quarta-feira, 5 de março de 2008

Mea Culpa.

Meu grande desapontamento é ter perdido coisas pelas quais lutei firme em manter: alguns amigos, alguns sentimentos, algumas lembranças. Grandes eternidades que, sem motivo aparente, traíram minha lealdade.

O estranho é isso mesmo, rememorar o que estava lá e o quanto tudo aquilo parecia intenso e intocável, cada gargalhada sem fim, cada gesto afetuoso, cada coisa... Cada coisa em seu lugar. E de repente eu senti que olhava a vida de cima, e não de dentro, e não do centro dos acontecimentos. Só reparei mesmo depois que a coisa mudou, e todo aquele intrínseco destino permanente escorreu pelos meus dedos.

É... Eu não lido bem com tudo isso. O tempo que passou ou não, e o que passa ainda, me parece absolutamente relativo: às vezes é pouco, às vezes é nada. Fico pensando na coisa toda como um filme e, assim, revendo minuciosamente cada quadro de imagem em busca do erro fatal. Uma ilusão tão infantil quanto as que anteriormente me trouxeram a esse texto, quando eu me vi egresso de minha própria história, "transfigurado compulsoriamente" das bases que eu cria firmes... Minha própria história, mas não se assemelhava mais ao que eu havia escrito.

Infelizmente eu volto aqui remoendo essa mágoa. Uma dúvida atroz que me sopra o erro no ouvido: seria mesmo culpa minha ou uma triste conseqüência de estar vivo? Eu que tantas vezes fiz força pra eternizar memórias que não tenho mais; e que na hora do medo olhei no olho do amigo e pedi a ele que tudo fosse sempre assim, que a vida adulta não mudasse as maravilhosas coisas que havíamos construído, e as sinceras respostas que ouvi... Mas eu vejo agora que falhei com ele, ou que falhamos juntos, e esta não é uma falha medíocre pra mim.

Esse engano... Esse patético engano que cometi porque vivia na desesperança de um futuro mutável, na crença dos momentos, no sonho de que o controle coubesse a mim, e eu poderia, dessa forma, “fazer por onde”. Talvez o mais doloroso equívoco da curta vida que tive até então. Por outro lado, penso que se não houvesse esta crença na imutabilidade, não poderia existir o “encontrar e desencontrar” dos elementos com que interagi. Seria possível evitar a sofrível colisão antes mesmo de enxergar a curva, o que significaria um conforto, mas também um tédio. E hoje em dia eu ainda custo a preferir a colisão ao tédio, pois, sinceramente, me sinto fatigado de surpresas e de ilusões reais, que impressionam agora, mas que amanhã num supetão de fim de tarde se revelam.

Quando reflito eu sinto medo... Um grande medo de construir, como quem espera já pela hora da destruição. Tenho medo de que a vida me cerque por todos os lados com novas possibilidades de naufrágio. Tenho medo dos sentidos, do “eu te amo” com olhos marejados, de todas as coisas inacreditavelmente boas... Não quero que um dia se acabem. Não suporto a idéia do momento em que não seja mais como o arquitetado, pois o projeto é única certeza que me resta, ainda que mutilado das certezas que ficaram ontem...

Se alguém souber da curva me avise, por favor... Vou precisar de tempo pra saber o que fazer...

0 comentários :

Manifeste-se!


Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

Seguidores...

Sobre a dúvida...

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

  © Blogger templates The Professional Template by Ourblogtemplates.com 2008

Back to TOP