segunda-feira, 17 de março de 2008

Saudades da garotinha...

Uma linda garotinha. Lembro uma lembrança assaz viva que bem me parece aqui e agora, logo em face ao meu nariz. Como se ela estivesse de fato a apertá-lo, na tentativa inocente de provar sua realidade. Falo de uma garotinha tão incansavelmente viva, que para mim, em condições de posteridade, cheirava a um tempero misto de admiração e inveja. Eram incríveis suas rotações (umas 24 por minuto)... Lembrava mesmo colhida num outro planeta de felicidade. Sorria sozinha, e vez ou outra acompanhada dos risos alheios. Seu corpo parecia tele-transportável, surgindo magicamente lá e cá, numa dinâmica que trazia consigo um sarcasmo: a inquietude da menina em contraste ao desgaste e à morosidade que o tempo perpetra.

Ela divertia-se num mundo de objetos e pouco parecia importar a função ou o formato adulto que pudessem ter, pois pouco importava qualquer coisa que deste impassível mundo viesse. Objetos com os quais conversava, ria e brigava, emprestando um quê de vida a tais coisas, porque o éter da completude mora na criança, e somente nela. E a guria brincava de botá-los ou tirá-los de minha mão, de maneira tão comicamente rápida que nem mesmo cheguei a tocar neles.

Uma pequenina estrela de imensa luz e saudade: a luz que vinha dela, e a saudade que eu tinha. Mas não falo de uma saudade em terceira pessoa, dessas que a gente sente porque envelhece e a infância se torna imaculada, falo mesmo de uma saudade profundamente pessoal; da vontade de contar o tempo, atritar o mundo e trocar fluidos com a vida do mesmo modo inesgotável com que ela o fazia. E assim, quem sabe, ter a chance de reaver a ilusão da imutabilidade.

Mas a menina certamente desconhecia as vantagens e desvantagens da infância, pois precisava ocupar-se da nobre tarefa de viver cada coisa em seu tempo. E aí mesmo se instala a engrenagem que mantêm o entendimento sobre a vida sempre preso a uma fase não atual: na quase incapacidade que existe em olhar de fora o que se vive por dentro. E nesse enredo eu, embora reconheça a importância de tal engrenagem, não posso deixar de querer, mesmo por um momento, ter sabido na própria infância que tudo aquilo seria tão diferente um dia, o que parece agora óbvio, mas à época não era.

E se era, não é mais. Óbvia agora é apenas a certeza de que a menina não pode me entender ou me transformar, e de que eu não posso entender ou mudar a menina. E é melhor e mais justo que seja assim. Só posso aceitar a verdade de que a vivência gerou saudade, uma saudade do que fui e do que não fui.

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Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

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"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

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