quinta-feira, 27 de abril de 2006

a dúvida.

Certas horas é demasiadamente injusto pensar que o preço da vida é a dúvida, e o preço da dúvida é a infelicidade...
Bem clichet: "como tirar da cabeça vultos que habitam o coração ?" o assunto é mais que batido, mas nesse caso, a verdade sempre será uma quimera. Poderia ser natural duvidar, mas há as horas em que essas dúvidas enterram um pobre homem, e por segundos poucos não o fazem sucumbir. A sensação é descabida, o mesmo que levar um "xeque mate" da vida, não há caminhos, nem escolhas, não há portais do tempo nem do espaço... não há fuga. A dúvida é um veneno de doses diárias, é definhar à prazo, é um chute na prova de múltipla escolha... não se pode acertar, nem errar, sem fugir à culpa.

É o fantasma da própria crueldade,
que deixa o homem solto na jaula do livre arbítrio:

"- Se entregarás ao remorso de um algo que fez?
Ou de algo que não fez?"

quarta-feira, 12 de abril de 2006

O bêbado e o eremita.

Se amor e ódio andam juntos, então são como a vitória e a derrota... Mas quem gosta da derrota, ou quer o ódio ? Se amor e ódio então, são de certa maneira, coisas conexas, então melhor é estar longe de ambos... Se melhor é estar longe do amor e do ódio, melhor é ser frio, solteiro e pacato... mas todo homem frio, solteiro e pacato busca um pouco de amor... Então seria o amor a metade cheia de um homem vazio? Então estaria o amor em todos os lugares, assim como um deus?
É sabido que nem todo homem frio, solteiro e pacato bsucando o amor, o acha... e bebe, e cai febril de álcool e mulheres... seria então a busca do amor o achar do pecado? Poderia encontrar equilíbrio o homem que "eremitar" na montanha longinqua e buscar um deus? Sem querer poderia encontrar amor ou saudade... Poderia encontrar no beco mais inesperado, um pensamento vinculado a alguem... Então esse homem bêbado, ou esse eremita, estão sempre buscando um só ponto onde todas as virtudes e todos os seus pecados convergem...
Afinal, de que outra forma se explica o achar do amor no pecado, da cura na bebida, da solidão no sexo, e ainda usar-se de Deus como o coringa das diversas frustrações?

Não existe coerência se tanto o amor, como a solidão, são partes vivas de uma mesma busca...
Se tanto o bêbado como o errmita não sabem onde começa a alegria, continua a nostalgia, se alonga em tristeza e volta à alegria... O homem é, ao mesmo tempo, completo e incompleto porque pensa e é livre para isso: ele ama, odeia, deseja e repudia, pois é dos seres mais sintéticos: Concatena todas as coisas em uma só, tornando o seu mundo um grande teatro de temas inesperados...

que jeito ?

Não posso mais dizer que não
Se meus olhos provam-te o contrário
Se minhas mãos, errantes por teu corpo
Vem descontar na letra estremecida...

Se ainda restar no peito a vida,
Vive no sono a aflição da dúvida,
É o querer desmedido nos pequenos atos,
Dos quais não sabe-se que a culpa,
É a triste mudez que se encontra no peito.

Talvez seja um grosso e involuntário erro,
A não omissão de pequenas partes do meu eu,
Sequer de mim mesmo...

Idealizar o amor é uma virtude,
Amar demais é meu maior defeito.
Para que guardar a frase, e de que jeito ?
Se o meu temor atira da garganta,
Um impulso maldito, que grita, que chora,
Que canta...

Não surtarei por ser vítima da irracionalidade,
Não posso mais pintar o quarto em breu,
Sucumbir a vida em coerência,
E me esconder na noite...
Não precisava te contar a novidade,
A Verdade, bem o sabes,
É que eu te amo.

segunda-feira, 10 de abril de 2006

o analgésico da solidão.

