sábado, 28 de julho de 2012

Lentabruptamente


Nós
Vítimas do complexo de matrioshka
─ "Pra dentro, pra dentro, pra dentro"
Refletindo no teto do mundo
Turvo claro infinito
Incontáveis encontros
Tangenciando-nos
E derramando incompreensões
Perfeitamente plausivisíveis
Nos limites da carne
Ao olho obtuso

Pelo chamado
Trilha entreaberta à arte de não discernir
Os fatos das intuições
Numa dança drama darma
Em que vergamos os corpos
Sem desgrudar as bocas
E as pernas e os tempos contorcidos
Pelos caprichos da matéria
E antinomias do desejo
Que forjam perguntas e medos
Só para amortizar

O amor
Mas nada explica nada
No mundo das ideias
O que é, é
Não adianta ou atrasa
É tudo a coisa agora
Esse rodamoinho que imprime
No avesso da resposta
O que eu não sei dizer

A interferência
Altamente sonora
Sibilando descoberta
E espalhando-nos
E imiscuindo-nos
Lentabruptamente
Como um espirro de Deus
Sobre a poeira cósmica

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Inércia

Queria que houvesse ali
Lamparina de azeite
Mas só a luz de poste cortava
23 agora, hoje
Lamparina nem se usa
Os anos não se contam

O tempo é outro
É aquele
Quando iminências deveriam ter sido
Antes que morressem na inércia

Morreram

Morreremos ausentes
No paradoxo menos original do universo

Da miséria ao caos
Midas ao contrário
O que eu toco vira merda

Meu lábio
Rachado e seco
Não vejo cerca, gente ou placa
Que indique o tamanho
Dessa promessa retirante

Bipolaridade absurda
Procrastinação velada
Piada de mau gosto
Que quebra e cola pedaços
Com a aflição de uma droga

Não, não vale a bad
Esses cinco minutos
Cenário mórbido
Trupe sazonal
Se apresentando em círculos
E circuitos

Precisamos migrar
No vale da onda
Outra desgraça
Outro alimento pra queimar
Na lamparina
Que a gente usa do modo mais deletério

O corpo fala

Avisos claros
Essa luz não presta
Dói nos olhos
Como a atopia que coça
Meu tempo autoimune
Não se move

E volto
À coisa-epiderme
Atrito, carne, chão
Que dó nenhum provê
E o texto não resolve

terça-feira, 5 de junho de 2012

A crônica não veio

"Convivo com ele há tanto tempo, já não sei mais se é bonito ou feio, é apenas ele". Uma amiga soltou essa pérola a respeito de um conhecido. Tal frase foi criando efeitos e desdobramentos na minha cabeça, e nada mais tem a ver, diretamente, com nenhum dos dois. Eu realmente suponho que, um dia, quando se conheceram, ela deve ter tido alguma impressão ao olhar para a cara do sujeito, algum veredicto instantâneo tipo fotografia. Ah, todo mundo sempre tem o seu. Mas passaram os anos, a retina acostumou, e o rapaz, materialmente falando, já virou paisagem. Virou paisagem! Se fazemos isso com uma pessoa, o que não fazemos com o espaço?!

Acho curiosa a dinâmica do transeunte, que é todo conectado, vive atraído pelo movimento, olhando, metendo o nariz, mas se complica quando tem que desligar o modo de albinismo mental, também conhecido como arco-reflexo, piloto automático, ou, ainda, distração, para os menos sutis. Em geral, a gente dá uma primeira escaneada, sente a energia, demarca os pontos de referência, e, daí em diante, nunca mais enxerga nada que não escape fervorosamente ao habitual. Em casa, televisões ajudam, na rua, é o celular, no metrô, são os telões da companhia, que todos nós, acredito, consideramos extremamente úteis em conteúdo informativo. Eu, pelo menos, não sou capaz de ter um dia satisfatório sem conhecer as temperaturas máxima e mínima previstas para Curitiba. 

