sábado, 24 de novembro de 2007

não falo sueco.

Não posso dizer que sou justo, mas também só intrometo naquilo que, de alguma forma, convenha, mesmo que apenas ao meu ego absolutamente incomedido. Em nosso imenso ridículo tempo, eu não lhe havia dito, de boca, muita coisa extasiante, e buscava, desesperadamente, descontar a gafe com lirismo de olhos trôpegos e mãos confusas.

Só não me vale ouvir balela do tipo “me trouxe ao seu mundo”... Se veio, foi por livre e espontânea sedução, e bem o sabe. E no meu mundo as placas falam em sueco, não há gente mal intencionada (é gente livre), e os beijos são de trás pra frente, porque assim a gente começa do ápice e atinge o início com fôlego renovado.

Hipoteticamente, olvida a vez em que pensou na hora H com desesperança. Entende que a desesperança é uma quimera de quem anda sóbrio? Quando tomávamos nossa sopa de letras suecas, corações em confraria e lábios esturricados, nada lembrava a insanidade do meu dia.

Eu não falo sueco, e, se bem a conheço, não possui tal graça. A noite do meu dia antecipa a desgraça, mas quanta alegria! É bom desintegrar valores no analfabetismo etílico, no gosto da fumaça, e brindar a vida numa ressaca moral sem presságios, sem psicólogos retardados e sem bibliotecárias.

Pois vem! Entra no meu carro de sonhos canalhas que ainda estão bem frescos. Atropelemos o nascer do dia, calemos com desunião a boca suja de quem parece sempre igual. E cada passo dessa via crucis é uma dose de tequila que rasga na garganta com charuto cubano de Feira de Santana...

Olvida agora toda a bondade, toda a humildade, toda a fantasia! Eu extravaso a solidão do dia em que fui dia claro e agora em noite vaga eu vago. Meu trem-coração já vai partindo pra algum lugar, levando um visto de residência para o não-trabalho. E na fluida partida eu te seguro fortemente pela mão, tua boca é uma mácula que pisca-pisca na minha visão. O astro-carro cadente agora é barco pequeno que parte da nascente de um luar morrendo...

A tequila que rasgava, agora acaricia, e eu não sei mais ao certo se gargalho perto ou rio longe. Lá fora do ser, o horizonte brilha um céu que nunca teve estrela, e parece mesmo que é pra não celebrar lembrança piegas na cabeça da gente... A garganta está indiferente, a língua é a vastidão latente que se espalha nesse curto universo. A língua é quase um órgão-retrocesso, primitivizando toda essa linguagem, como o velho sueco!

E volto às voltas desse recomeço. Quem colocou as placas ao contrário? Quem destampou meu velho relicário? Eu saio roto e sem destino certo, e lhe seguro agora nos cabelos que vão se unindo aos excitados pêlos que o corpo teima em não desexcitar. A madrugada é a droga da verdade, e esse refluxo de identidade, é a paridade entre nós dois: não há.

E então parindo a dor que me rotula, eu vou sugar essa cachaça impura e poetar no centro da cidade...

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Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

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"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

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