domingo, 15 de novembro de 2009

O Corpo e a Relva.


Ainda Primavera... Uma pena. O inverno me cai melhor na pele, e só o outono consola, humilde, esta saudade. Corro da metrópole sem pé nem cabeça onde fui abortado, até invadir o bosque que circunda a urbes. Deixo as roupas no fim da estrada, e carrego comigo apenas o abstrato, o que couber no sinuoso da memória. Meu corpo nu explora o solo e as folhas, e eu me sacio da sede de me perder do mundo e dos adjetivos. Não temo o cruel, e nem o escuro, mas abomino fatalmente a solidão do cárcere, e em seu contato vomito a bile da alma até secar por completo... Até ser pó.



Iludido pela ótica nos troncos, eu confundo as minhas mãos com a silhueta de uns galhos antepostos à lua, e minha respiração é tão escrupulosa que nem mesmo os animais da noite poderiam notá-la. E não digo de palpite: uma coruja ocupava um trecho próximo à árvore sobre cuja raiz meu corpo se estendia. Em simbiose com a relva, somente os olhos da ave me recobravam a urgência da morte. Porque, para mim, a realidade era o não ter um nome, nem tempo, nem olhos de ave a me furtar do sono. Saltavam em destaque os seus balões-neon, uns corpos assemelhados a astros, e mais ainda na perspectiva de quem os vê deitado e dopado do desejo de enxergar, este desejo que tanto me excita... "São as estrelas do teto do meu quarto!", eu pensava. "Aquelas mesmas, as funcionárias exemplares deste cinturão de sonhos. Pena que, justo hoje, apenas duas vieram me ninar em cama fresca e imensa..."



E a tal coruja voyeur nos privou - a mim e a ela - de qualquer comunicação. Fiquei ali, em monólogo, coberto pelas vigas da angústia mais introspecta do mundo, que se chegou imperativa e ergueu um palácio sobre os meus ombros. Por pura falta de planos mais nobres, tracei a meta de chorar naquela noite... Pois chorei. As lágrimas lavaram o marrom da terra que encimava a carne imóvel, e as estrelas de coruja multiplicaram-se no vidro baço da córnea úmida, embora cada uma de suas centelhas desgarradas não levasse consigo a estima da "stella mater". Mas sem surpresas quantos aos termos desta equação, pois já conheço a máxima dos sonhos que se alastram mórbidos na calada do bosque: eles são os que, se não degeneram, também nada constróem.



Vem a brisa, que resvala em meu rosto molhado e espalha os cabelos no breu. Já não sei quase nada, mas sei que o afago do vento é indescritivelmente prazeroso...



* Os créditos da imagem pertencem à "Domingos Xavier": http://www.flickr.com/photos/vilarsuente/2801188674/ - Licenciada em Creative Commons

0 comentários :

Manifeste-se!


Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

Seguidores...

Sobre a dúvida...

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

  © Blogger templates The Professional Template by Ourblogtemplates.com 2008

Back to TOP