Falando em metrô, vale contar uma história curiosa: num fim de tarde, a moça descia as escadas intermináveis da Cardeal Arcoverde, quando bateu os olhos no telão. Havia um papo sobre "Pavuna" ou "Saens Peña", qualquer coisa que ela não viu, mas o hábito saiu do controle, as letras foram desembaralhando, isso nunca acontece, e o texto foi penetrando a couraça, e chegou no pensamento, e ela estava lendo "Açúcar", o poema do Ferreira Gullar. Diga-se, de passagem, um bom exemplo de como a crítica social pode ser feita "sin perder la ternura". Poemas mexem com a outra natureza dela, a menos transeunte, e não é todo dia que aparece uma literatura no metrô, quanto mais poesia, quanto mais do Gullar. 

Com o corpo vacilante e serrando uma frase ao meio, ela apertou os olhos, franziu a testa, arquivou as palavras-chave e correu para entrar no vagão, ainda balbuciando o verso lido, mas sem entender porque não esperou pelo seu desfecho. Cinco minutos a mais, um outro trem na plataforma, e ela tinha levado o texto todo na boca. Ficou com o "Açúcar" pinicando na língua, e ficar pensando nisso, que angústia! Ficar pensando... Sorte que a viagem até a General Osório é curta. Lembrou logo que tinha conta vencendo naquele dia, mas não parava de repetir "O branco açúcar que adoçara o meu café / Nesta manhã de Ipanema / Não foi produzido (...)". 

Com a métrica na cabeça, procurou um banco vazio e viu o poema sentado, digo, o poeta, e tudo foi embaralhando de novo, como antes. Como assim? Cadê a verossimilhança? Voltou a franzir a testa e, porra, era o Gullar! Não podia ser outra coisa, aquele senhor que, num ângulo de 45 graus, parece uma senhora de óculos e nariz avantajado. Será que estava indo a Ipanema tomar um café com açúcar? Ela sentou-se ao lado dele, meio emocionada, meio receosa do estado de suas faculdades psíquicas, ficou olhando para a frente alguns segundos, virou, de supetão, e disparou a falar com o homem, contando tudo o que acabara de acontecer. Ele entenderia. Ele tinha de entender, porque a situação, agora, era outra. Por obra do acaso, um quase-compromisso havia sido criado, e o Gullar, sendo o Gullar, teria de partilhar com ela da necessidade de discutir sobre essa relação. Não sei se partilhou, mas completou o restante do poema. "(...) Nem surgiu dentro do açucareiro por milagre (...)". 

Já passadas algumas semanas, ela ainda comprava a Folha de São Paulo todos os domingos e vasculhava a internet na esperança de que o poeta comentasse algo em sua coluna. A crônica não veio. Quando essa moça me contou essa história, descansávamos sobre a grama de uma Quinta da Boa Vista lotada de gente, tinha show, e muitos quase-compromissos apareceram e desapareceram no meio daquela multidão, exatamente como o seu comigo e o de Gullar com ela. Verdadeiros pactos de memória em teia. A minha crônica veio, mas tenho outras que nunca virão. Pelo menos, ainda acho que saberia dizer se a moça é feia ou bonita.

domingo, 3 de junho de 2012

Suspiria

Existe um lado de Rui que Ana não conhece. Não é apenas um lado, e nem um lado qualquer. É algo tragicômico e que, ao mesmo tempo, causa um riso esquizofrênico. Nas aulas de teatro e nos bares do baixo gávea ele vem trabalhando a possibilidade de se tornar o cisne negro, de expurgar a fantasia de homem bom. Não sabe como dizer a Ana que não pode mais vê-la. Ela não entenderia a ideia de não poder, por ser dessas pessoas que acredita em liberdade. Para Rui é um imperativo. Os sensitivos sabem quando um delírio vermelho pode explodir a qualquer momento. Rui precisa ir embora, porque o rompimento é coisa inevitável que vem de anos em anos pra balizar as ideias dos estranhos. Na última sexta ele disse aos alunos, durante um execício de expressão corporal, que é humano querer matar aquilo que se ama, e que é preciso ser voluntarioso para ser ator, ao extremo. Os jovens se entreolharam temerosos de que sua juventude perdida os tornasse quarentões confusos como Rui, pois já não se faz mais causas como antigamente. Numa noite finalmente bem dormida, sonhou que visitava os Estados Unidos e decidia, de súbito, não mais voltar, depois de conseguir um subemprego qualquer por meio de um conhecido. Escreveu carta a Ana contando seu sonho, mas não mandou. Ana não é Freud, ela não é ninguém. Ultimamente Rui tem sentido uma perturbadora vontade de bater na cara dela ou jogá-la numa cama e transar de um jeito que fira a delicadeza da sociedade ortodoxa. Mas o que acontece são essas discussões sobre Chico ser melhor que Caetano e vice-e-versa, o que já não quer dizer mais nada. Quem viu "Suspiria", de Dario Argento, sabe que existem bruxas por todos os lados, e, cedo ou tarde, elas sempre vão aparecer.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Todavia

