segunda-feira, 25 de maio de 2009

A Oboísta do Villa.


A tarde é suave naquele beco do centro, pois mais parece que todo o desespero ao redor se intimida e murcha frente à música transbordante nas janelas do Villa. Lembro-me que era intervalo entre as aulas de sax, e eu, jogado num banco, contava as bolas pretas do chão emborrachado. Mas o ócio por lá não deixa impune ao seu praticante, dito que, mesmo sem notar, a gente mergulha cada vez mais a fundo nos sons, a gente vai tomando aquela cacofonia instrumental como uma parte importante de si. É uma experiência intensa e, o que mais importa, é ímpar. Alguns sons despertam frescos e ingênuos, dos quais fui cúmplice nas fracassadas investidas ao sax tenor, enquanto outros, de tão maduros se tornam constrangedores ao sujeito que ainda pouco ou nada sabe de música.



Voltando, então, ao intervalo, o fato que houve ali foi nada espantoso para o ambiente em que se encerra: a vez quando vi e ouvi, quase sem direito à repetição, as aulas-ensaio da oboísta, cujo nome ou quaisquer outras informações eu nunca pude saber. Só sei que a moça, somada ao seu instrumento, compunha uma obra de rara beleza, e ambas as partes se abortariam no vago da outra. Eu a contemplava... Era pictoricamente linda, não nego, lembrava algo pintado por Vermeer num instante de inspiração maior, coisa que, se me jurassem verdadeira, eu jamais arrogaria duvidar. Porém não só desta beleza sobrevive a arte, e sim de uma outra mais viva, triste-sincera, trágico-profunda, em que a oboísta parecia investida da cabeça aos pés. Era um estímulo inequívoco à audição e à visão, e digo até obsceno, pois os sentidos são cúmplices em suas escolhas, e não havia como proibir o tato, o olfato e o paladar de reclamarem seu quinhão em algo tão sublime. Confesso que a realidade das minhas lembranças é duvidosa, já que desfila fantasias com que os poetas cobrem a vida concreta. Mas quem pode falar com razão em realidade além do sonho? A mim parece mesmo que a existência, nua de qualquer adorno, é somente o vácuo da biologia, lugar onde este texto não tem graça ou nexo algum. Por isso eu peço “licença poética” às idealizações.



Por fim, me lembro que vi aquela instrumentista mais algumas vezes, embora não muitas. E mais algumas vezes deleitei sua música como um voyeur, um hedonista diante de um prazer proibitivo e desconhecido. E justo aí sobressalta o paradoxo das contemplações: eu jamais saberei se, no caso de conhecê-la e trazê-la para a imundice do material, de humanizá-la, se a sua imagem seria igualmente perturbadora e atraente, e se os poucos minutos das poucas vezes em que a vi tocar seriam, assim mesmo, tão magnéticos. Porque há vezes em que o mistério é o que move e choca, e, não sendo tudo, é pelo menos o maior pedaço. Antes que me apontem, eu digo que não, que nunca tive uma paixão pela oboísta, ao menos como chamam por aí em seu sentido mais pleno de preconceitos e distorções... Ao menos não por ela enquanto ser específico. Ela era apenas uma parte de algumas tardes, e talvez eu quisesse mesmo me apaixonar por tudo o que pudesse, por cada pequena expressão da alma manifesta, por cada tentativa de conhecer um pouco mais o amor e seus ícones, e as pessoas que pelo mundo passam. Acho que eu quis desesperadamente tê-la com seu oboé, e dela saber tudo, e cercá-la o quanto eu pudesse. Mas não há tempo para todas as contemplações, descobertas e paixões, e o que realmente me intriga é a semântica deste verbo “ter”, do qual ainda não pude decifrar a forma, mesmo que com ele eu insistentemente me depare. É, eu sei: a única verdade é que não posso procurar verdades nos olhos e nos ensaios da oboísta...



