escapou de entre os dedos, mas eu já cria no teu personagem. O mal estava feito. Agora eu me recolho a perguntar no escuro, com palavras já supersaturadas de sentidos:



- Quem é você?

0 comentários :

Manifeste-se!


Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

Seguidores...

Sobre a dúvida...

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

  © Blogger templates The Professional Template by Ourblogtemplates.com 2008

Back to TOP