Tenho um apêndice no corpo
Um amor bruto 
E só consigo lapidá-lo
Ao modo de Penélope
Que tece e desfaz sua trama
Sempre igual
Tudo é sempre igual
O agora é uma criança mimada
Não sabe o que quer
Não sei onde estar
Caberia perder o argumento
Prefiro verdade à razão
Todavia, fui consultar o óbvio
E ganhei um maço de conjunções adversativas
Já fumei todas, nem deu pra noite
Amanhã volto lá
Seja lá onde for
Sempre ávido

terça-feira, 15 de maio de 2012

Borboleta

Quando nada me interessa, quando nada me atrai, quando nada me diz, quando nada me convém, quando tudo vira terra infértil, quando escorre a tinta em meu deserto pintado de aquarela, eu ainda corro pra você, sabia? Feito criança atrás da borboleta hipercolorida em um jardim intacto no centro do inferno. A sua lembrança dói, mas cura, dilata os pulmões, me atina, me recompõe a trilha, e sempre à hora flagrante em que estou prestes a perder completamente o self (o frio piora, eu acho). É o que vale, o mito de criação que sigo montando e remontando, e não sei - nem quero saber - o quanto de "original" lhe sobrou. “Era uma vez...”, e vez em quando vem a estória, que narro ao público com todo o meu teatro, porque, na verdade, quero falar de mim; quero provar que já fui digno, que já fui forte, que já fui jovem, que já estendi a mão ao mundo. Não é só uma questão de amor, mas também uma questão de lógica: eu não posso aceitar que não haja natureza viva, pois, um dia, em outra dimensão do tempo, fui tocado na espinha pela transcendência, mesmo que por instantes, e soube, então, o que significa ser, ou o que significa, simplesmente. Eu vi, eu presenciei, eu tive a experiência, a clarividência, a epifania, o sentimento bruto, na acepção essencial da palavra, puro. E agora, quem vem me dizer que não existe nada? Por que? É só pra machucar? Onde está a delicadeza das coisas? A simplicidade que é tão bonita, se escondeu? De mim?! Não posso permanecer cético, ainda que o brilho do olhar nunca mais... Ainda que o impulso atual seja o do abandono, ou o da morte. A frustração da enteléquia, essa borboleta inalcançável. Será que estou louco? Temo ser vítima do que chamam por aí de "maturidade", mecanismo malogrado de enrijecer para suportar. Devo dizer que, por isso, por essa "maturidade" oriunda de nós dois me ajudar a viver, ou, ao menos, sobreviver, exatamente por isso eu te amo e te odeio. Exatamente porque eu ainda preciso manter o espírito alerta e as palavras carregadas. Para o caso, então, de nos encontrarmos novamente, levo sempre comigo um abraço sincero e uma enorme caixa de interrogações sortidas.

