quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Bom dia.

Ficou o maldito gosto, e eu não consigo engolir, escovar, ou cuspir. Acho que a tua saliva deu prole em minha boca. Acho que o teu silêncio seqüestrou o meu gênio criador, de tal forma que todas as histórias se inflexionam na tua história, e todas as minhas palavras se valem dos conceitos e das semânticas que inventei para o teu propósito. Vejo crescer, nos jardins do assombro, uma insaciável cadeia de signos e ilusões: Quando digo “- Bom dia”, este “bom” e este “dia” não podem pretender-se mais do que os teus seios nus a atritar minha língua. Ou se assisto ao “Quarto 666”, de Wim Wenders, a pergunta do diretor a respeito do futuro do cinema não me empurra além de uma crise sobre o papel que desempenho neste cenário vulgar, ou acerca da tua morte em minha imago-trama.



Se não se pode sangrar um sujeito para lhe pôr lá dentro um ponto de vista, não seria a comunicação, portanto, semelhante ao caminho por que somos reconduzimos em nós mesmos? Em minha vida este é o caminho por que sou inelutavelmente reconduzido a você.



Lingüística a parte, o problema mesmo é o trauma, no sentido mais Freudiano da coisa. O que tem me sugado é a cicatriz sensorial em meus desejos, que permanece passiva e irresoluta, tal como toda cicatriz. Melhor viver e purgar mil vezes a dilaceração orgânica de um “Lavoura Arcaica” do que sofrê-lo em dose única. Eu vejo que este mal sem resgate vai empilhando velhas imagens de si mesmo, mas nunca se reprojeta, nunca se rememora, tampouco se esgota. Incrusta-se tão prolífero quanto saliva dormente em minha boca; tão colérico que já não gozo mais em tatear tuas coxas nos meus piscares, e sinto apenas nada.



Como a Alice de “Closer”, você me escapou de entre os dedos, mas eu já cria no teu personagem. O mal estava feito. Agora eu me recolho a perguntar no escuro, com palavras já supersaturadas de sentidos:



- Quem é você?

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A morte de A.

No dia 16, após uma overdose de filmes experimentais e pornôs de baixo orçamento, A. sentiu fisgar em seu peito o anzol da morte. No seu apartamento da Rua B., na Zona Sul do R.J., figurava sobre o aparador o olhar grunge de Caetano Veloso na luva de um LP sem nome, datado de 1967, e adquirido num sebo ali bem próximo. Na capa de cores escandalosas, uma alusão prosaica ao paraíso da bíblia: tinha Eva e tinha a cobra, mas tinha também um cacho de bananas e um dragão estilizado de forma um tanto ridícula. Trocando em miúdos, o que o desenho parecia buscar era a reafirmação do “nheco-nheco” e do “fuqui-fuqui” que tanto se diz haver na brasilidade, e todo o tico-tico-tucu-tucu-batemacumba-iêiêiê que vem no pacote. Cruel pensar que A. morreu ao som de “superbacana”, logo este homem que tanto sonhava em morar na D., bem longe daqui.



Ao passar dos dias o corpo começava a deteriorar-se, e não havia ninguém que virasse o disco na vitrola. Aquele silêncio era perturbador. Por volta das 14h do dia 17 surgiram uns modernistas, que chegaram em bando para deglutir os restos de A. Os antropófagos não desperdiçaram nada, nem as meias sociais, que ficaram com O.A., nem o disco de Catetano, que ficou com T.A. Com a oçada do morto levantaram uma escultura de vanguarda, mas depois destruíram, porque ficara mais pra Dadá do que pra Pagu, e assim não dava pé. O sangue, por sua vez, foi enlatado e pintou o vermelho de imensos murais, mas sobre estes eu já não sei o destino que deram...



Já no final da tarde apareceram outros: uns cães esquálidos, uns acadêmicos viciados em gardenal, uns arqueólogos bipolares e uns adolescentes ociosos. A coisa foi crescendo e a multidão se aglutinava densamente entre os cômodos, cantando as canções favoritas de A., e abrindo a geladeira, e revistando os armários. Destes grandes ícones de porra nenhuma, a figura do arqueólogo bipolar me é a mais risível. Eu confesso um prazer misantrópico ao projetar algumas cenas, à exemplo: “Encontrei, é a tíbia de um hominídio datado de 546546546 anos atrás! Há de ser o primeiro registro de um Homo Sexual! Ficarei milionário, ah, como não! Iates e belas mulheres em Ibiza! Se bem que o Homo Sexual nem é tão proeminente, mas o registro não é inútil. Se bem que a tíbia é um osso pouco representativo... E os arqueólogos, hum, estes não ganham dinheiro com descobertas. Ainda nem reconheceram a profissão! Ai, ai. Estou tão triste e tão só. Talvez a morte me dê guarida...”.