Em toda madrugada habita a nostalgia e o cansaço... Habitam as lembranças de um dia cheio, cheio de tarefas e de esquecimento... o analgésico da solidão. A solidão é como o amor calado: ninguém nega a sua beleza, mas é plena em amargura, e esta, até o mais belo destrui... Como eu dizia, toda madrugada é um pouco mãe dos tempos: presente, passado e futuro... é dominada num pigmento cinza, um misto de noite, fotografias, poemas e silêncio... as lembranças fazem de nós mais vivos, mais poetas, mais amantes... mas na madrugada vivie-se no agora, no possível, não existem portas por onde sair, nem amigos para os quais ligar, não se pode gritar para externar a dor... não se pode nada... é aí que o poeta se deita, sem intentos, sem caminhos, e sonha, e ama, e chora, e dorme... O sono faz parte da noite e do esquecimento... é o prozac natural dos boêmios pessimistas, ou o combustível matinal dos impulsivos... Mas é quando o sono vence a luta, que não se pode mais adiar o amanhecer de um novo dia, onde estarão lá as portas pra bater, os amigos para os quais ligar, o ar para ecoar o grito... é então que a madrugada, a pausa dos introspectivos, acaba, e vem a angústia fria da rotina das palavras, dos lugares e das idéias... vê-se todas as portas, todos os amigos, e a voz que pulsa na garganta o grito... penso então no mal da vida, que aprendeu desde sempre a ensinar com lições de crueldade: ao mesmo passo que dá o livre arbítrio, o tira... é exatamente a sensação de ter portas à bater, e não podê-las... de ter amigos para ligar, que não se tem desejo ou assunto... de ter a voz para bradar, mas reter-se a um grito mudo... de seguir todos os meios, todas as regras, para não tornar-se um louco... e assim, tornar-se louco por um atalho mais curto...

sábado, 8 de abril de 2006

o sinal.

O sinal bate e avisa a hora da chegada... mas não o sinal do pátio, o sinal inteiror em mim mesmo... Não fala de qualquer um, mas avisa a tua chegada... Diz coisas absurdas, atira em meus ouvidos palavras sobre mim mesmo as quais eu nunca ouvira... Dispara verdades... sinto a respiração pulsar como se não coubesse mais no peito, sinto-me angustiado... penso compulsivamente em não te amar, que não te amo... como o bêbado, mais que do whisky, foge da loucura. Escapo os olhos na mobília, nas paredes, no fundo dos teus olhos... Sou o viciado arisco, combatendo a compulsão, a loucura, e os sinais óbvios de paixão... E tantas verdades e mentiras se misturam, se perturbam, se enroscam, ao ponto que o ser ou não ser é momentâneo, é o filho único do impulso de um tempo qualquer... é um fruto da oportunidade certa ou errada... é o que se faz dos medos e dos desejos. Perco-me em você, perco-me em sinais, não sei quais partes de mim te amam ou te inventaram nas minhas idéias... idéias ? As tenho tão poucas que me falta ar e sanidade para saber o que se passa dentro ou fora de mim... Estou tão fora de mim que posso, de repente, me perder em qualquer idéia: que me ame, que me odeie, que eu te ame, que eu te odeie... tão poucas idéias que não posso sequer defender um pensamento fixo, um ponto de vista... Sei agora um único fragmento lúcido dos meus dias: quando o sinal toca, e você sai pela porta, sinto o arroubo de te atrelar a mim aos beijos, e te atirar no ouvido apelações diversas, como fez comigo o sinal; coisas sobre você que nem eu, nem você, imaginemos...

lembranças...

É estranho quando, por exemplo, entro no palavras insanas e vejo tudo lá intacto... na verdade a capa de um tempo que não existe mais, a embalagem vazia de outros idos, outros ares, outros "eus", não necessariamente "eus" melhores... tais coisas não me vêm como pura nostalgia, mas como uma lembrança angustiante... aquele tempo até tinha suas virtudes, embora fosse eu muito ingênuo... a ingenuidade não deixa de ser, vez ou outra, uma virtude... muitas coisas mudaram, mas não posso dizer de forma alguma que ganhei muito com o tempo, com os sentimentos, com o pouco passar da idade ou os aprendizados... sou humilde pra dizer que não só ganhei, mas também perdi muito: perdi amigos, perdi um pouco da minha paz interior, perdi aos poucos boa parte da crença nas coisas da vida... não sou capaz de avaliar o que valeu ou não desses anos de vida, mas agora posso dizer sem medo que eu preferia estar lá, 3 anos atrás, ingênuo e sentimental em frente à tela vermelha do Palavras Insanas, do que sentir no peito essa angústia de que está próximo o fim das oportunidades que eu tive para dedicar paixão às coisas pequenas, aos amigos e à vida, e eu continuo com a pérfida sensação de deveres morais e sentimentais não cumpridos, de palavras de amor e de discórdia presas na garganta...

Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

Seguidores...

Sobre a dúvida...

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

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