sábado, 28 de abril de 2012

Delírio Coletivo (ou o gênio de Magritte): meditações

“Parece, contudo, que o passado não é capaz de nos iluminar”. (Pierre Lévy – Cibercultura).
Às vezes, me pergunto o que alguns querem dizer com o famigerado “exemplo da história”. Ok, mas... Que exemplo? Que história? Eu confesso que, geralmente, me sinto alienado da minha trajetória enquanto homem, ou da história que deveria ser minha em seus detalhes, em suas passagens não vistas, em tudo o que não passa de um romance (ou um zine mal ilustrado, quem sabe). Não é à toa, com certeza, que já caiu por terra a diferença gramatical entre “história” e “estória”. O passado não nos ilumina. Ele não “representa”, no sentido de que não pode trazer entendimento, mas, talvez, elucidar. A partir daí, há que se atribuir valor a estas variáveis – o entendimento e a elucidação – porque, na contrapartida de uma frágil ambiguidade, não nos interessa tomar estas noções como sinônimas, tendo em vista que a sinonímia, por si só, é uma loucura, e que, para além desta loucura, as etimologias expõem as palavras-conceito em sua nudez original, nos obrigando a suspeitar de suas diferenças.

Se “história” remete a “passado”, então todos os anacronismos seriam – ou são – inescapáveis. O passado histórico parece ser refém da alteridade, ainda que este passado reproduza nomes de batismo e características fundamentais que, em tese, julgamos conhecer. Sendo a alteridade um discurso, e não um sentido, este passado histórico não se mostra capaz de iluminar o sujeito que se lhe defronta anacronicamente, ou de lhe pertencer, mesmo no escopo do que se apelidou como “factual”. Este passado temporal é intangível, pois mesmo o que se considera como a parte material do conhecimento é, entretanto, derivação da linguagem, e se encontra inscrita na dimensão sensorial do ser. 

A falácia da comunicação é, também, a falácia da história. E quem negará o gênio de René Magritte ao pintar “Os Amantes”? Para além do universo pessoal, o desenvolvimento da linguagem esbarra numa pedra imensa, uma terra fantástica, onde toda palavra é construção mítico-literária pautada em fragmentos de sonhos e sensações, pequenas realidades subjetivas em vias de conflito ou associação, tal como o são os átomos. Ora, se utilizamos a palavra “subjetivo”, frequentemente o fazemos como qualificação de algo que é impreciso ou vago, inobservando que nela vigora uma força maior, dada pelo latim, onde o âmago da coisa “subjetiva” é aquele que só se define na esfera do sujeito, o homem em sua unicidade, animado pela curiosa tarefa de ser ator numa superprodução que, ao mesmo tempo, não passa de um monólogo. O diálogo, mesmo o histórico, só pode se estabelecer como um “diálogo de surdos”, tendo em vista o imperativo absolutamente ímpar das linguagens e dos respectivos universos semânticos que as preenchem. Um consenso não difere, portanto, de um delírio coletivo, pois a interação social pressupõe certas “perdas de sinal”, esvaziamentos e desvios no processo de emissão-compreensão da mensagem. As palavras-conceito são significantes ávidos por significados, e estes significados cabem apenas ao sujeito que deles faça uso, segundo suas experiências, desejos e essência. Na solidão inerente ao pensamento, o homem produz ideias que apenas em si encontram guarida, pois não se edificam por palavras, mas sim por essências. Estes significados são projeções suas; obra imaterial do pensamento, eles fecundam, por meio dos sentidos, os significantes da linguagem, e só então adquirem relevância e apontam para algum conhecimento ou lucidez.

A questão crucial a que devemos nos voltar é, justamente, este abismo entre as linguagens de cada “eu” que se expressa e de cada “outro” que o percebe. Por que caminhos as letras atravessam até nos revelar o paradoxo da alteridade, pondo em xeque os estatutos mais vulgares da comunicação? Cabe, então, repensar este delírio no sentido de compreender seu mérito: de que forma podem estes indivíduos sonhar um mesmo sonho? Ou, se estes sonhos são também diferentes e pessoais, como podem apoiar-se mutuamente?

