sábado, 24 de novembro de 2007

depois dali mais nada.

As folhas das árvores farfalhavam num coral que mais parecia cantar o silêncio. Eu atravessava um mundo, e eram só umas quadras... Dentro do corpo, o tempo era um fluido de volume reduzido, extrapolando as propriedades coligativas da dúvida. Na cara eu tinha pouco riso, e só sabia apertar os pulsos, como aprisionasse impulsos que, de vontade minha, não poderiam fugir.

A rua passava como o salto da pauta musical, da nota que suava em meu ouvido em algum dia tal que não me lembro, mas que ela estava certamente lá, porque ela esteve lá em todos os momentos. Seu abraço era um compasso de fuga fugaz, e um remédio intelectualmente acalorado para todo esse afeto. E eu esqueci naquela hora dos punhos fechados que suavam e não abraçavam, cerravam na mão o perfume de outrora...

E quanto mais eu ia, mais eu via no relógio que toda hora era a hora de não ir. Eu não podia entender a sensação que era de fora pra dentro, pois que de dentro pra fora eu só sabia que expelia um peito em propulsão latente.

Quando eu a vi, eu já não vi mais nada. Eu ensaiava e reensaiava palavras inventadas como num poema em que não caberiam erros. E ela era encantadoramente única, pela última vez foi a união de boca, olhos, cabelos e um ser etéreo que me fascinava de um amor não mais amável para a minha existência frágil e confusa. Ali foi um último beijo que não foi beijo, foi conjunção de almas doces e sós. Ali foi um último espalmar de palmas suadas, último olhar de íris triste da luz que não poderia jamais capturar...

Depois dali a televisão, o macarrão sem sal, a vida na janela e as gargalhadas ocas.
Depois dali mais nada.

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Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

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"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

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