domingo, 29 de abril de 2007

Reflexões de um homem comum acerca do suicídio...

Decerto que um homem comum não prestaria grandes entendimentos ou abstrações à questão suicida. Não ligo, pois não é desse homem comum que falo. Falo do homem cotidiano que desajaria reter-se, e que por tal, penetra num mundo de dúvidas, orbitando uma decisão que, fora do repentino, é impossível de ser tomada, já que o tempo posterior não pode ser previsto.

Como diziam as velhas leis da física, tudo é mesmo muito relativo. Se um alguém ceifa sua vida, sem dúvida surgirá logo uma massa com opinião plenamente formada, bradando em tom uníssono: "Covarde!". Covarde sim, se este homem não teve força para enfrentar seus medos pessoais. E um titã na grande coragem de enfrentar um pavor universal, o da morte, coisa que boa parte da grande massa de críticos não faria jamais...

E se alguém apenas deseja, de forma clara e objetiva, retirar-se de um mundo que não lhe contém as necessidades ou de um viver que não lhe deu a forma dos mínimos anseios?

Pode ser que este homem seja exigente demais, e a vida lhe seja pouco graciosa. Neste caso seria, então, pragmático e racional, buscando apenas uma decisão sintética e certa, para um fim que não fora naturalmente pré-concebido. Seria covarde, mesmo assim?

Todo homem que acha saber demais, pensar demais, procurar demais... fica insatisfeito. Quando algo é idealizado para nós, seja o que for, passa automaticamente a ser abstrato... e não dá mesmo para encontrar. Acabamos, assim, mais e mais insatisfeitos. Poderia entender o suicida então como o mais glorioso insatisfeito. A inadequação ou o desgaste em seu cume.

Noto ainda que se este suicida for discipulo de sartre, niilista, misantrópico, marxista, apreciador de filmes do Bergman, Truffaut ou coisa que os valha, ele, às vésperas de sua escolha, pensará sobre todas as coerências e incoerências da morte em potencial. Caso seja sensato, ele descobrirá incontáveis entes para os dois grupos, pois nenhum homem sensato alcança uma verdade.

De tudo isso, depreendo que não há diagnóstico preciso sobre o suicídio e o suicida. Toda grande decisão acaba sendo fruto de uma pequena parte de reflexão e um mundo de vontades e impulsos. Quanto mais coisas são vendidas para os nossos olhos, mais as queremos... e quanto mais queremos, mais pensamos, mais desenvolvemos teorias, mais inventamos ciência... De pouco em pouco vamos nos afastando da simplicidade, e, com isso, de um esboço primitivo de felicidade, de existencialismo são. Falo da felicidade antiga, quase mitológica, das coisas que a sociedade high-tech não pode comprar.

E assim vamos formando novos homens susceptíveis à qualquer glória ou desesperança. Somos pouco entusiasmados com vontades que realmente partem de nós, mas muito acostumados a seguir padrões e regras, a buscar o inábil, o inalcançável...

É a nossa natureza que nos afasta da simplicidade. O que vou dizer pode ser, ao mesmo tempo, um colossal absurdo e uma reflexão digna: A primitiva ignorância é uma benção...

1 comentário :

Felipe 6 de maio de 2007 17:44  

Ok, o sujeito do vídeo é piegas, embora a intenção seja louvável.
Eu gostei do texto, embora discorde dele em muitos momentos, especialmente se discutimos um tema tão complexo e delicado.

Manifeste-se!


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Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

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