Se história remete a linguagem, e esta, por sua vez, remete ao conhecimento, então precisamos falar, também, sobre aprendizagem. Na hipótese aqui concebida, a aprendizagem possível não se confunde, de forma alguma, com a apreensão de conteúdos, pois a estrita acumulação dos mesmos nada significa além de uma disputa pelo número de verbetes que cada sujeito, como um receptáculo indiscriminado, é capaz de catalogar até o momento de sua morte. A aprendizagem também não seria, em contrapartida, a análise aplicada e acumulativa do “exemplo histórico”, aquela que pretende perpetuar “sucessos” e evitar a repetição de “fracassos”. Acredito que a aprendizagem seja mais grata ao percurso que este homem traça em sua busca pelo “objeto perdido” da psicanálise. A condição humana é a da falta, e o que se pode aprender é fruto do esforço existencial que esta lacuna induz. O conhecimento aparece como um simulacro de que a estrada rumo à verdade possui chegada, e de que a motivação empreendida possui um sentido cognoscível. Em resumo, este conceito de aprendizagem refere-se ao óbvio da semiologia, utopia de preencher os significantes com significados imunes à “perda de sinal” citada anteriormente. Com a frustração na busca pelo significado perfeito, urge sempre apontar em outros significantes os quais, junto ao primeiro, formam uma cadeia de subjeções e sobras: a própria linguagem.

Neste cenário, o aprendizado não pode estar contido num significante que, solto à própria sorte, é somente uma casca, o invólucro que pretende abrigar a ideia, mas nunca ela mesma. Não se pode enxergar quaisquer atos comunicativos ou interpretativos genuínos na condição de aprender, de expressar, de ser história, mas sim atos experimentativos, criativos, ou, até mesmo, artísticos.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Profecia

um dia
ainda vamos nos atravessar de novo
na desgraça do caminho
e eu não preciso de muito
eu não preciso de nada
porque antes de você ter tempo
de cavar o asfalto à unha
e fugir para o Japão
um único olhar meu pode moer
canibalizar
todas os vinhos e festas
da sua vida inteira

sábado, 31 de março de 2012

Saideira

Bebi a últma cerveja, aquela, da garrafa marrom-translúcido, sabe qual é? Fui pegar o 434, deu bad, me arrependi de ser assim, não sei bem como, a Lapa girando, num segundo parecia alegria, depois virou tristeza, muita, não quero isso, mas é rápido, rápido. Não sei. Acendi um cigarro “free”, cigarro de mãe, tão free quando uma excursão de ensino fundamental ao Hopi Hari. Essa pluralidade intelectual-juvenil, cheia de futuros, hormônios, coisas alternativas-que-na-verdade-são-mainstream e entorpecentes, às vezes amamos, mesmo sabendo ser fake. Pura trollagem. A carência é um fato, ninguém consegue se expôr por inteiro, nem um quadro. Amo mentiras sinceras. Amo quando ela mareja os olhos porque sente. Ainda existe o inevitável. Tentei, mais uma vez, chamar o garçom de “Zé” e ser prontamente atendido, mesmo que eu não aceite pagar os 10% no fim desse texto. Deu certo. Esqueci o que estava dizendo... Ah, é que às vezes esqueço que o presente já virou passado quando chega o “ente”. Bêbado até quase vomitar, acho que era eu, perto da Lavradio, pigarreando uns desejos desesperados de viver enquanto dá pra não morrer disso, ou não procurar morrer, mas muda rápido. Me beija logo antes que a gente mude! Não, já mudou. E tanta coisa feita e dita é só um jeito de gastar o momento. Espero ter munição de sobra, só pra torrar agora, ontem, amanhã, e tudo de uma vez quando vier o bloco, aquela menina-Michael-Jakson dançando Billie Jean. A Lapa é sempre cheia de adornos (e Horkheimers junkies). Tenho a impressão de que tudo isso já mora atrás dos meus olhos. Tenho a impressão de que já vi ela sorrir o mesmo sorriso de canto de boca naquele outro dia, outro porre, outros nós, atados e desfeitos com açúcar, com afeto, mas sem futuro. Aliás, será que alguma coisa tem futuro nessa porra? Será que estou dormindo no ponto? O ônibus demora. O cochilo é inevitável. Acontece, eu, com alguma frequência, me metendo não sei onde, os pés pelas mãos, as mãos pelos bolsos, só querendo uma emenda constitucional da Dose Dupla e uma clareza de mundo mansa e transparente como o mar do Peró em fins de Dezembro...