* Os créditos da imagem pertencem à "Starrise": http://www.flickr.com/photos/starrise/382467193/ - Licenciada em Creative Commons

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Por uma arte alforriada


A arte precisa sair do armário. Mas não é um armário qualquer, vulgar. Falo de um tipo muito bem acabado, construído com madeira nobre e conservado desde muito... Desde talvez, quem sabe num chute, a antiguidade clássica. Neste armário simbólico habita uma arte eremita, a que passeia de mãos dadas à pintura e à escultura, e que resiste surda aos múltiplos meios e ferramentas que a história humana não cansa de nos presentear. A arte que, sem sequer dizer adeus, abandonou uma criatividade órfã à própria sorte, numa postura de rejeição aos sentidos para, então, se fiar obcecada aos rótulos. Esta vem sendo uma arte que não conhece a poesia, a prosa, a prosa-poética, o cinema, a música, a fotografia e toda a anarquia criativa que, em tese, deveria nortear o fazer artístico, tanto da arte-palavra quanto da arte-conceito. Uma arte fria, nunca chacoalhada, com suas moléculas em serena inércia... É nela, e somente nela, que existe espaço para um relicário de títulos esvaziados, a exemplo do infortunado “7ª arte”, representante máximo da tentativa de não homogeneizar a arte-conceito ou a arte-palavra, e também de não admitir seus diálogos densos e significativos. Enfim, de não tomar o caminho óbvio por sua unidade.



Este que busco definir é o panorama insano onde os críticos encontram terreno fértil para classificar e julgar a liberdade criadora, para dizer – caso cheguem mesmo a elencar a escrita enquanto “arte” - que a poesia “assim-e-assado” é feia, ou que a fotografia e o cinema pertencem a uma casta “industrial” de arte maculada, que não tem sangue puro e que não janta à mesa com suas irmãs mais velhas. Vivemos na pós-modernidade, um tempo em que os rótulos resistem somente pelo imenso pavor advindo ao menor suspiro de sua ausência... São como a casca de algo que se vê sadio, mas que, ao contemplar o interior, nos deparamos na podridão disfarçada. A marca da agonia dos rótulos é, paradoxalmente, a sua multiplicação descontrolada, num grito último e desesperado de manutenção da ordem, porque a mudança é sempre uma empresa incômoda, e, ao abrir o armário de que falei no início, provavelmente saltarão aranhas e suas teias, e a poeira do tempo perturbará as narinas do sujeito.



E como pode, na pós-modernidade, se sustentar de pé um ideal tão hipócrita de arte? Pior que isto, como pode subsistir um gargalo tão cruel para a própria criatividade humana? A palavra “arte” por si mesma deveria ser explodida, junto com todos os conceitos de cartilha, destes que a gente se cerca quando está confuso... E então os espíritos criadores vagariam inomináveis e livres pela terra. Mas, vá lá, a utopia não pode me guiar intempestivamente e, ao pisar no chão, esta idéia da explosão já não me persegue com ares de realidade. Mas quando se fala de arte, e isto é sério, ainda não se exuma todos os cadáveres que dela fazem jus. Existem mortos esquecidos na chacina das classificações, e há um imenso todo criativo que clama por liberdade de auto-identificação, o que é facilmente notável na multiplicação de termos e adjetivos a que me referi como um “grito último”. Há algo de muito errado na tentativa de carimbar os conceitos e os rótulos, mesmo que, em tese, o seu papel seja facilitar a complexa organização da vida, e não nos privar dos sentidos, como tem ocorrido. Desta privação perturbadora nós temos o sinal mais claro apenas à hora em que os letreiros deixam de enumerar para enforcar as idéias, porque estes carimbos são errantes, são grilhões e guilhotinas. E então nós marchamos para um estado de dormência sensitiva, seguimos armados de uma intelectualidade inútil rumo ao dia em que a arte será apenas uma cobaia apática e estéril, prostrada às análises mais ociosas... E sem a arte – leia-se criatividade – nós somos muito pouco, ou nada, porque ela é expressão do mais sincero estado da psicologia humana, e não existe por acaso. É preciso esperar por ela, e rogar por ela, pois nossas mãos permanecem atadas, e nossos olhos são turvados na urgência dos conceitos, já que de nada serve repeli-los se deles somos reféns... E se não há saída, só resta crer, mas que seja sinceramente, obsessivamente e violentamente, em uma criatividade legítima, em uma arte alforriada!



* Os créditos da imagem pertencem à "Torley": http://www.flickr.com/photos/torley/2329063813/ - Licenciada em Creative Commons

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Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

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"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

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