terça-feira, 27 de novembro de 2007

o que seja livre.

Às vezes você me fala com um tom de moralismo e arrogância que eu nem sei dizer, como se o mundo fosse a sua casa e a vida o seu jogo. Busco entender o preço que temos pagado na presença sua e na ausência minha, uma prisão que me rasga em vários.

Tudo poderia ir bem: as ruas com seu velho trânsito esburacado por que sempre atravessamos rumo a lugares quase avessos, mas a prisão que acomete desde a infância tem feito de mim (ou nós) uma fera que sacode a jaula das últimas semanas... E você me fitando o seu olhar de desentendimento transbordado num choro moral, o que é uma espécie de bálsamo da verdade, uma verdade sua.

Quando verte a lágrima, eu sinto o vira-mundo que me esfola, sinto a angústia me arrastando pela gola da camisa social, mas bem na hora eu afrouxava o colarinho em vão. E eu percebo que soltar o botão e a conduta não tem curado o gosto amargo de rancor na boca.

Essa prisão me tem feito um tipo de cão manso e rouco de latir... Cada palavra presa na garganta é uma ardência que marcha no organismo, fazendo de mim refém das circunstâncias. Só resta sentar na antiga mesa em que tenho visto a vida passar, e lá balbuciar, sozinho, as palavras que não digo; Escrever da vida que não tenho; Imaginar os fatos que eu não faço... Acompanhando o mau-humor da vodka e a insônia dos cigarros.

Bem aventurado o que seja livre.

sábado, 24 de novembro de 2007

não falo sueco.

Não posso dizer que sou justo, mas também só intrometo naquilo que, de alguma forma, convenha, mesmo que apenas ao meu ego absolutamente incomedido. Em nosso imenso ridículo tempo, eu não lhe havia dito, de boca, muita coisa extasiante, e buscava, desesperadamente, descontar a gafe com lirismo de olhos trôpegos e mãos confusas.

Só não me vale ouvir balela do tipo “me trouxe ao seu mundo”... Se veio, foi por livre e espontânea sedução, e bem o sabe. E no meu mundo as placas falam em sueco, não há gente mal intencionada (é gente livre), e os beijos são de trás pra frente, porque assim a gente começa do ápice e atinge o início com fôlego renovado.

Hipoteticamente, olvida a vez em que pensou na hora H com desesperança. Entende que a desesperança é uma quimera de quem anda sóbrio? Quando tomávamos nossa sopa de letras suecas, corações em confraria e lábios esturricados, nada lembrava a insanidade do meu dia.

Eu não falo sueco, e, se bem a conheço, não possui tal graça. A noite do meu dia antecipa a desgraça, mas quanta alegria! É bom desintegrar valores no analfabetismo etílico, no gosto da fumaça, e brindar a vida numa ressaca moral sem presságios, sem psicólogos retardados e sem bibliotecárias.

Pois vem! Entra no meu carro de sonhos canalhas que ainda estão bem frescos. Atropelemos o nascer do dia, calemos com desunião a boca suja de quem parece sempre igual. E cada passo dessa via crucis é uma dose de tequila que rasga na garganta com charuto cubano de Feira de Santana...

Olvida agora toda a bondade, toda a humildade, toda a fantasia! Eu extravaso a solidão do dia em que fui dia claro e agora em noite vaga eu vago. Meu trem-coração já vai partindo pra algum lugar, levando um visto de residência para o não-trabalho. E na fluida partida eu te seguro fortemente pela mão, tua boca é uma mácula que pisca-pisca na minha visão. O astro-carro cadente agora é barco pequeno que parte da nascente de um luar morrendo...

A tequila que rasgava, agora acaricia, e eu não sei mais ao certo se gargalho perto ou rio longe. Lá fora do ser, o horizonte brilha um céu que nunca teve estrela, e parece mesmo que é pra não celebrar lembrança piegas na cabeça da gente... A garganta está indiferente, a língua é a vastidão latente que se espalha nesse curto universo. A língua é quase um órgão-retrocesso, primitivizando toda essa linguagem, como o velho sueco!

E volto às voltas desse recomeço. Quem colocou as placas ao contrário? Quem destampou meu velho relicário? Eu saio roto e sem destino certo, e lhe seguro agora nos cabelos que vão se unindo aos excitados pêlos que o corpo teima em não desexcitar. A madrugada é a droga da verdade, e esse refluxo de identidade, é a paridade entre nós dois: não há.

E então parindo a dor que me rotula, eu vou sugar essa cachaça impura e poetar no centro da cidade...

depois dali mais nada.

As folhas das árvores farfalhavam num coral que mais parecia cantar o silêncio. Eu atravessava um mundo, e eram só umas quadras... Dentro do corpo, o tempo era um fluido de volume reduzido, extrapolando as propriedades coligativas da dúvida. Na cara eu tinha pouco riso, e só sabia apertar os pulsos, como aprisionasse impulsos que, de vontade minha, não poderiam fugir.

A rua passava como o salto da pauta musical, da nota que suava em meu ouvido em algum dia tal que não me lembro, mas que ela estava certamente lá, porque ela esteve lá em todos os momentos. Seu abraço era um compasso de fuga fugaz, e um remédio intelectualmente acalorado para todo esse afeto. E eu esqueci naquela hora dos punhos fechados que suavam e não abraçavam, cerravam na mão o perfume de outrora...

E quanto mais eu ia, mais eu via no relógio que toda hora era a hora de não ir. Eu não podia entender a sensação que era de fora pra dentro, pois que de dentro pra fora eu só sabia que expelia um peito em propulsão latente.

Quando eu a vi, eu já não vi mais nada. Eu ensaiava e reensaiava palavras inventadas como num poema em que não caberiam erros. E ela era encantadoramente única, pela última vez foi a união de boca, olhos, cabelos e um ser etéreo que me fascinava de um amor não mais amável para a minha existência frágil e confusa. Ali foi um último beijo que não foi beijo, foi conjunção de almas doces e sós. Ali foi um último espalmar de palmas suadas, último olhar de íris triste da luz que não poderia jamais capturar...

Depois dali a televisão, o macarrão sem sal, a vida na janela e as gargalhadas ocas.
Depois dali mais nada.

Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

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"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

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