segunda-feira, 14 de maio de 2007

Infantis Marujos.

Cheirava à brisa aquele dia nosso
Em que almoçávamos bombons de festa
Um som de céu pacato qual seresta
E qual a vista das melhores praias

Gurias desfilavam mini-saias
Se esturricando ao sol do meio-dia
A aposentada se afogou, gemia
Tramando um boca-a-boca nos surfistas

E nos castelos de areia e sonhos
A nossa pátria se estabelecia
Com seriedade de legisladores
E toda a graça que há na fantasia!

Nas longas tranças d’água e seus caminhos
Cada sereia escorregava as formas
Desajeitadas como são as focas
Conquistadoras como são golfinhos

Tatuís, mariscos, caramujos,
Escapavam como bem podiam
Das mãos peraltas de infantis marujos
Das pás de plástico que perseguiam

Nossos minutos se multiplicavam
Nas brincadeiras de aprazer à alma
Se o mar é muito e todo tempo é pouco
Aprenderemos a nadar com calma...

Suja.

Em suas mãos eu me sentia suja
Perambulavam ares de loucura
Por entre as minhas entranhas
Como o prazer do pecador que apanha
Ou da menina que mentindo, jura.

O seu suor me arrepiava a pele
E eu te escondia no meu corpo esguio
Por entre cada curva
Como a canção do trovador na chuva
Cantada para seduzir um rio

E quando morde a dobra do pescoço
Faz desabar a noite em minhas idéias
As mãos se desesperam
Como crianças que de um conto esperam
As aventuras de mil odisséias

A nua ausência quando acordo sua
Perturba o vil silêncio em minha cama
A solidão exulta
Como voltar à mesma antiga lama?
Ou Dionísio se esquecer da uva?

domingo, 6 de maio de 2007

Vinho (ins)tinto.

É cruel o jeito como
A cobra faz o seu jogo
Espreita de longe a carne
Como d’alcatéia o lobo

A cobra que chega mansa
Sopra o veneno no dorso
Que agora o vento se espalha
Gelando o último osso

E salta o lobo canalha
Num corpo feito de louça
Faz marcas, como navalha,
Na pele fresca da moça

E o cheiro da carne virgem
Alastra na mata escura...
A luz da lua derrete
Em meio à fragrância impura

A vítima, que se treme
Corta o vento como faca
Foge da cobra, que ataca
Corre do lobo, que geme

A mulher, que vai depressa,
É como a noite que passa
Abrindo o último vinho
Brindando a última taça...

Ode à humanidade.

Homo sapiens pesquisando sobre sua criação
Aventura, no escuro, as cobiças da razão
Homo sapiens ansiando a liberdade de uma ave
Dispara-se contra tudo mesmo que tudo se acabe

Homo sapiens faz um baile pra comprar sua alegria
E chora quando não pode mais vestir a fantasia
Homo sapiens que não bebe a existência gole a gole
Entorna o poço mais fundo até que a alma se enrole

Homo sapiens vai à escola descobrir os seus valores
Homo sapiens vai à igreja cultuar os seus senhores
Nasce surdo e morre cego com tamanha vaidade
Passa a vida passageiro de um vôo para a verdade

Cada qual é desumano de um jeito diferente
Homo sapiens não enxerga mais que um palmo a sua frente
Dispara-se contra tudo mesmo que tudo se acabe
Homo sapiens é uma rocha sonhando ser uma ave...

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Sofreguidão.

Menina febril
Teu desejo é fragrante como a pele das acácias
Tua carne é um pavio
Que arde os contingentes de um navio de almas

Menina sutil
Vem colher a grossa neve devastando o amor
Teu corpo é o estio
Que esclarece a solidão da derradeira flor

E no cio da vez
Em que eu lhe desvendar o meu maior pecado
Meu prazer é tua tez
Prostrada à espera de um toque inesperado

Menina febril
Cansa qual criança na noite que vem
Teu colo é um rio
E no espelho de tuas águas eu irei além...

Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

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Sobre a dúvida...

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

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