segunda-feira, 30 de abril de 2007

Vive.

Nasce como sopro da manhã que vem
Passa como a chuva que eu tentar beber
Salta como o tempo da palavra amor
Corre como o impulso que quiser pensar

Canta como quem não aprendeu a dor
Tem um jeito torto de olhar pra mim
Busca o fim do céu, e se não tem mais fim
Sabe que o infinito é seu maior ardor

Brinca como quem não pára de chorar
Chora a passarela em que não vê final
Voa sem mover as pernas do lugar
Sonha a eternidade sem saber seu mal

Dá a cara à tapa sem temer a cruz
Dança como louca em qualquer lugar
Faz da madrugada o esplendor da luz
Morre como quem já sabe a hora H...

O mundo segundo os E.U.A...

Crônica: "Um mundo de se ver, não de se falar..."

Certo dia em certo tempo, senti-me cansado da hipocrisia paterna. Peguei na mão minha herdeira e fui mostrar-lhe o mundo, a casca que contém esta casa que poucos têm... Nunca me havia ocorrido esta idéia antes, mas como todo pensamento, teve a sua estréia. Ela perguntava as razões do meu intento, mas era coisa de se ver, não de se falar. Fomos logo, no carro que poucos dirigem, por bairros que poucos exploram... A rua era calma, com a serenidade dos pais que já tornaram aos seus lares. Casas cheias e corações vazios. Eu conversava com ela das coisas do mundo, das pelejas que existem, das doenças que matam. Mas ainda assim era de se ver, não de se falar.

Não queria que sobre ela caísse a pedância da indiferença. E das garotas de Ipanema, basta o bronzeado? Sinto que se o dourado do sol fosse ouro, já teria sido de todo saqueado! Contei histórias míticas: pessoas humanas com fome, com frio, atropeladas pelo descaso da inexistência. Histórias míticas sim, pois com o advento do cérebro, o que se desconsidera é nada. Mostrei a ela as visões mais claras deste nada. Não se chocou, não me choquei. A compaixão do egoísmo é uma chaga tímida que arde em silêncio. Mostrei os passantes comuns, os reis debaixo das marquises, os bêbados, os ricos... Todas as suas colossais diferenças, tão indiferentes. Ao fim ela suspirou e me alertou confusa:

- Mas pai, precisamos agir! Não basta apenas que você me mostre...
Senti alívio. Senti medo. Senti vergonha. Não pude dizer nada em troca.

domingo, 29 de abril de 2007

O acaso em que eu te descubra...

Absurdo seria ir embora,
Sem execrar você por toda a culpa.
E morrer de repente, ou em má hora,
Sem Perturbar-lhe por todo o remorso!

Eu, que me escondo em bancas de jornais,
E tento, ao leo, passar na tua frente.
Eu me disfarço de inconveniente,
Eu me divirto em poesia e prosa!

Para fazer com que me percebesse
Já procurei enriquecer no jogo;
Ser voluntário das nações unidas...
Pesquisei suas flores favoritas,
Descobri o nome do seu cachorro.

Descubra o rosto que lhe dei chorando!
E as esperanças que lhe dei sorrindo...
Já me vesti até de ilusionista,
Mas não a vi por trás dos meus espelhos...

Absurdo seria ir embora,
Sem execrar você por toda a culpa.
E morrer de repente, ou em má hora,
Sem Perturbar-lhe por todo o remorso!

Reflexões de um homem comum acerca do suicídio...

Decerto que um homem comum não prestaria grandes entendimentos ou abstrações à questão suicida. Não ligo, pois não é desse homem comum que falo. Falo do homem cotidiano que desajaria reter-se, e que por tal, penetra num mundo de dúvidas, orbitando uma decisão que, fora do repentino, é impossível de ser tomada, já que o tempo posterior não pode ser previsto.

Como diziam as velhas leis da física, tudo é mesmo muito relativo. Se um alguém ceifa sua vida, sem dúvida surgirá logo uma massa com opinião plenamente formada, bradando em tom uníssono: "Covarde!". Covarde sim, se este homem não teve força para enfrentar seus medos pessoais. E um titã na grande coragem de enfrentar um pavor universal, o da morte, coisa que boa parte da grande massa de críticos não faria jamais...

E se alguém apenas deseja, de forma clara e objetiva, retirar-se de um mundo que não lhe contém as necessidades ou de um viver que não lhe deu a forma dos mínimos anseios?

Pode ser que este homem seja exigente demais, e a vida lhe seja pouco graciosa. Neste caso seria, então, pragmático e racional, buscando apenas uma decisão sintética e certa, para um fim que não fora naturalmente pré-concebido. Seria covarde, mesmo assim?

Todo homem que acha saber demais, pensar demais, procurar demais... fica insatisfeito. Quando algo é idealizado para nós, seja o que for, passa automaticamente a ser abstrato... e não dá mesmo para encontrar. Acabamos, assim, mais e mais insatisfeitos. Poderia entender o suicida então como o mais glorioso insatisfeito. A inadequação ou o desgaste em seu cume.

Noto ainda que se este suicida for discipulo de sartre, niilista, misantrópico, marxista, apreciador de filmes do Bergman, Truffaut ou coisa que os valha, ele, às vésperas de sua escolha, pensará sobre todas as coerências e incoerências da morte em potencial. Caso seja sensato, ele descobrirá incontáveis entes para os dois grupos, pois nenhum homem sensato alcança uma verdade.

De tudo isso, depreendo que não há diagnóstico preciso sobre o suicídio e o suicida. Toda grande decisão acaba sendo fruto de uma pequena parte de reflexão e um mundo de vontades e impulsos. Quanto mais coisas são vendidas para os nossos olhos, mais as queremos... e quanto mais queremos, mais pensamos, mais desenvolvemos teorias, mais inventamos ciência... De pouco em pouco vamos nos afastando da simplicidade, e, com isso, de um esboço primitivo de felicidade, de existencialismo são. Falo da felicidade antiga, quase mitológica, das coisas que a sociedade high-tech não pode comprar.

E assim vamos formando novos homens susceptíveis à qualquer glória ou desesperança. Somos pouco entusiasmados com vontades que realmente partem de nós, mas muito acostumados a seguir padrões e regras, a buscar o inábil, o inalcançável...

É a nossa natureza que nos afasta da simplicidade. O que vou dizer pode ser, ao mesmo tempo, um colossal absurdo e uma reflexão digna: A primitiva ignorância é uma benção...

Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

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Sobre a dúvida...

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

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