sábado, 15 de março de 2008

O fracasso da simplicidade.

Tenho muitas saudades da poesia inerente às coisas simples, e cada dia mais... Porque percebo que, com o desgaste da vida e a erudição, tenho me afastado mais e mais deste ideal de simplicidade que tanto desejo e admiro. E uso os meus desejos e sentimentos apenas como exemplo aqui, pois vejo ao meu redor que muitos têm imergido nas ideologias e numa espécie de “ranço intelectual” (ou quem sabe “orgulho acadêmico”) que nega dramaticamente um olhar despretensioso sobre a vida. É como se a frenética tentativa de conceituar e entender situações e sentimentos pudesse valer mais que os próprios objetos da análise.



É nesse meio que tenho me sentido desencontrado e imbecilizado. E é um sentimento carregado em culpa, porque, vez ou outra, eu percebo ser um ativo participante da insana caminhada contra a vida simples, que tem arregimentado mais e mais iludidos adeptos. Quero explicitar que não prego aqui o abandono das reflexões ou a desistência dos pensadores, mas, pelo contrário, digo mesmo do pragmatismo pelo seu lado bom, a despretensão que traz felicidade.



Falo de uma espécie de ignorância, mas não o termo em sua semântica pejorativa, uma ignorância bastante desejável. Porque vejo claramente que existe uma diacronia entre a vivência prática e teórica dos fatos, o que evidencia um destrutivo e desagradável paradoxo que não deveria existir, mas que me parece, por outro lado, um fruto inevitável da imperfeição do homem. Esta ignorância seria a fortaleza onde poderíamos nos abrigar de algumas decepções e dúvidas, mas onde estaríamos, em contrapartida, fragilizados diante das cruéis burocracias humanas que existem hoje.



E quando nos armamos político-intelectualmente estamos, em controvérsia à ignorância, nos tornando fortes ante as armadilhas da "burocracia humana", mas perdemos o direito à paz e à passividade, pois é também o momento em que nos tornamos mais distantes da realidade viva e, por outro lado, mais próximos das dúvidas.



Sendo um pouco mais claro, sinto, diante de alguns fatos do dia-a-dia, como se eu pertencesse a um grande circo de vivências sem nexo, porque o excesso de teorias me parece uma perigosa artificialidade erguida no tempo. E baseio estes argumentos não em fatos e conceitos do picadeiro acadêmico, mas na beleza que houve e há na vida interiorana e simples de alguns homens, com práticas e rotinas também simples, sem a contaminação pelo atraente vírus da erudição.



Resta dizer também que, em minha opinião, a possibilidade de escolha entre dualidades como prática e teoria, simplicidade e extravagância, ou quem sabe até realidade e fantasia, não parece ser dada a nós de forma clara no percurso da vida. Talvez não seja um exagero pensar que esta possibilidade nos seja praticamente arrancada, desde que nascemos em determinadas condições sob as quais provavelmente viveremos todo o desenvolvimento pessoal.



O homem simples de que falei não precisa de muito dinheiro pra viver, não possui muitos estudos (ou talvez nenhum), não é agoniado com pretensões do que não tem, e, quando enfrenta problemas, resiste incrivelmente em perder o sorriso do rosto. Um homem profundamente sábio, e por que não dizer invejável.



E, caso eu quisesse mostrar que não me comporto de uma outra maneira senão como vítima destes paradoxos, estaria aqui um bom exemplo, o texto. Trata-se de um ensaio teórico sobre posturas humanas na vida prática, o que poderia apenas ser "vivido".



É como já disse Honoré de Balzac, em seu livro “Eugênia Grandet”:



"(...)Terrível condição do homem! Não há uma das suas felicidades que não provenha de uma ignorância qualquer.(...)”

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Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

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