quarta-feira, 13 de maio de 2009

Por uma arte alforriada


A arte precisa sair do armário. Mas não é um armário qualquer, vulgar. Falo de um tipo muito bem acabado, construído com madeira nobre e conservado desde muito... Desde talvez, quem sabe num chute, a antiguidade clássica. Neste armário simbólico habita uma arte eremita, a que passeia de mãos dadas à pintura e à escultura, e que resiste surda aos múltiplos meios e ferramentas que a história humana não cansa de nos presentear. A arte que, sem sequer dizer adeus, abandonou uma criatividade órfã à própria sorte, numa postura de rejeição aos sentidos para, então, se fiar obcecada aos rótulos. Esta vem sendo uma arte que não conhece a poesia, a prosa, a prosa-poética, o cinema, a música, a fotografia e toda a anarquia criativa que, em tese, deveria nortear o fazer artístico, tanto da arte-palavra quanto da arte-conceito. Uma arte fria, nunca chacoalhada, com suas moléculas em serena inércia... É nela, e somente nela, que existe espaço para um relicário de títulos esvaziados, a exemplo do infortunado “7ª arte”, representante máximo da tentativa de não homogeneizar a arte-conceito ou a arte-palavra, e também de não admitir seus diálogos densos e significativos. Enfim, de não tomar o caminho óbvio por sua unidade.



Este que busco definir é o panorama insano onde os críticos encontram terreno fértil para classificar e julgar a liberdade criadora, para dizer – caso cheguem mesmo a elencar a escrita enquanto “arte” - que a poesia “assim-e-assado” é feia, ou que a fotografia e o cinema pertencem a uma casta “industrial” de arte maculada, que não tem sangue puro e que não janta à mesa com suas irmãs mais velhas. Vivemos na pós-modernidade, um tempo em que os rótulos resistem somente pelo imenso pavor advindo ao menor suspiro de sua ausência... São como a casca de algo que se vê sadio, mas que, ao contemplar o interior, nos deparamos na podridão disfarçada. A marca da agonia dos rótulos é, paradoxalmente, a sua multiplicação descontrolada, num grito último e desesperado de manutenção da ordem, porque a mudança é sempre uma empresa incômoda, e, ao abrir o armário de que falei no início, provavelmente saltarão aranhas e suas teias, e a poeira do tempo perturbará as narinas do sujeito.



E como pode, na pós-modernidade, se sustentar de pé um ideal tão hipócrita de arte? Pior que isto, como pode subsistir um gargalo tão cruel para a própria criatividade humana? A palavra “arte” por si mesma deveria ser explodida, junto com todos os conceitos de cartilha, destes que a gente se cerca quando está confuso... E então os espíritos criadores vagariam inomináveis e livres pela terra. Mas, vá lá, a utopia não pode me guiar intempestivamente e, ao pisar no chão, esta idéia da explosão já não me persegue com ares de realidade. Mas quando se fala de arte, e isto é sério, ainda não se exuma todos os cadáveres que dela fazem jus. Existem mortos esquecidos na chacina das classificações, e há um imenso todo criativo que clama por liberdade de auto-identificação, o que é facilmente notável na multiplicação de termos e adjetivos a que me referi como um “grito último”. Há algo de muito errado na tentativa de carimbar os conceitos e os rótulos, mesmo que, em tese, o seu papel seja facilitar a complexa organização da vida, e não nos privar dos sentidos, como tem ocorrido. Desta privação perturbadora nós temos o sinal mais claro apenas à hora em que os letreiros deixam de enumerar para enforcar as idéias, porque estes carimbos são errantes, são grilhões e guilhotinas. E então nós marchamos para um estado de dormência sensitiva, seguimos armados de uma intelectualidade inútil rumo ao dia em que a arte será apenas uma cobaia apática e estéril, prostrada às análises mais ociosas... E sem a arte – leia-se criatividade – nós somos muito pouco, ou nada, porque ela é expressão do mais sincero estado da psicologia humana, e não existe por acaso. É preciso esperar por ela, e rogar por ela, pois nossas mãos permanecem atadas, e nossos olhos são turvados na urgência dos conceitos, já que de nada serve repeli-los se deles somos reféns... E se não há saída, só resta crer, mas que seja sinceramente, obsessivamente e violentamente, em uma criatividade legítima, em uma arte alforriada!



* Os créditos da imagem pertencem à "Torley": http://www.flickr.com/photos/torley/2329063813/ - Licenciada em Creative Commons

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Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

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