Depois que toda a gente refestelou-se, ficaram mesmo só os adolescentes ociosos. Eles são sempre os últimos a ir embora de qualquer evento, e eu ainda não entendi se é por serem adolescentes ou por estarem ociosos, mas não importa muito. Até apareceram uns artistas pós-modernos querendo dar um cacete em O.A., mas, ao ver que ele já fora embora, logo o esqueceram e resolveram garimpar o acervo de filmes experimentais e pornôs de baixo orçamento. Era tudo estranho porque parecia que A. tornara-se um uma essência incrustada em cada objeto da casa, e que gritava para não o tocarem, mas não o ouviam (além de mim). A carne era dura e desgostosa, mas ninguém ousou comentar. O que aconteceu em seguida foi que os adolescentes empilharam os discos do defunto e sentaram-se sobre eles para jogar videogame. Ficaram lá com a cara grudada na TV de plasma recém-comprada e com 3 prestações não quitadas. Jogaram até o mundo acabar, por volta de 2012...

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

La Fenêtre.

Si ma vie se terminer
E quelqu'un me reconnaître
Laisse mon corps à demi-nu
Les yeux vers la fenêtre

Pour que le poids de ces débris
N'empêche pas la vigilance
Du mon cadavre pourri
Qui se plonge dans le silence...

domingo, 15 de novembro de 2009

O Corpo e a Relva.


Ainda Primavera... Uma pena. O inverno me cai melhor na pele, e só o outono consola, humilde, esta saudade. Corro da metrópole sem pé nem cabeça onde fui abortado, até invadir o bosque que circunda a urbes. Deixo as roupas no fim da estrada, e carrego comigo apenas o abstrato, o que couber no sinuoso da memória. Meu corpo nu explora o solo e as folhas, e eu me sacio da sede de me perder do mundo e dos adjetivos. Não temo o cruel, e nem o escuro, mas abomino fatalmente a solidão do cárcere, e em seu contato vomito a bile da alma até secar por completo... Até ser pó.



Iludido pela ótica nos troncos, eu confundo as minhas mãos com a silhueta de uns galhos antepostos à lua, e minha respiração é tão escrupulosa que nem mesmo os animais da noite poderiam notá-la. E não digo de palpite: uma coruja ocupava um trecho próximo à árvore sobre cuja raiz meu corpo se estendia. Em simbiose com a relva, somente os olhos da ave me recobravam a urgência da morte. Porque, para mim, a realidade era o não ter um nome, nem tempo, nem olhos de ave a me furtar do sono. Saltavam em destaque os seus balões-neon, uns corpos assemelhados a astros, e mais ainda na perspectiva de quem os vê deitado e dopado do desejo de enxergar, este desejo que tanto me excita... "São as estrelas do teto do meu quarto!", eu pensava. "Aquelas mesmas, as funcionárias exemplares deste cinturão de sonhos. Pena que, justo hoje, apenas duas vieram me ninar em cama fresca e imensa..."



E a tal coruja voyeur nos privou - a mim e a ela - de qualquer comunicação. Fiquei ali, em monólogo, coberto pelas vigas da angústia mais introspecta do mundo, que se chegou imperativa e ergueu um palácio sobre os meus ombros. Por pura falta de planos mais nobres, tracei a meta de chorar naquela noite... Pois chorei. As lágrimas lavaram o marrom da terra que encimava a carne imóvel, e as estrelas de coruja multiplicaram-se no vidro baço da córnea úmida, embora cada uma de suas centelhas desgarradas não levasse consigo a estima da "stella mater". Mas sem surpresas quantos aos termos desta equação, pois já conheço a máxima dos sonhos que se alastram mórbidos na calada do bosque: eles são os que, se não degeneram, também nada constróem.



Vem a brisa, que resvala em meu rosto molhado e espalha os cabelos no breu. Já não sei quase nada, mas sei que o afago do vento é indescritivelmente prazeroso...



* Os créditos da imagem pertencem à "Domingos Xavier": http://www.flickr.com/photos/vilarsuente/2801188674/ - Licenciada em Creative Commons

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Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

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"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

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