quinta-feira, 8 de março de 2012

Balão de Sorvete

Uma interrogação se arrasta
Entre ruas estreitas
O sexo pulsa em línguas que mentem
É noite atrás dos olhos
Não, é fim de tarde
Tenho fome
Quero comer, com colher de sobremesa
O cérebro de quem acredita
Ainda
Ainda é cedo
Os lobos estão dormindo
Quero foder na mesa desse bar
E evocar a angústia num grito bêbado
Estrada triste
Ainda asfalto
Onde estão os campos de centeio
Que aparecem naqueles filmes?
Caralhos alados entulham nossas bundas
Senhores recitam autores clássicos
Bem na minha cara!
É tudo mentira, tudo, tudo!
(A Eva morde a maçã e sou eu que me fodo?)
Mas se não vejo, não ouço, eu?
Não estou na sala, estou delirando de febre
Na parte mais cavernosa do inferno
Ah, você me vê? Você é louco!
É tudo mentira
A sua voz que declama banalidades
Eu quero transformar numa canção de Caetano
Em memória ao Pentobarbital
Pelo amor de Deus, fica quietinha
É noite atrás dos sonhos
Deita aqui
Nessa calçada suja
Não fosse o monóxido de carbono
Até poderíamos contemplar as estrelas
Mas finge, finge mais! Finge que eu quase acredito
Olha lá a constelação de capricórnio, você não vê?
Voa comigo
Tenho sangue nos olhos
Vícios nas mãos
E algumas moedas no bolso
Ah, quanta cegueira! Ninguém é nada
É tudo especulação
E todo mundo finge que não sabe
Que todo mundo finge que não sabe
Que todo mundo finge tudo
Ou será que ninguém vê o balão de sorvete?
Os lobos estão chegando, olha
Olha como é gostosa
A vida que eu não tive
É tudo mentira mesmo, então é tudo barganha
É tudo carapuça
É tudo verdade
É a alma que se deixa violentar na porrada
Entre tapas invertidos
Bem com os ossinhos da parte de trás
Da mão direita
É o meu hábito de caminhar no escuro
E dar de cara em coxas, peitos, bocetas
Bocas nervosas, cus dando bote
É a finalidade final da existência
Enquanto a máquina nos entorpece
E a solidão da física nos justifica
(Dois corpos não podem ocupar um mesmo lugar
Aliás, será que Sartre comia alguém?)
Nessa puta falta de sacanagem
E de perspectivas
Eu queria era ver a mão do palhaço
Desbaratar nosso delírio coletivo
Esse blá blá blou de ter que ser alguma coisa
De ter que saber alguma coisa
De ter que ter o que dizer
De ter uma história pra contar
E achar essa “erudição” um barato
E onde é que fica o senso de humor?
(Que é o mesmo senso do trágico)
Será que no apocalipse da semiótica
Nos bateríamos uns nos outros
Feito baratas tontas?
Será que embarcaríamos
Em viagens fantásticas
Como num livro de Júlio Verne?
Será que acabaríamos presos no mundo
Da Caverna do Dragão?
Ah, porra, eu quero que a Uni se exploda
Eu quero que alguma coisa me acerte logo
No meio da cara
Onde tudo passa raspando, tudo arranha
Tudo aranha cabeluda
Que nunca morde
Eu quero gozar essa mentira
Eu quero me despir da paixão
Insuportável
Que limita porque expande
Caixa de pandora cuspindo
Selvagerias sinceras
Na substância do corpo
No vazio do copo
Enquanto a vida é válvula de escape
Da vida
Essa ausência me machuca até o tutano
Do último osso
Da última vez em que morri
Até acordar amanhã de manhã
Ao lado da interrogação
De novo

Sobre o blog...

Vivo com Chronos uma relação de contemplação e medo, e à hora de matá-lo minhas mãos balançam: hesito. Meu fracasso é ser menor do que todas as possibilidades, o que é a mais pura condição humana. E numa luta desesperada contra o deus (ou a favor dele?) eu lhe oferto o que ainda me resta... Porque o tempo quer tudo, mas eu só tenho palavras.

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"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico." - Albert Camus

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