segunda-feira, 10 de abril de 2006

o analgésico da solidão.

Em toda madrugada habita a nostalgia e o cansaço... Habitam as lembranças de um dia cheio, cheio de tarefas e de esquecimento... o analgésico da solidão. A solidão é como o amor calado: ninguém nega a sua beleza, mas é plena em amargura, e esta, até o mais belo destrui... Como eu dizia, toda madrugada é um pouco mãe dos tempos: presente, passado e futuro... é dominada num pigmento cinza, um misto de noite, fotografias, poemas e silêncio... as lembranças fazem de nós mais vivos, mais poetas, mais amantes... mas na madrugada vivie-se no agora, no possível, não existem portas por onde sair, nem amigos para os quais ligar, não se pode gritar para externar a dor... não se pode nada... é aí que o poeta se deita, sem intentos, sem caminhos, e sonha, e ama, e chora, e dorme... O sono faz parte da noite e do esquecimento... é o prozac natural dos boêmios pessimistas, ou o combustível matinal dos impulsivos... Mas é quando o sono vence a luta, que não se pode mais adiar o amanhecer de um novo dia, onde estarão lá as portas pra bater, os amigos para os quais ligar, o ar para ecoar o grito... é então que a madrugada, a pausa dos introspectivos, acaba, e vem a angústia fria da rotina das palavras, dos lugares e das idéias... vê-se todas as portas, todos os amigos, e a voz que pulsa na garganta o grito... penso então no mal da vida, que aprendeu desde sempre a ensinar com lições de crueldade: ao mesmo passo que dá o livre arbítrio, o tira... é exatamente a sensação de ter portas à bater, e não podê-las... de ter amigos para ligar, que não se tem desejo ou assunto... de ter a voz para bradar, mas reter-se a um grito mudo... de seguir todos os meios, todas as regras, para não tornar-se um louco... e assim, tornar-se louco por um atalho mais curto...

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Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

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"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

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